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Para se desconectar no período de férias é preciso planejamento

Pesquisa aponta que muitos executivos não se desligam da empresa durante descanso; gestores contam suas estratégias

CRIS OLIVETTE

19 Agosto 2018 | 09h30

Renata Aranega. Foto: Thiago Nardocci/Divulgação

Você sabia que por mais que as férias sejam aguardadas, os trabalhadores precisam de um tempo para se habituarem ao período de descanso?

“Estamos condicionados ao ‘corre-corre’ diário. Estudos indicam que começamos a aproveitar as férias de verdade somente após dez dias”, afirma a coach da consultoria especializada em inteligência emocional Cicclos, Renata Aranega.

Conseguir se desligar totalmente do trabalho, porém, parece ser impossível na era da conectividade. Pelo menos é o que ocorre com 54% dos mil executivos americanos ouvidos em pesquisa realizada pela recrutadora Robert Half.

“O resultado aponta que 15% deles mantém contato diário com a empresa durante as férias, sendo que 5% fazem isso várias vezes por dia”, diz o diretor geral da empresa no Brasil, Fernando Mantovani.

“Para quem é ‘viciado’ em conectividade e precisa seriamente de descanso, recomendo que ‘esqueça’ o celular e o notebook em casa, ou viaje para um lugar no qual o wi-fi não funcione. Deixe um contato de emergência apenas com alguém de confiança, que só o acionará em caso de extrema necessidade”, recomenda a coach.

Especialista em produtividade e desenvolvimento humano, Geronimo Theml diz que a pergunta que cada um tem de se fazer antes de sair de férias é: o que preciso deixar pronto para que eu tenha férias tranquila?

Geronimo Them. Foto: Larissa Javarini/Divulgação

“Uma dica incrível para quem quer se desconectar do trabalho e curtir as férias é deixar alguém capacitado para responder por você. É essa pessoa quem vai avaliar se será preciso interromper o seu descanso.”

Segundo ele, colaboradores com alto nível de responsabilidade acabam se sentindo responsáveis pelo trabalho, mesmo em férias. “Alguns sentem insegurança quanto ao desempenho da equipe. Outros, não se desconectam pelo simples hábito de acessar os canais de comunicação da empresa frequentemente”, diz Theml.

Diretora regional da empresa de serviços de e-mail Return Path para América Latina, Cecília Belele considera que o apoio da empresa é essencial para que o profissional possa realmente tirar férias. “Primeiro, a companhia precisa ter política que possibilite isso e, em segundo lugar, ter o exemplo dos superiores. Meus chefes diretos quando entram em férias realmente se desligam da empresa.”

Cecília Belele. Foto: Luis Ushirobira/Divulgação

Para que isso seja possível ela afirma que é preciso ter organização. “Identifico, com antecedência, as reuniões que serão realizadas no meu período de férias e nomeio pessoas da minha equipe para serem responsáveis por determinados temas. Isso reforça o sentimento de time entre esses profissionais.”

Cecília determina com antecedência as responsabilidade de cada membro da equipe. “Em dois momentos deixo o escritório avisado sobre o meu período de descanso.

Durante a reunião mensal informo a data de saída e de retorno e indico quais serão os responsáveis por cada assunto. Na véspera da saída, também encaminho e-mail com essas informações.” Ter essa postura, segundo ela, foi um exercício desenvolvido ao longo do tempo. “No início de carreira não era assim, fui aprendendo com o tempo.”

Trabalhando há três anos em uma mineradora africana instalada em Moçambique, a diretora de RH, Karla Santos, diz que faz muitos anos que vem aprendendo a se organizar para poder se dedicar inteiramente ao período de férias.

“Quando estou trabalhando, me entrego completamente. Trabalho até quatorze horas por dia e não sofro com isso. Agora, quando estou em férias, também quero ser intensa e me dedicar ao convívio com minha família e me reenergizar, para quando voltar ao trabalho ter condições de me doar 100%.”

Karla Santos. Foto: Paula Muzzi/Divulgação

Segundo ela, todos os profissionais precisam entender que eles não são eternos em qualquer função que estejam exercendo. “Por isso, é preciso preparar um sucessor.

Hoje, tenho isso muito claro. Normalmente, três meses antes de entrar em férias começo a envolver a pessoa que vai me substituir nos assuntos que estou conduzindo. Vou compartilhando informações e e-mails. Quando saio de férias, essa pessoa já está sabendo de todos os assuntos.”

Karla destaca um aspecto importante nesse processo. “Apoio todas as decisões que essa pessoa tomar durante a minha ausência, seja certa ou não. Se a decisão for acertada, ótimo. Se não for, tenho de dar suporte a ela para ajustar o que não está certo. Dessa forma, dou tranquilidade à pessoa que me substitui e ela não fica insegura.”

Para o gerente regional da Light, Leonardo Fernandes, empresas que têm cultura voltada à qualidade de vida respeitam e consideram fundamental que os funcionários não sejam incomodados nas férias.

O engenheiro conta que trabalhou em uma empresa que não tinha essa postura. “Mesmo sabendo que a pessoa estava de férias, ela era acionada e sofria pressão para que quando voltasse ao trabalho já soubesse de tudo o que estava acontecendo na companhia.”

Na Light, diferentemente, Fernandes afirma que a cultura é de respeito às férias. “Deixo tudo alinhado com o meu superior em relação à agenda do meu sucessor”, conta.

Leonardo Fernandes. Foto: Claudio Eduardo da Silva Santiago/Divulgação

Fernandes diz que realizar um bom planejamento funciona muito bem para ele. “Eu me reúno com a pessoa que irá me substituir e informo todas as atividades que ela terá de executar. Também programo o e-mail corporativo colocando um alerta de férias e redirecionando as mensagens para o meu sucessor.”

O gerente não deixa pendente nenhuma tarefa que dependa exclusivamente de sua decisão e se policia quanto ao uso de celular. “É imprescindível que a pessoa não use o aparelho para acessar grupos de conversa do trabalho e o e-mail corporativo. Na verdade, é preciso mudar o hábito do dia a dia”, afirma.

A coach acrescenta que as pessoas devem usar as férias como parada estratégica para recarregar as baterias. “O cérebro precisa de descanso. Isso faz bem não só para a saúde e para as relações sociais e familiares, como para as relações de trabalho e resultados profissionais, que serão mais consistentes após férias bem curtidas”, salienta Renata.