“O que você faz fala mais do que você fala”

“O que você faz fala mais do que você fala”

Claudio Marques

28 de outubro de 2013 | 11h09

A segunda experiência de trabalho no Brasil do colombiano Juan Gaona trouxe uma mudança em sua carreira: deixar a companhia na qual havia atuado por 15 anos e ocupar o cargo de diretor-geral, posto equivalente ao de presidente, de uma organização de maior porte, com cultura diferente e senso de urgência distinto. Foi para a nova empresa instigado justamente pelo desafio e por seu gosto de mudança. Há cerca de dois anos no comando da Divisão de Produtos Farmacêuticos Estabelecidos da Abbott Brasil, Gaona, de 40 anos, é formado em engenharia pela Universidad de los Andes, Colômbia. Na faculdade, percebeu que gostava de marketing. Fez pós-graduação na área depois de se graduar. Ainda durante o período de estudos entrou na multinacional europeia Galderma, de produtos dermatológicos. Nela, consolidou a carreira, atuando na Colômbia, França, Argentina e Brasil, – a primeira vez no ano 2000 e a segunda em 2009. Em 2011, se transferiu para a Abbott. A seguir, trechos da entrevista.

 


Gaona. “Sucesso depende do time (IMAGEM: CLAYTON DE SOUZA/ESTADÃO)

Qual foi o seu maior desafio ao longo do seu percurso?
Acho que o mais interessante foi quando aceitei me juntar à Abbott. Foi uma mudança drástica em termos do negócio a gerenciar, do tamanho do negócio que estaria sob minha responsabilidade e, também, em termos da importância que a companhia estava dando – e continua a dar – para o Brasil. O que me chamou muito a atenção nesse convite, primeiro, foi o fato de ser uma companhia muito reconhecida e que eu sempre admirei de longe. Segundo, uma empresa que escolheu o Brasil como um dos principais polos de crescimento para o futuro e, terceiro, um desafio que iria exigir que eu saísse de minha zona de conforto de 15 anos num mercado que eu já conhecida muito bem, indo para mercados que eu não conhecia em detalhes. A mudança também precisaria de uma boa dose de liderança.

Por quê?
Para criar do zero uma equipe que não existia para atingir objetivos bastante ambiciosos, porque nós temos de liderar o mercado farmacêutico no segmento onde atuamos. Com certeza, essa mudança, representa uma das decisões mais difíceis da minha vida. Decidi aceitar o convite, ficar no Brasil e fazer uma experiência boa para minha carreira, também.

Quais foram as suas estratégias e o que isso mais exigiu de você nesse processo?
Acho que o mais importante foi adaptabilidade. Eu gosto de mudanças e a companhia procura muito a mudança. Uma empresa que está em transformação constante obriga os funcionários, e eu me incluo nesse mundo, a serem pessoas bastante dinâmicas e com uma mente muito aberta em termos de adaptação. Eu não conhecia a maioria dos mercados nos quais eu iria atuar, por isso, era fundamental que eu me adaptasse rapidamente a uma companhia muito mais complexa, muito maior, com uma cultura diferente, e que tinha um senso de urgência muito grande para fazer as coisas acontecerem.

Por que você foi procurado?
Eu acho que outra coisa que é fundamental na minha vida, e talvez por isso eu tenha sido procurado, tem a ver com a capacidade de liderança. Um fator-chave de sucesso é você entender que a liderança é situacional e cada pessoa tem uma maneira diferente de abordar problemas, de enfrentar situações difíceis e de propor soluções. E o líder tem de estar bastante atento para saber como consegue desenvolver cada um desses funcionários na medida certa, em função da competência deles, mas também da situação que eles enfrentam a cada dia.

Qual são as característica de um líder?
Em termos de liderança, uma coisa que aprendi e tento praticar diariamente é: o que você faz fala muito mais do que você fala. Todos nós, líderes, temos de liderar dando o exemplo. Você tem de mostrar que uma coisa que você está falando é realmente você o que você acredita e faz. Você é o exemplo. E isso é uma marca minha. Tem de haver coerência entre o discurso e o que se faz na prática. Isso é credibilidade, que é importante e gera a possibilidade de ter uma equipe absolutamente convicta de que aquilo que você está falando é realmente o que você acredita que acontece. Relação de confiança numa equipe realmente funciona.

O que você considera que foi mais difícil enfrentar ao longo do seu percurso?
O dia a dia está cheio de problemas que você tem de resolver, e de fácil não tem nada. Mas eu acho que o mais difícil tem a ver com o fato de a companhia para a qual eu trabalho hoje ter decidido se separar em duas empresas independentes no começo deste ano. Isso trouxe para mim um desafio muito grande de mostrar para essa equipe de funcionários que estava sendo comunicada sobre uma separação, que o futuro da companhia que estava ficando sob minha responsabilidade era um futuro brilhante, mas iria exigir de todos uma mudança na maneira como abordamos nossas discussões sobre quem é nosso concorrente, como o mercado vai se comportar etc.

Como foi a mudança?
A empresa dividiu-se em duas. Nós tínhamos uma companhia que faturava US$ 40 bilhões no mundo e ficou uma de US$ 22 bilhões, que é a nossa, a Abbott, e foi criada uma nova, a AbbVie. E elas têm culturas realmente diferentes, um senso de urgência que é diferente. No nosso caso, a Abbott tem concorrentes completamente diferentes na área onde atuamos e isso exigiu de mim, mais uma vez, uma boa dose de adaptabilidade. É muito importante entender como priorizar o que realmente importa para que o negócio continue crescendo. Priorizar o que realmente faz uma diferença é talvez um dos principais desafios que qualquer líder enfrenta.

O que leva uma pessoa a se tornar o CEO, presidente ou diretor geral de uma empresa?
Eu acho que é principalmente conseguir estar rodeado de equipes de sucesso ao longo de sua carreira. Se você tem desejo, almeja crescer, em termos de ser um líder e em algum momento tem a chance de começar a ser um gestor de pessoas, você tem de aproveitar cada uma das chances que a carreira oferece para juntar o melhor time possível. O sucesso de um líder, qualquer que ele seja, depende exclusivamente do time que ele tem ao redor dele. Na empresa onde trabalhava antes eu consegui formar uma equipe muito profissional, que fez realmente um trabalho excepcional, do qual me orgulho muito. É o mesmo que estou fazendo agora na Abbott, que tem uma equipe de trabalho absolutamente excepcional, da qual me orgulho. A equipe faz com que as coisas aconteçam e funcionem do jeito que você quer. Então, acho que o mais importante, se você quer se tornar um CEO, é entender que seu time e aquela governança que você vai marcar nessa equipe, em termos do rendimento do trabalho, são fundamentais para que isso aconteça, ou não aconteça.

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