Para os executivos, a oportunidade está lá fora

Claudio Marques

17 de junho de 2012 | 12h32

Nem mesmo o eventual temor de que a economia possa ficar mais lenta está inibindo executivos de buscar novas oportunidades no alto escalão corporativo. Segundo pesquisa feita pela Michael Page com dois mil executivos de média e alta gerência, 73% dos profissionais pretendem deixar a companhia atual nos próximos seis meses. São 6% a mais do que no mesmo período em 2011. O levantamento foi feito em março e divulgado agora.

O movimento não é visto como arriscado por especialistas. Eles acreditam que situações de crise intensificam a troca de executivos que ocupam posições estratégicas nas companhias.
“A escassez e a disputa por talentos ainda são muito grandes no Brasil. E é em períodos de crises que ocorrem mudanças estratégicas no alto escalão, como forma de tentar melhorar o desempenho da companhia”, diz o diretor de educação da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Luiz Edmundo Rosa.

Para o diretor executivo da Michael Page, Marcelo De Lucca, outro fator que contribui para a movimentação e interesse dos executivos em trocar de companhia é o “pé no freio” que as empresas são obrigadas a dar nos investimentos em situações de desaquecimento econômico. “As organizações estão mais lentas no que se refere a investimento ou promoção de funcionários. Com isso, o potencial de crescimento interno foi reduzido. E os executivos querem crescer depressa. O que aumenta a movimentação do mercado.”

O gerente da DeNigris, Gianfrancesco Ghiurghi, de 31 anos, trocou há pouco de emprego para assumir esse cargo na companhia atual, após avaliar perspectivas de ascensão. “O profissional estuda e se prepara muito para obter mais destaque e quer que a empresa faça o mesmo por ele. Não via potencial de crescimento na empresa anterior.”

Outro ponto que tornou a decisão de mudar mais fácil para Ghiurghi foi a autonomia que ele teria para direcionar as ações do seu departamento. “Um cargo de gerência exige bastante autonomia. E eu não tinha isso na empresa anterior. Não dá para ser um bom gestor sem poder tomar as decisões nos momentos de tensão. Esse é o espírito ao assumir um cargo gerencial”, diz.

Apesar de não estar a procura de emprego, a gerente financeira da Villagres, Andreia Nazzini, de 34 anos, foi sondada e gostou da oferta que sua atual empresa fez para que ela abandonasse a organização do ramo cerâmico onde atuava. “Estava bem na companhia anterior, mas fui ouvir a proposta, pois queria ter ideia de qual era a minha imagem profissional no mercado. Se eu estava adequada ao perfil que vinha sendo exigido pelas organizações”, conta a executiva.

O que mais agradou Andreia, segundo ela, foi a postura de seu novo diretor. “Vi que ele tinha muito conhecimento em sua área de atuação e que eu tinha muito a aprender com ele”, diz. A gerente financeira também afirma que aceitou a proposta por causa do desafio. “Tenho um plano de carreira e muitas metas para conquistar. E isso é muito estimulante”, anima-se.

Apesar de estar feliz com sua decisão, Andreia afirma que avaliou bem a proposta antes de aceitar. “Não é bom mudar de emprego por mudar. É preciso pesar o que a nova empresa pode acrescentar na carreira.”

Para o diretor da ABRH, esta é a postura que os profissionais devem ter antes de pensar em procurar uma oportunidade “Sempre há vagas para grandes talentos. Mas quem não está qualificado o suficiente deve ter cautela para não ficar sem emprego.”

‘Profissionais querem alguém que valorize o seu desempenho’

A possibilidade de conseguir uma promoção e um aumento salarial pesam na decisão de um profissional que avalia mudar ou não de emprego. Mas, para especialistas, o grande retentor de talentos continua sendo a atuação de um gestor eficiente.

“As empresas precisam investir em executivos que saibam gerir e reter talentos. A boa relação com a chefia vale mais do que uma promoção, em muitos casos. Os profissionais querem alguém que valorize o seu desenvolvimento e, principalmente, reconhecimento pela sua atuação”, diz o sócio da Alliance Coaching, Pablo Aversa.

Opinião semelhante tem o diretor de educação da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Luiz Edmundo Rosa. “Os chefes são os grandes responsáveis por aproveitar ou não um talento. Se o profissional não está satisfeito com a chefia direta, certamente vai começar a ver o que o mercado pode lhe oferecer e buscar uma alternativa para mudar de emprego”, afirma.

Para ele, as empresas precisam investir em uma boa gestão e na valorização dos funcionários antes de ir buscar no mercado alguém para assumir uma vaga de destaque na companhia.

“Toda vez que a empresa deixa de aproveitar um talento interno, emite a mensagem para os demais profissionais de que as oportunidades estão lá fora. Se o funcionário sabe que a empresa tem um plano de carreira e que há potencial de crescimento, ele acredita que vale a pena ficar.”

Foi o que fez o gerente comercial da Concrete Solutions, Frederico Belisario, de 31 anos. Ele recusou duas propostas de emprego por acreditar no potencial da companhia. “A empresa valoriza o crescimento dos funcionários. Muitos viram sócios e têm participação no negócio. Meu diretor me apresentou planos para a minha carreira e o quanto eu poderia crescer na empresa, por isso eu resolvi ficar.”

Depois de atuar como desenvolvedor e liderar projetos, há três meses, Belisario assumiu a gerência da unidade da empresa em São Paulo. “Estou satisfeito pela confiança no meu trabalho, pelo desafio e por estar abrindo novos horizontes”, comenta.

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