Por que experiência não é determinante para se conseguir um estágio

Por que experiência não é determinante para se conseguir um estágio

Desenvolver habilidades comportamentais, as soft skills, como proatividade, é um ótimo começo para se ter o que mostrar no currículo e ao recrutador em busca de vaga de estágio

Tiago Mavichian

16 de junho de 2021 | 13h05

Vou começar este texto fazendo uma pergunta: você costuma apontar a falta de experiência como a razão para não conseguir uma vaga de estágio? Se a resposta for “sim”, convido você a ficar comigo até o final deste artigo. Em minhas conversas com estudantes, ouço bastante esse argumento. E, aqui dos bastidores, sei que este não é o principal motivo das reprovações.

Veja bem, não estou dizendo que as empresas não valorizam experiência, principalmente para posições efetivas. Trabalho anterior, formação e cursos realizados são aspectos relevantes, que todo recrutador tem no radar durante um processo seletivo. Mas não são mandatórios — ao menos para vagas de estágio.

Coloco isso com alguma propriedade. Uma pesquisa recente da Companhia de Estágios com mais de 400 profissionais de RH corrobora o que estou dizendo. Ao questionar o que eles consideram importante para contratar um estudante, sabe o que responderam? Habilidade de trabalhar em grupo (75%), proatividade (70%) e flexibilidade (37%). Já os pontos que podem eliminar um candidato, os RHs pontuaram como determinante postura considerada inadequada (84%) e não ter os mesmos valores que a empresa (57%).

Repare: em ambos casos, nenhum dos pontos levantados diz respeito à experiência que se coloca no currículo. Mas estão relacionados a habilidades comportamentais, as chamadas soft skills. Ou seja, quem está por trás da seleção sabe que os candidatos estão em início de carreira e, muitas vezes, precisarão de uma primeira chance para entrar no mercado de trabalho e se desenvolver. Essa, inclusive, é a função social do estágio.

A experiência anterior não é obrigatória, mas a busca por atividades complementares podem te destacar como candidato. Foto: Unsplash

Portanto, se você está vivendo o dilema “para conseguir um estágio, preciso de experiência e, para conseguir experiência, preciso de um estágio”, respire fundo. Cá entre nós, existem diferentes maneiras de mostrar que você é uma boa escolha para a empresa. Isso passa por saber do que gosta e do que não gosta; pela vontade de aprender e, sobretudo, pela disposição para sair da zona de conforto.

Se eu pudesse resumir em uma palavra o que é preciso fazer para compensar a falta de experiência, seria vivência. O que quero dizer com isso? Que o recrutador vai analisar conhecimentos adquiridos em outras situações que não as profissionais. O foco da avaliação será em experiências de vida e como elas ajudaram o candidato a desenvolver as habilidades comportamentais (as soft skills).

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Explico melhor. Se uma empresa busca um estudante de Comunicação, ela tem a expectativa que ele tenha experiência prévia em uma grande redação ou agência. Mas vai valorizar um jovem comunicativo, que comprove estar por dentro das tendências na sua área; demonstre curiosidade, escreva bem. Um curso complementar, de técnicas de SEO ou gestão de mídias digitais, cai bem.

Até aqui, só apontei fatores que dependem mais do candidato do que de um emprego em si. E vou dar mais alguns exemplos:

  • Ser voluntário em projetos sociais na igreja, numa ONG, na organização de cestas básicas ou em qualquer atividade que colabore com a comunidade;
  • Atuar em empresa júnior; participar do diretório acadêmico ou ser representante de sala. Tudo isso traz repertório e desenvolve habilidades como iniciativa, organização e liderança.
  • Fazer trabalho temporário. Um vendedor de loja ou um garçom, por exemplo, relacionam-se com pessoas, enfrentam pressão e convivem com conflitos, ganhando experiência em comunicação, negociação e agilidade.
  • Realizar estágio de férias (remunerado ou não) ou, se tiver condições financeiras, fazer um intercâmbio também são vivências interessantes. Aqui vale lembrar que os estudantes além de estudar podem também trabalhar no exterior, voltando com duas experiências na bagagem.

Ao mostrar no currículo e na entrevista que você foi além das aulas da faculdade, passa ao recrutador a mensagem de que é proativo e não está acomodado, o que é um excelente diferencial. Procure as vagas para os cargos do seu interesse e avalie o que elas pedem, as habilidades exigidas e as desejáveis.

Vejamos outras ações estratégicas para rechear sua bagagem:

1. Faça cursos

Cursos para a sua área, que fortalecem seu lado técnico, são muito bem-vindos. De curta duração, online, presencial, pagos ou gratuitos, não importa, o ato de buscar conhecimento traz benefícios enormes para a percepção sobre o candidato. Isso porque, o ato de estudar desenvolve não apenas hard skills (conhecimentos técnicos), mas também soft skills, pois exigem que o profissional interaja com colegas, exponha ideias, faça trabalhos em grupo ou realize apresentações.

2. Busque autoconhecimento

Quando você entra na faculdade, nem sempre tem clareza sobre a área que deseja atuar, afinal a maioria das carreiras oferece uma série de possibilidades. Tudo bem não ter certeza logo no primeiro ano. O recrutador vai tentar entender o quanto você já pesquisou sobre o segmento de atuação para entender o quão curioso e pró-ativo você é. Quanto mais você souber do que gosta (ou não) de fazer e quanto mais conhecer as suas facilidades e os seus pontos a melhorar, mais fácil ficará de decidir sobre a área.

Lembre-se que existe uma tendência de mudanças rápidas, com as pessoas tendo duas ou até mesmo três carreiras ao longo da vida. Ou seja, capacidade de se adaptar e aprender serão peças-chave nas contratações. Neste processo de autoconhecimento, converse com colegas, professores e pessoas que atuam na área. Ao saber o que o profissional faz e como é seu o dia a dia, você terá pistas de como funciona o campo de atuação e saberá o que dizer e como se colocar melhor em algumas etapas do processo seletivo.

3. Crie o seu storytelling

Contar uma boa história, sabendo falar sobre valores, crenças e expectativas é um passo fundamental para se destacar na entrevista. Quando você fala das coisas que já fez na vida e da sua trajetória pessoal com paixão, desfaz aquela imagem de alguém sem experiência ou sem energia. Para que você compreenda, vou exemplificar.

Se você toca algum instrumento, conte isso ao recrutador. Essa atividade musical desenvolve o pensamento lógico e matemático, principalmente se você estuda teoria musical. E também exige concentração. Ah, você toca numa banda de rock? Perfeito! Participar de um grupo exige compromisso e dedicação. Se você nada, pratica luta ou um esporte coletivo, fale a respeito. Esportes desenvolvem alto desempenho, disciplina, compromisso.

Acredite, tudo isso vale tanto quanto ter uma experiência profissional para narrar ao recrutador. Por isso, reflita, anote pontos importantes e ensaie em voz alta. Pode ser na frente do espelho, para um amigo ou para alguém da família. Quando dou minhas palestras, ensaio e até cronometro. Os profissionais experientes fazem isso e você pode fazer também. Encare cada entrevista como um treino e boa sorte!

Tiago Mavichian é CEO e fundador da Companhia de Estágios, startup de RH especializada em seleção e desenvolvimento de aprendizes, estagiários e trainees. Pós-graduado em gestão de pessoas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, possui mais de 18 anos de experiência na área de RH.

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