“Procuramos pessoas que nos desafiem”

“Procuramos pessoas que nos desafiem”

Claudio Marques

27 de abril de 2014 | 08h29

 

CLÁUDIO MARQUES

Desde agosto de 2013 no comando da subsidiária brasileira da Microsoft, o argentino Mariano de Beer, de 43 anos, começou sua trajetória na empresa de consultoria McKinsey & Co. em 1996. Dois anos depois, ingressou na Telefônica. Era o momento em que as telecomunicações viviam a privatização no Brasil. No grupo, consolidou sua carreira, ao liderar projetos importantes, como lançamentos da banda larga e do código de prestadora 15. O trajeto culminou com sua chegada ao posto de presidente da Vivo. Em seguida, tornou-se CEO de Educação do Grupo RBS. Na Microsoft, De Beer lidera a fase de transição da companhia para uma empresa de dispositivos e serviços. A organização, que já produz o console XBox e o tablet Suface, anunciou em setembro do ano passado a aquisição da divisão de celulares da Nokia por U$ 7,2 bilhões. A compra foi concretizada na última sexta-feira, dia 25. Hoje, Microsoft já se apresenta não apenas como uma empresa de software, mas de nuvem, mobilidade, publicidade e redes sociais. De Beer é graduado em Administração, com MBA pela Georgetown University. A seguir, trechos da conversa.

FOTO: TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

Numa empresa como a Microsoft, que tem de lidar constantemente com inovação, a gestão também deve ser inovadora?
Com a Microsoft há um desafio de velocidade de gestão. Nós sempre estamos em transformação. De fato, neste momento a Microsoft tomou uma decisão de fazer uma transformação como há muito não se fazia. Estamos indo para um mundo de serviços, de dispositivos, e isso significa que temos de estar numa velocidade muito diferente. A velocidade de tecnologia é muito diferente e a gestão tem de acompanhar essa velocidade.

Como exatamente se dá essa diferença?

Vou dar alguns exemplos. Primeiro, o perfil de pessoas que estamos procurando é o de quem desafia o status quo. Por exemplo, nosso programa de trainee é chamado Challengers, desafiadores (programa de trainee criado no Brasil em 2013; os escolhidos atuam com seus gerentes e mentores no desenvolvimento de habilidades, no compartilhamento de conhecimento e no planejamento de suas carreiras). Estamos procurando pessoas que nos desafiem, inclusive que me desafiem. O espírito de gestão é aquele no qual temos de nos perguntar todos os dias quais são as coisas que temos de fazer de forma diferente. Outro exemplo: as empresas costumavam fazer um planejamento de cinco anos, mas, na área de tecnologia, a cada três meses temos de rever o que está acontecendo no mercado, quais são os produtos que vêm por aí, estamos inclusive numa velocidade vertiginosa de lançamentos de novos produtos. No ano passado, lançamos oito produtos diferentes em oito mercados diferentes que vão desde Xbox One até uma plataforma para grandes empresas. Essa velocidade, eu vejo isso no brilho dos olhos das pessoas trabalhando na Microsoft, é o que dá a motivação de estar trabalhando numa empresa que muda todos os dias, e que temos de manter essa velocidade para continuar.

Qual foi a sensação ao ser convidado para assumir esse cargo?
Talvez seja o desafio mais importante da minha carreira, porque é uma empresa que está justamente em um momento de transformação. Essa transformação, de uma empresa de software para de dispositivos e serviços, é uma coisa que acontece uma vez na vida em uma empresa e eu estou encarregado de fazer isso aqui no Brasil. Trazer toda a minha experiência, que agora é muito relevante, para uma empresa como a Microsoft neste momento de transformação e, ao mesmo tempo, e continuar aprendendo – uma das coisas que mais me motivam na minha carreira é aprender – é muito importante. E eu tenho aprendido todos os dias aqui.

Como sua experiência contribuiu para a ir para a Microsoft?
Eu comecei minha vida profissional numa empresa de consultoria, a McKinsey. E aí eu aprendi o que é estratégia, aprendi a pensar de uma forma diferente. E tive a grande sorte de ser consultor aqui no Brasil no momento em que estavam privatizando o sistema Telebrás e pude participar de uma das maiores privatizações do mundo. E foi uma lição muito legal sobre estratégia. Estava fazendo consultoria para a Telefônica, que acabara de comprar a Telesp, e o presidente da Telefônica me deu duas opções para escolher: ou eu poderia ser diretor de planejamento estratégico ou diretor comercial de clientes residenciais. Esta, na época, era a maior área da Telefônica aqui no Brasil, eram dezenas de milhares de pessoas trabalhando, bilhões de reais de faturamento. E escolhi a área comercial, que era a mais desafiadora.

Saiu da zona de conforto?
A zona de conforto para mim seria ter ido para a área estratégica da Telefônica, mas aprendi que você tem de se desafiar todos os dias, e esse sentimento de desafio é uma coisa que me acompanha até agora. Na Telefônica, eu tive uma carreira longa, de mais de dez anos em diferentes áreas, aprendi serviços e tecnologia, dispositivos também, celulares. E até minha atuação em educação – o foco lá era educação executiva –, e uma das coisas que aprendi é quanto é importante a preparação de um executivo para assumir um cargo e quanto é importante para a produtividade do País.

Qual é a sua marca?
Eu diria que tenho duas características. Um foco muito grande no resultado – fazer acontecer para mim faz uma diferença grande – e o que eu chamo de impacto, mas o impacto também tem outra face, que é trabalhar com as pessoas e através das pessoas. O bom líder é aquele que ajuda as pessoas a atingir todo o seu potencial. O que mais me dá prazer como presidente de empresa são duas coisas no final do ano, uma é conseguirmos aquilo que nos comprometemos a fazer, e a segunda é quando as pessoas que trabalham comigo me falam ‘olha, no começo do ano eu não sabia se conseguiria fazer o que estávamos propondo, mas fizemos’. Participar de alguma forma do crescimento profissional das pessoas e fazê-las atingir todo o seu potencial é uma combinação que tento fazer todos os dias.

Já houve algum momento em que você pensou em desistir ou pensou ‘onde foi que eu errei’?
Quando eu estava no MBA, em Boston, o então presidente Bill Clinton visitou a faculdade e conversou com os alunos. E um deles fez a ele essa mesma pergunta. Ele respondeu que tinha lido todas as biografias dos presidentes dos EUA anteriores a ele e tinha aprendido que os primeiros livros de autoajuda que ele podia encontrar estavam nas biografias. Porque, lendo as biografias, você entende que todo ser humano, até os melhores líderes, tem momentos de dúvidas, tem momentos em que está melhor, em outros que está pior, mas tem uma característica que faz a diferença: resiliência. Ter resiliência nos momentos em que as coisas estão assumidamente ruins, ter essa capacidade de enfrentar desafios para fazer acontecer, essa é a grande marca na minha vida. Eu também passo por momentos difíceis, mas o importante é ter essa motivação. Todos os dias, ao acordar, eu me faço duas perguntas: primeira, eu estou aprendendo? E, a segunda, estou tendo impacto?

Quais são as dicas para quem está começando?
Primeiro, ter muito claro o que quer fazer. A segunda é buscar resultados, sempre tentar fazer mais do que as pessoas esperam de você. E comprometimento em fazer tudo para atingir seu sonho. Ter resiliência é uma das coisas mais importantes. A nova geração tem uma tendência de que, se a coisa não acontece na primeira vez do jeito que esperava, desiste e pensa em fazer uma outra coisa. Então, se você acredita, não desista.

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