Overdose no trabalho: uma epidemia que cresce
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Overdose no trabalho: uma epidemia que cresce

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27 Setembro 2018 | 06h58

O pedreiro Jimmy Sullivan se injetava uma dose de heroína toda manhã antes de ir trabalhar. Foto: Heidi de Marco/Kaiser Health News via The New York Times

Jenny Gold / The New York Times

Jimmy Sullivan preparou-se para seu trabalho como pedreiro da mesma maneira que fazia todas as manhãs há anos: injetou uma dose de heroína antes de deixar seu carro.  A primeira vez que sofreu uma overdose no trabalho, em 2013, num canteiro de obras na Virgínia, um colega, que é seu primo, injetou uma dose de Narcan, um antídoto contra opioides na perna de Jimmy. Ele acordou e voltou ao trabalho.

A segunda vez, em 2014, seu primo conseguiu revivê-lo novamente e, depois de descansar uma hora dentro do seu carro, ele voltou ao trabalho. Seu patrão alertou-o de que isso não deveria ocorrer novamente. Mas em questão de um mês ele sofreu novamente uma overdose. Desta vez um colega ligou para o número 911, telefone de atendimento de emergência. Depois de algumas horas no hospital, ele retornou ao serviço.

À medida que a epidemia de opioides continua a fazer estragos em todo os EUA, com um número recorde de 72.000 mortes em 2017,  ocorrências se verificam cada vez mais nos canteiros de obras, em fábricas, armazéns, escritórios e outros locais de trabalho. Uma porcentagem surpreendente de 70% de empregados reportou que suas empresas foram afetadas pelo abuso de drogas prescritas, incluindo a ausência no trabalho, testes de drogas positivos, ferimentos, acidentes de trabalho e overdoses, segundo pesquisa realizada em 2017 pelo National Safety Council (organização não-governamental dedicada à segurança e saúde).

Mortes chegaram a 217 em 2016

Em 2016, pelo menos 217 empregados morreram por causa de overdose de drogas ou álcool enquanto trabalhavam, um aumento de 32% em comparação com 2015, de acordo com o Escritório de Estatísticas do Trabalho. Esses dados não incluem overdoses  que não acabaram em morte, como o caso de Sullivan, ou acidentes causados especialmente, ou em parte, pelo uso de drogas.

Dados  da Occupational Safety and Health Administration (agência do governo dirigida à segurança e saúde ocupacional) fornecem um quadro sombrio desses incidentes especialmente mortes por overdose no local de trabalho: um mecânico da fábrica da Fiat Chrysler em Michigan, um operário de uma construção em Rhode Island, um pescador na Louisiana e um funcionário do Sam’s Club que morreu quando organizava as prateleiras em um depósito da empresa no Texas.

Apesar do problema crescente, muitos patrões ignoram o vício entre seus funcionários, ou não estão equipados e também não se dispõem a enfrentar esse problema difícil que não sabem como resolver, afirmam pesquisadores e executivos corporativos.

A pesquisa do National Safety Council, baseada em entrevistas com 501 gerentes de empresas com 50 ou mais empregados, concluiu que menos de uma em cada cinco companhias se acha mal preparada para combater essa epidemia de opioides. Apenas 13% mostraram certeza de que podiam identificar seu uso. E pouco mais da metade informou ter investigado todos os seus funcionários no tocante ao uso de drogas, mas 40% não monitoraram o uso de opióides sintéticos como a Oxicodona e Fentanil.

Sullivan com os sindicalistas Mike Titus (C) e Matthew Eleazer, que lhe prometeram ajudar a encontrar um trabalho se ele passar num teste de drogas.

Não é que as empresas não estejam conscientes dos danos provocados pela crise dos opioides. Grandes empresas gastaram US$ 2,6 bilhões no tratamento do abuso de drogas e overdoses em 2016. Esse valor não inclui o custo da produtividade perdida. Trabalhadores que utilizam erroneamente medicamentos para dor em média perdem 29 dias de serviço por ano, em comparação com 10 dias e meio no caso de outras companhias.

Muitos patrões, no entanto, não querem reconhecer o uso de drogas em suas empresas.

“Se perguntar a eles, respondem que não têm problemas desse tipo entre seus funcionários”, disse Pat Sullivan, vice-presidente executiva da área de benefícios na corretora de seguros Hylant, de Indiana, que administra os planos de benefícios de mais de 19.000 empresas. “Mas temos acesso a informes sobre prescrições médicas que mostram que existe abuso de drogas entre seus empregados”.

A dor vem com o trabalho

Jimmy Sullivan, hoje com 39 anos, é um indivíduo delgado e sério. Usa uma corrente com uma cruz de prata e tem uma tatuagem de duas barracudas no braço. Pedreiro há mais de 20 anos, tem orgulho das suas habilidades. “Adoro meu trabalho”, disse. Por todos os lugares da cidade onde nos passamos, ele mostrou construções em que trabalhou. “É um trabalho duro e nem todo mundo consegue executá-lo”, disse. O setor de construção  tem a segunda maior taxa de uso de medicamentos para dor e de abuso de opioides,  depois do setor de entretenimento, recreação e de alimentos. Cerca de 1,3% dos trabalhadores na área da construção é viciado em opioides quase duas vezes a porcentagem de adultos na ativa, segundo dados de 2012 e 2014  do National Survey on Drug Use and Health.

Sullivan trabalhou ininterruptamente como pedreiro em Portland nos anos 2.000, apesar do vício – na época era dependente de metanfetamina. Em 2011, era casado e pai de três filhos e, segundo ele, com frequência estava tão dopado que não se reconhecia.

Alarmado com sua situação, Sullivan mudou para Newport News, Virgínia, onde ficaria distante dos dealers e de amigos usuários de droga. Encontrou rapidamente um emprego, mas também voltou a ficar dependente e desta vez de opioides.  A região estava inundada de heroína barata, que ele reforçava com Dilaudid,  um opióide semissintético receitado pelo médico para dor nas costas.Ele tem certeza que vários empregadores seus sabiam que ele usava drogas, mas não se importavam desde que não fosse pego em flagrante. “Eu era tão produtivo que   fechavam os olhos”.  Na época, pensou em procurar um médico, mas não foi em busca de tratamento.

Intervenção do empregador

Sullivan disse que nenhum empregador pediu para ele se submeter a algum teste para verificar se usava drogas.  Mas todo mundo sabia que havia aqueles empregados que desapareciam por longo tempo no horário de almoço, se isolavam e ocasionalmente apareciam drogados. “Se você submeter todo mundo a um teste não vai encontrar muita gente para trabalhar para você”, disse ele.

O Sam’s Club, divisão da Walmart, informou em comunicado que fornece cobertura para casos de abuso de substâncias e problemas de saúde mental de funcionários, além de oferecer ao empregado um programa de assistência. A Fiat Chrysler disse em e-mail que adotou diretrizes mais rígidas no tocante à prescrição de opióides no seu plano de saúde e uso de medicamentos para tratamento assistido de dependência.

Apenas uma empresa, a Giovanna Painting, de Spencerport, Nova York, concordou com uma entrevista. Alan Hart, presidente da companhia, disse ter ficado chocado quando um dos seus funcionários foi encontrado morto por overdose de heroína em um banheiro numa obra da empresa, em 2017.

Hart, ele próprio um ex-dependente de droga, disse que procura ser solidário e ajudar os empregados a irem para um centro de reabilitação, embora não ofereça um plano de saúde.

“Ficamos mais rígidos desde o incidente em 2017”, disse ele. “Realizamos mais testes para averiguar o uso de drogas. Fico mais tempo nas obras. Ando e converso com os empregados, e procuro olhar nos seus olhos”.

Este ano, ele demitiu 12 dos 50 empregados por suspeita de uso de drogas. Foi difícil tomar essa decisão, disse, e perder tantos trabalhadores na temporada com mais acúmulo de trabalho. Mas para ele o risco de manter alguém usando drogas era muito alto.

A Associação dos Construtores recentemente dedicou a edição de primavera da sua revista à epidemia dos opioides. Segundo a entidade,  um número crescente de incorporadoras tem fornecido o Naxolone, um antídoto contra opioides nos seus canteiros de obra. / Tradução de Terezinha Martino

 

 

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