O tripé do futuro do trabalho: o digital, a saúde e o meio ambiente

O tripé do futuro do trabalho: o digital, a saúde e o meio ambiente

Em vez de acompanhar listas e mais listas do sobe e desce das profissões, profissionais precisam olhar atentamente para essas três grandes áreas e para as relações importantes entre elas

Marisa Eboli

06 de outubro de 2021 | 10h00

Quais serão as profissões do futuro? Quais estão ameaçadas? É normal que, perante tantas turbulências no mundo, as pessoas de todas idades e gerações fiquem confusas e tentem imaginar como isso impactará suas profissões, carreiras e vidas. Há muitas dúvidas e um turbilhão de novidades.

São divulgadas listas intermináveis catalogando as profissões do futuro e os ofícios ameaçados de extinção. Em vez de esclarecer, tais publicações aumentam nossa confusão. O que fazer, então? Muitas pessoas me perguntam. Em especial, jovens em início de carreira. Na verdade, tampouco eu tenho a resposta, mas sugiro que analisem com cuidado as tendências que irão definir o futuro da humanidade.

Em 2018, a Singularity University publicou algumas previsões para 2038, enfatizando que o nosso dia a dia não será mais reconhecível, pois a realidade virtual (VR) e a inteligência artificial (IA) sacudirão todos os setores da vida humana no mundo inteiro.

Modelo de ‘carro voador’ desenvolvido pela Embraer. Foto: Embraer

Dentre as principais previsões estão:

  • diagnósticos baseados em IA serão usados na maioria dos centros médicos
  • carros voadores entrarão em operação em algumas cidades
  • impressoras 3D farão roupas e materiais para montagem de casas e prédios
  • robôs conversarão em linguagem humana e atuarão como recepcionistas etc.

Tudo é futuro? Nem tanto. No dia 30 de abril, os inquilinos da primeira casa de concreto impressa na Holanda receberam suas chaves. Robôs estilo ‘Star Wars’ já são os novos mensageiros em hotéis. Em julho, também de 2021, a Embraer fechou um contrato para entregar 50 veículos elétricos de pouso e decolagem vertical, será o seu ‘carro- voador’. Ainda em julho, bilionários como Richard Branson e Jeff Bezos inauguraram as viagens turísticas ao espaço.

Várias empresas estão trabalhando em novos meios de transporte aéreo, do tipo ‘ônibus-drone’, capaz de transportar 40 passageiros entre cidades pelo preço de uma passagem de trem. Dias atrás foram lançados os óculos inteligentes, uma parceria entre Ray-Ban e Facebook. Trata-se de uma linha de óculos capazes de captar fotos e vídeos, ouvir música e até mesmo receber ligações. Alexa, da Amazon, virou robô, ganhou fisionomia e agora pode andar pela casa.

Ou seja, tudo isso já não é mais futuro!

O ritmo alucinante das inovações

É indiscutível que as tecnologias inovadoras estão surgindo com rapidez crescente, levando à reinvenção de organizações e setores. Exemplos clássicos: o telefone fixo, uma tecnologia revolucionária em sua época, demorou 75 anos para o seu uso atingir 50 milhões de usuários; a adoção de telefones celulares levou 12 anos para atingir a mesma marca; o smartphone levou 16 anos (de 1996 a 2012) para atingir 1 bilhão de usuários, e depois apenas 4 anos para atingir 2 bilhões. Olhando as curvas de crescimento, vemos que são descritas por equações exponenciais.

As empresas devem analisar como as tais tecnologias exponenciais impactarão a sociedade e como isso impactará seus negócios e seu conjunto de competências essenciais (as core competencies). Devem olhar e monitorar a evolução muito além dos concorrentes e do próprio setor. Um exemplo icônico é a Sony, que possuía uma competência excepcional: conceber, produzir e vender equipamentos eletrônicos de consumo miniaturizados. Foi a concorrência que derrubou esta competência de ‘miniaturização’ da Sony? Não, foi o avanço da tecnologia, em especial dos smartphones.

Tudo indica que, além da propalada inteligência artificial, da realidade virtual e da realidade aumentada, outras tecnologias exponenciais impactarão sobremaneira a nossa vida no planeta.

O mercado global de veículos autônomos deve alcançar US$ 65,3 bilhões até 2027. Não por acaso, marcas gigantes como Apple, Ford, Google, GM, Toyota, Tesla e Volkswagen estão competindo por esse espaço. O valor dos dispositivos globais conectados à Internet das Coisas (IoT) deve chegar a US$ 75 bilhões até 2025. A impressão 3D é também uma tecnologia exponencial, com potencial de ruptura muito além do que se imagina, gerando oportunidades estimadas em US$ 1,7 trilhão. O interesse em desacelerar ou interromper o processo de envelhecimento impulsionam o setor de biotecnologia e biologia digital, estimando-se um mercado de US$ 727 bilhões em 2025.

  • Quer debater assuntos de Carreira e Empreendedorismo? Entre para o nosso grupo no Telegram pelo link ou digite @gruposuacarreira na barra de pesquisa do aplicativo

Para quem quiser aprofundar essa discussão recomendo fortemente a leitura do artigo Reinventing The Enterprise: Exponential Technology Trends That Will Define the Future (Reinventando o Empreendimento: As exponenciais tendências de tecnologia que vão definir o futuro, em português), publicado pela Singularity University (SU).

Sem dúvida, colocar a inovação na agenda é essencial para toda empresa que pretenda sobreviver. Uma pesquisa realizada pela SU mostrou que 70% das organizações pesquisadas tratam a inovação como uma prioridade estratégica. No entanto, há uma lacuna alarmante entre o que as organizações afirmam e o que realmente fazem. Apenas 34% declararam ter um plano de ação documentado para implementar uma estratégia de inovação.

O desastre ambiental

Dentre os assuntos mais candentes, não podemos ignorar o futuro do nosso planeta. No livro Sustentabilidade Planetária: Onde Eu Entro Nisso (2013), Fabio Feldmann já alertava para os graves problemas ambientais que enfrentaríamos. Como observou, “estamos deixando a nossa marca, assim na terra como no céu. Hoje não temos mais dúvidas de que o planeta está se aquecendo devido a um claro processo de mudanças climáticas nem de que essas mudanças são resultado da ação humana”.

O assunto não é novo. E continua requerendo mais ações concretas do que discursos eloquentes. Daí ter se tornado tão urgente. Como diria Edgard Morin: “De tanto sacrificar o essencial em favor do urgente, acabamos por esquecer a urgência do essencial”. Os próprios empresários brasileiros estão muito preocupados e querem que o País seja protagonista da agenda verde mundial.

Por que trago essas reflexões? Porque, se queremos entender como o mercado de trabalho mudará na próxima década, é fundamental analisar minimamente quais as vertentes das principais mudanças que afetarão a todos nós, em todos os níveis, seja a sociedade, as empresas ou os indivíduos.

Em vez de acompanhar listas e mais listas do sobe e desce das profissões, eu sugeriria que as pessoas olhassem atentamente para três grandes áreas ou temas: o mundo digital, a saúde e o meio ambiente. E, certamente, há relações importantes entre elas. Quanto mais as tecnologias evoluem, maior a expectativa de vida e a preocupação com saúde e bem-estar. A tecnologia também pode e deve ser uma grande aliada no combate ao aquecimento global e às mudanças climáticas.

Quanto deixamos de emitir de carbono na atmosfera com o trabalho remoto e com as aulas a distância? Foram criadas por startups calculadoras que permitem avaliar se as atividades remotas ajudam a reduzir as emissões dos gases do efeito-estufa.

O sobe e desce dos empregos

Bureau of Labor Statistics (BLS) dos EUA projeta que haverá 11,9 milhões de novos empregos criados de 2020 a 2030, uma taxa de crescimento geral de 7,7%. Os empregos com as maiores e mais rápidas taxas de crescimento são os técnicos de manutenção de turbinas eólicas e instaladores de energia solar fotovoltaica, que são impulsionados pela demanda por energia renovável. No entanto, em termos quantitativos serão responsáveis por apenas 11.000 novos empregos.

Nove dos 20 empregos que mais crescerão estão na área de saúde ou áreas relacionadas e gerarão mais de 1 milhão de novos empregos. Os empregos relacionados à computação e à matemática também devem registrar um alto crescimento. O LinkedIn recentemente identificou ‘Data Scientist’ como uma das vagas de crescimento mais rápido no mundo.

Oito dos 20 empregos com maior declínio estão em escritórios e suporte administrativo, em função da automação. Operadores de reatores nucleares verão o emprego cair a uma taxa acentuada de 33%. Nenhuma nova usina nuclear foi inaugurada desde a década de 1990 e a energia nuclear enfrenta forte concorrência de fontes de energia renováveis.

No entanto, embora muitos dos empregos de crescimento mais rápido paguem mais, eles normalmente exigem educação avançada. 16 dos 20 empregos com crescimento mais rápido exigirão educação pós-secundária. Essas vagas estão substituindo empregos que exigiam apenas um diploma do Ensino Médio.

E qual a saída? Educação, educação e educação! Porém, não se trata apenas de alongar a presença nas carteiras escolares. É preciso uma educação sólida que prepare para crescer, para mudar, para aprender e reaprender rápido ao longo de toda a vida, para enfrentar o que quer que venha pela frente.

O Brasil está preparado para isso? E a organização na qual você trabalha? E você?

* Marisa Eboli é doutora em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e especialista em Educação Corporativa. É professora de Graduação e do Mestrado Profissional na FIA Business School (meboli@usp.br)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.