Os profissionais ciborgues e o mercado de trabalho

Claudio Marques

31 de março de 2014 | 15h55

 

* Juliana Camilo

O sonho da criação de um ciborgue, um híbrido de humano e máquina, que tenta melhorar as condições do humano, tem habitado as ciências, a literatura, a ficção científica e a mídia, ocupando também um importante espaço no imaginário coletivo.

A série clássica O homem biônico, o filme Robocop ou o Exterminador do Futuro, o famoso livro Frankenstein ou os desenhos He-Man e Wolverine, são apenas alguns dos exemplos dos “amigos” ciborgues.

No entanto, esses personagens saíram da ficção há algum tempo e chegaram a nosso cotidiano. De que forma? A alimentação já bastante alterada e quimicamente tratada (desde leites ultra especiais para bebês), as variadas tecnologias para alterar a estética do corpo, as diferentes parafernálias para a interação social (esvaziado o olho no olho), as ferramentas diversas e artificiais para potencializar (ou seria ciborguizar?) o desempenho, entre tantas outras coisas… Mas o que isso tem a ver com “carreira”?

Temos uma realidade que pode ser contrária à natureza do humano quando partimos do pressuposto que o desejo empresarial direciona-se cada vez mais para o ideal de altíssima performance, entendido aqui como qualidade, junto com a ampliação sem limites do horário de trabalho e disponibilidade para assumir novos desafios, desconsiderando os ciclos naturais do humano de descanso e ociosidade.

Altíssima qualidade, disponibilidade, formação educacional e experiência profissional diferenciada, trabalhar em equipe, comunicar-se bem, ser engajado com as metas da organização e ter uma família feliz (porque famílias com problemas podem afastar o trabalhador de seu foco) remetem a um ideal distante das possibilidades reais do humano.

Daí, haja café, fast food, psicofármacos (antipressivos e estimulantes), drogas lícitas e ilícitas para conseguir jogar o jogo. Que custo para conseguir ter um plano de carreira!

Tornar-se mais uma máquina e menos uma pessoa para atingir objetivos que também são mutantes (ops, serão ciborgues também?) no mercado de trabalho.

Diferentemente dos personagens imortais e com superpoderes das séries, filmes e desenhos, vivenciamos uma condição ciborgue, mas não somos ciborgues. Somos mortais e, por enquanto, constituídos de carne e osso.

* Professora da PUC e psicóloga

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