Perfil: a acadêmica que escreve cartões de felicitações
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Perfil: a acadêmica que escreve cartões de felicitações

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02 Novembro 2018 | 07h20

Melvina Young deixou o trabalho acadêmico para se dedicar a escrever cartões. Foto: Christopher Smith/The New York Times

The New York Times

Você, possivelmente, já comprou um daqueles cartões com frases descoladas que traduzem bem o que está sentindo e o que está querendo dizer para alguém. Pode ser de felicitação, de desculpas, para dar uma dica ou até mesmo para se declarar para uma pessoa. O trabalho de  Melvina Young, de 55 anos, é justamente escrever esses cartões.  Ela é escritora sênior da Hallmark Cards, em Kansas City, Missouri (EUA) e já foi professora universitária. Por meio de seus textos, ela procura alcançar as pessoas em um nível emocional direto.

Quão difícil é escrever breves linhas para um cartão de felicitações?
Isso é o que muitas pessoas pensam, que somos os pouco intelectuais que fazem parte da profissão de escritor, temas de piadas e filmes. Francamente eu também pensei que seria uma tarefa cotidiana. Mas ela exige um conjunto de habilidades específicas e bem aprimoradas. Faço muita pesquisa, participo de grupos de debates, leio o The New York Times, confiro fóruns de discussão, Tumblr, Pew Research, o site de análise política FiveThirtyEight de Nate Silver, estudos de tendências de consumidores, e temos sessões de brainstorming antes de sentar para escrever.

Qual foi a sua experiência profissional com textos antes de ingressar na Hallmark?
Eu vim da escrita acadêmica. Com mestrado em estudos afro-americanos e como candidata a doutorado em história dos EUA na Universidade de Wisconsin em Madison. Lecionei estudos de mulheres, história negra, empatia e justiça social na universidade e escrevi artigos, como “Explorando Narrativas da World Psychiatric Association: Encontrando as vozes de homens e mulheres negros”, publicado em 1993 em  “Teorizando os Feminismos Negros: O Pragmatismo Visionário de Mulheres Negras”, editado por Abena P. A. Busia e Stanlie M. James.

Melvina Young deixa um poema de sua filha em seu escritório. Foto: Christopher Smith/The New York Times

Que capacitação você trouxe desse histórico para se dedicar a escrever cartões?
Em meus estudos e ensino, concentrei-me nos relacionamentos a partir de uma perspectiva sócio-histórica ampla. Eu senti que se você pudesse compreender a raiz de certas injustiças sem culpa, então seria mais fácil construir conexões e coalizões que realmente afetassem a mudança. Na Hallmark, descobri que você poderia alcançar o mesmo objetivo por meio de palavras significativas que tocam as pessoas emocionalmente, uma a uma. Penso que as habilidades mais importantes que trago para este trabalho, selecionadas das minhas próprias experiências de vida e dos meus estudos, são empatia, compaixão e o estabelecimento de uma conexão.

Quais experiências pessoais deram informações à sua escrita?
Quando entrei em 2006, escrevi para a Mahogany, nossa marca para mulheres afro-americanas. Como uma mulher negra que passou os primeiros seis anos de sua vida na segregada Lepanto, no Arkansas, cujos avós não puderam obter nenhum outro trabalho além de empregadas domésticas, catadores de algodão e agricultores, eu apresentei muito mais do que minhas credenciais universitárias. Minha voz de escritora traz autenticidade à tarefa. Eu sempre quis ser escritora, mas não conheci nenhuma escritora negra até os 12 anos e li I Know Why the Caged Bird Sings (Eu sei por que o pássaro enjaulado canta, em tradução livre), de Maya Angelou, para a qual o Arkansas teve um papel importante.

Além de escrever para Mahogany, qual é o alcance do seu trabalho para a Hallmark?
Eu também escrevo sobre compaixão, humor e cartões que celebram ocasiões. Sou particularmente forte em mensagens de amor romântico, uma habilidade que me surpreendeu.

Eu defino ideias e escrevo livros, blogs, conteúdo de internet, até mesmo frases de canecas e camisetas. Gerencio um blog interno chamado Vibrant Voices, no qual analisamos questões atuais como saúde mental, deficiências e eventos como o que aconteceu em Charlottesville em 2017. Escrevi um artigo sobre como criar arte empática em nosso consumidor que está no blog Think.Make.Share (Pense.Faça.Compartilhe).  Depois da eleição presidencial de 2016, conduzi um projeto destinado a ajudar as pessoas a curar feridas da divisão entre famílias e amigos, encontrando palavras para reconstruir pontes e rupturas emocionais entre os entes queridos.

Eu escrevi um livro da Hallmark, Ready to Give No Damns: Loving, Living and Laughing Like You Mean It (Pronta para não reclamar: amando, vivendo e rindo como você pretende, em tradução livre), isso ressoando com o movimento #MeToo. É sobre capacitar as mulheres com palavras que as elas precisam ouvir, como “Cada vez que ela se levanta para se defender, suas pernas ficavam mais fortes”. / Tradução de Claudia Bozzo

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