Presença feminina e trabalho pesado

Claudio Marques

17 de dezembro de 2012 | 08h57

Leandro Costa
Andar pelas instalações da Linha 4-Amarela do Metrô e se deparar com uma mulher entre os funcionários da manutenção virou rotina na ViaQuatro. Hoje, a equipe de agentes de atendimento e manutenção conta com 17 mulheres que trabalham em campo, desempenhando funções técnicas. O número pode parecer pequeno a princípio, porém, reflete uma nova etapa na ocupação de espaços pela força de trabalho feminina e na postura das empresas.

Formada no curso técnico de sistemas eletroeletrônicos, cinco anos atrás, Roberta Lima passou quase dois anos desempregada. Nesse período, participou de diversos processos seletivos porém, não conseguiu nenhuma vaga. Das empresas ela ouvia sempre a mesma justificativa. A de que não havia estrutura (vestiários e banheiros femininos) para contratar uma mulher para a equipe de manutenção. Ela conta que em uma empresa onde estagiou tinha de atravessar uma planta inteira só para ir ao banheiro. Hoje, ela atua na área de manutenção da ViaQuatro, realizando análises de vibração eletroeletrônica e termologia dos equipamentos das estações.

Situação semelhante viveu Gardênia Freire, também funcionária da concessionária, quando dez anos atrás se tornou a primeira eletricista de manutenção em uma siderúrgica, em Cubatão. Ela conta que nem vestiários e nem uniformes para mulheres existiam na época. “Naquele tempo mulher só entrava na fábrica para fazer faxina”, lembra ela, que se orgulha de realizar todo tipo de serviço ligado à sua área (manutenção de equipamentos eletromecânicos). “Eu subo em andaime, faço toda atividade pesada que for necessária. Mulher pode fazer qualquer coisa”, diz.

Com planos de cursar engenharia, Gardênia enxerga mais espaço para as mulheres em atividades onde hoje predomina a presença de homens.

“Cada vez mais as mulheres percebem que podem desempenhar essas funções e vão ao mercado em busca dessas oportunidades”, diz a gerente de Recursos Humanos da ViaQuatro, Cristiane Adad. Ela conta que a empresa sempre pensou na presença feminina. Por isso, a estrutura física, a disponibilidade de uniformes e equipamentos não foi problema. “Queremos essa diversidade em nosso quadro, pois a mulher agrega suavidade ao ambiente, além de ser mais atenta aos detalhes”, diz.

A indústria também passa por essa transição na visão do diretor de operações do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), Gustavo Leal.

Segundo ele, nos últimos anos a presença feminina nas salas de aula em cursos nas áreas automotiva, de mineração, petróleo e gás tem crescido. “A industria é cada vez mais demandante de um perfil tecnológico, mais robusto em termos de conhecimento. Então a seleção é o nível de conhecimento e não pelo gênero”, afirma. Ele frisa que a adoção de novas tecnologias nas unidades tornou o chão de fábrica mais moderno, dispensando a força física.

“Vejo isso como uma evolução natural. E as empresas não estão abrindo esse espaço por simbolismo, mas porque elas enxergam que essa inclusão gera resultados”, diz a gerente geral da Refinaria Henrique Lage (Revap), unidade da Petrobrás em São José dos Campos, Elza Kallas, primeira mulher a ocupar um cargo deste porte na empresa. Formada em engenharia química ela ingressou na Petrobrás 29 anos atrás e foi atuar na área de exploração de petróleo, campo predominantemente masculina. Ela conta que durante toda carreira na empresa teve de conviver com a realidade de ser a única mulher, e que isso nunca a incomodou (apesar da falta de estrutura nas plantas). Mas ressalta que hoje, devido a um programa criado pela empresa para promover a equidade de gêneros nas plantas (veja abaixo) a situação está muito mais favorável ao público feminino.

“A participação feminina, com seu estilo de ser mais ponderado, detalhista, sensível se soma ao estilo masculino e isso é bom para a empresa. Ter um quadro composto só por homens, com um único estilo, um único pensamento torna a empresa pobre. Estamos em busca desse alinhamento”, diz a gerente. Ela ressalta que agora, depois de firmar sua presença na área técnica, a mulher precisa é buscar compartilhar mais espaço nos processos decisórios.

Na Petrobras público feminino dobrou
De 2003 para cá a Petrobrás mais que dobrou a quantidade de mulheres em seu quadro de funcionários. Hoje o público feminino corresponde por 15,3% (9.041 funcionárias) do efetivo total da empresa. “Ainda somos minoria, mas em termos relativos, a presença feminina por aqui cresceu 105% nos últimos oito anos, ao passo que a taxa de crescimento relativo da força de trabalho masculina, de 56,1%”, diz a gerente de Orientações e Práticas de Responsabilidade Social da empresa, Janice Dias. Segundo ela, o crescimento é fruto de um programa criado para promover a equidade de gêneros dentro da companhia, criado há nove anos. Ao longo deste período Janice Conta que diversas ações foram tomadas no intuito de permitir a presença de mulheres em todas as unidades de exploração da empresa.

Além da adequação das estruturas contemplando a presença feminina (com a instalação de alojamentos e banheiros) a empresa também criou uma normatização específica para uniformes (com a criação de uma tabela de medidas adequada ao corpo da mulher) e também dos equipamentos de proteção individual (EPI). “A cada período vamos aprofundando a discussão sobre o tema”, conta Janice. Além da adequação das condições de trabalho o programa também visa a discutir assuntos como capacitação, cargos, salários.

“O mercado já compreendeu que a diversidade agrega sabedoria e consequentemente valor. As mulheres passam a se compreender como sujeitos de direito dessas posições e querendo ocupar esses espaços”, diz Janice que nota uma crescente na quantidade de mulheres se candidatando às seleções públicas anuais realizadas pela empresa.

Para a gerente, no entanto, ainda há um longo caminho a ser trilhado para que determinadas funções nas organizações deixem de ter o estigma de ‘coisa de homem’. Na visão de Janice as raízes da questão são profundas e extrapolam os limites das companhias. “Essa associação dos gêneros a determinadas carreiras é reflexo de uma cultura sexista. É claro que hoje a mulher está em outro patamar, é claro que houve evolução. Mas ao entrar num site para comprar um brinquedo você ainda tem o helicóptero descrito como algo para meninos. E desde criança as meninas são orientadas a gostarem de bonecas. Ou seja, a família, a escola e o mercado são sexistas”, conclui Janice, dizendo que essa inclusão não depende apenas das empresas mas de políticas públicas e mobilização por parte da sociedade./L.C.

Cresce a procura por cursos
De olho nas oportunidades de trabalho com o crescimento da indústria naval Maria Aparecida Silva Santos se matriculou no curso técnico de construção naval. Ao conhecer um pouco mais sobre o mercado se matriculou em mais dois cursos para se especializar em soldagem de tubulações navais e inspeção de soldas (estudou em Itajaí – SC). Agora, busca oportunidades nos estaleiros da região sul.

Sobre ter escolhido seguir carreira em um setor amplamente dominado por homens ela diz que se guia pela satisfação profissional e que vê o mercado menos resistente ao ingressos de mulheres. “Os estaleiros já estão mudando de postura, alguns até já me procuraram”,diz.

Assim como Maria muitas mulheres têm procurado os cursos oferecidos pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e que até pouco tempo eram frequentados unicamente por homens. “A noção de que o mercado está mais aberto à elas faz com que as mulheres se sintam motivadas a buscar essas formações”, diz o diretor de operações da entidade, Gustavo Leal.

De acordo com ele, entre 2009 e 2011 o número de mulheres matriculadas cresceu em diversos cursos, como o de mineração, onde o porcentual de mulheres já chega a 27%. Nos cursos ligados à construção 18% do total de alunos são mulheres. Nesse sentido, segundo Leal destacam-se também os setores de Petróleo e gás (13%) e eletroeletrônica (11%), onde a presença feminina nas salas de aula era praticamente inexistente. \L.C.

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