Professor particular, escola remota ou nada: como empregadores ajudam os pais

Professor particular, escola remota ou nada: como empregadores ajudam os pais

Benefícios das empresas aos funcionários dependem de onde se trabalha e do tipo de trabalho, o que revela disparidades da pandemia; empresa americana transformou escritório vazio em local de estudos

Claire Cain Miller

27 de setembro de 2020 | 05h05

The New York Times

Os pais que vêm desempenhando várias tarefas de uma vez durante a pandemia – como empregado, professor e cuidando dos filhos em tempo integral – precisam de ajuda. Mas conseguir essa ajuda depende de onde eles trabalham.

Algumas das grandes empresas do país, incluindo a Microsoft, Facebook e Google, vêm concedendo licença remunerada e subsidiando creches e babás para filhos de funcionários. Outras criaram acampamentos online criativos ou contrataram professores e transformaram escritórios vazios em escolas remotas para as crianças.

Entretanto, mais de três quartos dos pais que trabalham não conseguiram mais tempo livre do emprego nem dinheiro para pagarem cuidadores para os filhos, segundo uma pesquisa feita pelo Morning Consult junto a 1.081 pais, para o jornal The New York Times. Empregados com formação universitária e com altos salários são os mais propensos a conseguir uma licença remunerada ou trabalhar em horários flexíveis, e a obter subsídios para pagar professores particulares ou cuidadores para seus filhos.

Os Estados Unidos sempre trataram a questão das creches e similares como um problema que as famílias devem resolver sozinhas. É o único país entre as nações ricas sem nenhuma legislação federal que estabeleça licenças remuneradas e está muito atrás de outras em termos de concessão de subsídios para os pais que trabalham e precisam ter os filhos em creches ou estabelecimentos similares. Mas a pandemia ressaltou o quão dependente é a economia americana dessa assistência. Sem ela, os pais não podem trabalhar.

“Especialmente nos Estados Unidos, onde de fato carecemos de uma liderança neste exato momento, os empregados vêm recorrendo cada vez mais às empresas em que trabalham para cobrir a falta desse apoio que os pais tradicionalmente têm procurado suprir por si próprios”, disse Erin L. Thomas, vice-presidente da área de diversidade e aquisição de talentos na empresa Upwork.

Filhos de funcionários da Kinesis, nos Estados Unidos, têm aula com professora no escritório vazio da empresa, enquanto os pais trabalham em casa. Foto: Leah Nash/The New York Times

Durante a pandemia do coronavírus, o Congresso autorizou a concessão de 12 semanas de licença parcial paga para os pais com crianças em escolas ou em creches que estão fechadas. Mas pelo menos a metade dos trabalhadores não tem tal direito e a crise vem durando mais tempo do que a licença coberta.

Muitas empresas não podem se permitir oferecer benefícios extra. As que podem afirmam que se trata de um ato de humanidade fazer isto para os empregados – e é um investimento que irá compensar.

“Esses trabalhadores estão realizando um trabalho realmente importante, estão gerando muito valor para os clientes e vale muito a pena tê-los trabalhando e fazendo o melhor que podem”, disse Shawn Busse, diretor executivo da empresa de estratégia e marketing Kinesis, sediada em Portland, Oregon. A empresa contratou um professor para supervisionar as aulas online para os filhos dos seus funcionários.

Os empregadores estão tendo de reavaliar os benefícios para os cuidados dos filhos dos seus empregados nestes tempos de pandemia porque as necessidades são diferentes daquelas que eles têm normalmente.

A flexibilidade é o benefício mais comum oferecido pelos patrões, de acordo com pesquisas realizadas. Cerca de 80% dos 1.087 profissionais de recursos humanos entrevistados pela Society of Human Resource Management disseram estar oferecendo horários de trabalho flexíveis. E 50% dos pais que trabalham e responderam à pesquisa feita pela Morning Consult para o Times, disseram que suas empresas estavam permitindo mudanças nos seus turnos de trabalho.

Dylan Taylor, filho da diretora de operações da Kinesis, na escola remota. Foto: Leah Nash/The New York Times

Menos de 10% dos empregadores oferecem ajuda para os pais pagarem por algum tipo de ajuda no cuidado dos seus filhos. Mas esse dinheiro para pagar baby-sitters ou professores é muito mais valioso para os pais do que a flexibilidade de horário ou mesmo uma licença. Embora um pai normalmente necessite de um período de tempo limitado quando do nascimento de um filho, agora as crianças precisam de cuidados, ou mesmo uma ajuda externa para aulas online em casa, por um tempo mais longo.

E embora o custo para os empregadores no caso de horários flexíveis de trabalho seja mínimo, para os trabalhadores esse custo é alto. Para muitos pais é insustentável continuar trabalhando durante a noite ou até antes do amanhecer, ou ter cortes no salário por causa das horas reduzidas de trabalho. Os benefícios financeiros também ajudam os colegas sem filhos que cobrem o trabalho do empregado em casa, permitindo aos pais voltarem a trabalhar em tempo integral.

“O que ficou claro na nossa pesquisa interna é que os pais querem continuar trabalhando”, disse Thomas, que tem um doutorado em psicologia social focado na questão da diversidade na cultura da empresa. “Esperava que as pessoas afirmassem que que precisavam de uma pausa ou recarregar as energias, mas pelo contrário a pergunta deles era como vencer a biologia humana para trabalhar em três empregos diferentes e nunca precisar dormir”.

Empresas que ajudam os funcionários

Algumas empresas procuram resolver isso. Walmart, Procter & Gamble e John Hancock, por exemplo, têm oferecido acampamentos e aulas online para manter as crianças envolvidas. O acampamento criado pela John Hancok inclui projetos de ciências, e uma  hora de contação de histórias com o diretor executivo e colegas (3.000 filhos de funcionários participaram).

“Esta foi uma ajuda real”, disse Erica Noble, diretora de comunicações da Procter & Gamble. “Porque a flexibilidade ajuda, mas no final temos uma criança de cinco ou de oito anos que precisa de alguma coisa para fazer durante o dia”.

No trimestre passado a Kinesis, de Portland, doou laptops para aprendizado online a autorizou horários flexíveis de trabalho. Quando ficou claro que as escolas não abrirão neste outono, os executivos perceberam que aquelas medidas não eram suficientes. A companhia então contratou um professor para dar aulas online em seu espaço de escritório vazio para cinco crianças em idade escolar, filhos de 13 funcionários. Se as creches fecharem novamente, a empresa pretende fazer algo similar no caso de funcionários com filhos menores, provavelmente alugando uma casa e contratando um professor de jardim de infância.

“Não vou dizer, “este é seu problema individual e da sua família”, pelo contrário “encaramos a questão como um problema da empresa que temos de solucionar”, afirmou Anja Taylor, diretora de operações da Kinesis.

Representantes das 12 maiores companhias do país enfatizaram o quanto as necessidades dos empregados são variadas no momento e muitas afirmam estar incentivando os funcionários a conversarem com seus gerentes sobre o apoio particular que necessitam. E sublinharam também que aqueles empregados sem filhos pequenos também vêm recebendo benefícios. Em muitos casos em que as empresas oferecem uma licença remunerada, o benefício se aplica a todas os funcionários que necessitam ficar em casa, seja para cuidar de uma pessoa idosa, por doença ou uma questão de saúde mental.

/ Tradução de Terezinha Martino

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