Pense além do salário se for trocar de emprego

Claudio Marques

22 de abril de 2013 | 08h14

Edilaine Felix
ESPECIAL PARA O ESTADO
A troca de emprego pode ser o momento de avaliar novas perspectivas e obter motivação para realizar um sonho. Foi o que aconteceu com a estudante do último semestre de engenharia civil Priscila Paixão, 26 anos. Depois de ter passado os últimos sete anos no departamento de facilities da Oracle, ela foi demitida e aproveitou a situação para dar uma guinada em sua vida profissional e encarar definitivamente a área que escolheu seguir, a engenharia.
“Procurei emprego na área de facilities, mas sabia que era o momento de investir em engenharia”, conta. As vagas para a área de facilities brotaram dois dias depois que começou a procurar uma colocação. Uma delas oferecia ótimo salário e benefícios e o local de trabalho era perto da casa dela. Seria perfeito se também não tivesse aparecido a oportunidade de atuar em uma empresa de engenharia.
Priscila não hesitou e aceitou a proposta da Tecbarragem, da área de engenharia. “Comecei como estagiária, pois assim vou conhecer o negócio e um produto da engenharia que é novo para mim”, diz. A futura engenheira aceitou ser estagiária depois de já ter ocupado um cargo de coordenação. E não se arrepende. “Estou gostando muito, aprendendo, vendo a realidade da engenharia.” Ela conta que, embora o salário da outra proposta fosse bem maior, ela só pensou no aprendizado e no desenvolvimento que a função lhe proporcionaria, mesmo começando como estagiária,.
Por enquanto, Priscila atua no escritório prospectando clientes, analisando desenhos de projetos, participando de reuniões para conhecer o produto, mas já esteve em uma obra. “Fui conhecer uma passarela em construção e foi muito gratificante.”
Mais do que salários, muitos fatores podem influenciar o momento da troca de emprego. A assessora de entidades filantrópicas Rita Negro, 45 anos, afirma que o sonho de fazer o bem e ajudar o próximo, e ainda ganhar para isso, foi determinante na hora de mudar o rumo de sua carreira.
“Depois de trabalhar por 20 anos em dois grandes bancos, larguei a vida de empregada registrada pela CLT para ser consultora na área financeira. Mas depois de atender o quarto cliente, percebi que tudo continuava igual. Eu já fazia filantropia e percebi que eu queria mesmo era trabalhar com isso”, diz.
Rita continuou na consultoria. Em um bate papo com um amigo empresário ficou sabendo que ele ajudava e apoiava algumas instituições. Ela contou para o amigo seu desejo de se dedicar em tempo integral à filantropia e um mês depois foi convidada para trabalhar com ele.
“Eu só pensei em uma coisa: é isso que eu quero e eu vou.” Embora muitos tivessem falado que era uma loucura aceitar, o idealismo falou mais alto. Disse sim sem mesmo saber o salário que receberia.
Quando soube da proposta salarial, ficou surpresa. “Superou as minhas expectativas. Trabalhar ajudando o próximo e ainda ganhar para isso! Estou realizada”, confessa. Ela visita instituições e elabora relatórios a respeito da necessidade de cada uma das entidades.
A diretora de desenvolvimento da consultoria DMRH, Sandra Cabral, ressalta que o salário é um fator válido no momento de avaliar a troca de emprego, mas o candidato está cada vez mais interessado em saber o quanto a empresa agregará para a sua vida. “O profissional busca uma empresa que dê desafios para ele, oportunidade de conhecimento e perspectivas de desenvolvimento.”
Sandra ressalta que no momento de mudança é bom saber claramente quais os desafios a serem enfrentados. “Ser feliz e fazer o que gosta é premissa básica também na vida profissional”, observa.
Já o consultor do Vida Investe, programa de educação financeira e previdenciária da Fundação Cesp, Wilson Muller, defende que no momento de optar por um novo emprego o profissional não deve olhar somente o salário, mas também avaliar os benefícios (veja quadro acima).
Considerações. Para o headhunter da empresa de recrutamento especializado Michael Page, Marcelo Cuellar, antes de mudar de emprego é preciso considerar a empresa, a estrutura, a posição, o gestor, o clima, pois levar em conta somente salário pode trazer infelicidade.
“É preciso entender qual é a empresa e o quanto vai ganhar, assim poderá avaliar se a mudança não é para comprar uma nova infelicidade”, afirma.
O gerente da consultoria Hay Group, Alexandre Pacheco, concorda que a remuneração pode ser a vilã da história. Para ele, o salário tem suas limitações e, na hora de mudar de emprego, é preciso pensar em fatores como clima organizacional e liderança.
De acordo o gerente da Michael Page, Fabio Cunha, o profissional se adapta rapidamente ao patamar de remuneração. Cunha enfatiza que o trabalhador deve avaliar a permanência na empresa no médio e longo prazo. “Antes de trocar de emprego, é preciso observar a função que é oferecida, como é a estrutura de cargos da empresa, o momento da companhia no mercado e avaliar as perdas e ganhos com qualidade de vida”, diz Cunha.
Autoconhecimento. A diretora da consultoria global de desenvolvimento de talentos LHH |DBM, Caroline Pfeiffer, defende que, além do salário, o profissional deve ter referências da empresa que pretende ingressar e fazer algumas perguntas para si a fim de entender o motivo que o leva a querer sair do emprego.
Caroline diz que conhecer a cultura e os valores da empresa é bastante importante nessa avaliação. Segundo ela, durante a entrevista, o pretendente está preocupado em se mostrar e se esquece de fazer perguntas a respeito das relações, do estilo e o ambiente de trabalho. “Se tem dúvidas, procure informações da empresa, converse com quem já trabalhou nela.”
Segundo Caroline, a remuneração também depende da fase da carreira. “No início da carreira, a preocupação com remuneração é grande, mas na medida em que avança, a autorrealização, o conhecimento, estar alinhado com seu estilo de vida, a empatia com o gestor, começam a fazer a diferença”, ressalta a executiva.

Para consultor, mudança pode ser uma atitude intepestiva

Para o consultor do Vida Investe, programa de educação financeira e previdenciária da Fundação CESP, Wilson Muller, o emprego aquecido no Brasil motiva os profissionais a enxergar com bons olhos uma nova proposta salarial.
Segundo Muller, no momento de optar por um novo emprego o profissional não deve olhar somente o salário, mas também avaliar os benefícios e negociar tudo que não é mensurável, como deslocamento, tempo, qualidade de vida. “Trocar de emprego não pode ser uma atitude intempestiva”, diz.
Custos adicionais. Uma proposta tentadora, com alto salário, pode mexer com a cabeça do profissional, mas é nesse momento que ele deve deixar a euforia de lado e avaliar outras coisas além do salário.
“O grande erro que algumas pessoas cometem é olhar apenas para o salário e esquecer os benefícios e custos adicionais que a troca de emprego pode trazer”, destaca Muller.
Por isso, reforça o consultor, é importante explorar bem se os ganhos são realmente tão interessantes como parecem. Para tanto, ele aconselha a comparar alguns benefícios que podem fazer a diferença (veja quadro no alto da página).
Já a coach e conselheira de carreira e imagem Waleska Farias diz que as pessoas estão em busca de desenvolvimento. E, por isso, quando decidem trocar de trabalho precisam levar em conta suas expectativas.
Desafios. “Claro que o dinheiro é importante, é sobrevivência e autoafirmação. Mas os profissionais querem mais, eles buscam desafios, conhecimento mais prático e diretivo”, afirma.
Com base em sua experiência como coach executiva, Waleska garante que os profissionais estão em busca de desafio com foco no autodesenvolvimento. Eles também querem, acrescenta, ter um chefe comprometido com o seu desenvolvimento, salário atrelado a benefícios e um ambiente de trabalho favorável.
Waleska enfatiza que é preciso avaliar o que é mais importante, uma vez que na vida tudo tem custo e benefício e negociação. “É preciso ter objetividade na construção de uma carreira”, destaca. /E.F.

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