Profissionais 50+ veem impacto negativo da crise e buscam recolocação

Profissionais 50+ veem impacto negativo da crise e buscam recolocação

Pesquisa da plataforma Maturi aponta que, enquanto 30% dos entrevistados procuraram novo emprego na pandemia, 20% apostaram em novo projeto ou carreira; segundo especialistas, pesa fato de os maduros serem do grupo de risco

Marina Dayrell

28 de junho de 2020 | 06h06

Enquanto você lê essa matéria, é estimado que haja mais de 54 milhões de pessoas com mais de 50 anos no Brasil – segundo dados do Contador da Longevidade. O número cresce a cada ano, com o envelhecimento da população, ao passo que eles são cada vez mais empurrados para fora do mercado de trabalho. Durante a pandemia do novo coronavírus, a empregabilidade ficou ainda mais preocupante para o grupo.

Em pesquisa realizada pela Maturi, plataforma que capacita e emprega profissionais seniores (com mais de 50 anos), 20% dos entrevistados disseram que, para conseguir pagar as contas na crise atual, começaram a investir em uma segunda carreira ou um projeto durante a pandemia. No caso de 30%, começar a procurar um novo emprego foi a estratégia adotada.

A preocupação com o mercado de trabalho é um dos principais pontos levantados pelos 4.200 entrevistados (90% deles têm de 51 a 70 anos). Quando perguntados sobre o impacto da pandemia e do isolamento social em relação a sua saúde e à saúde das pessoas próximas, a maior parte marcou que o impacto foi positivo.

No entanto, quando a mesma pergunta foi feita em relação ao trabalho e à situação financeira, mais de 60% das respostas foram negativas.

Em maio, os números do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) já mostravam que, entre março e abril, foram fechadas 1,1 milhão de vagas com carteira assinada no País. Se entrar e permanecer no mercado de trabalho já é uma tarefa difícil para os mais jovens, para quem tem acima de 50 anos os índices de desemprego acompanham um outro empecilho, o preconceito etário.

“A análise da pesquisa mostra que, em função do termo ‘grupo de risco’, usado durante a pandemia, muitos dos entrevistados manifestaram preocupação com o aumento do preconceito etário após a pandemia. É como se eles dissessem ‘a gente já sofria preconceito no ambiente de trabalho e, com a pandemia nos categorizando como grupo de risco, nos sentimos diretamente atacados”, explica Juliana Seidl, pesquisadora de diversidade etária e responsável por analisar o levantamento.

Cristiane Oyakawa, de 53 anos, que conseguiu uma recolocação no mercado, no hall de seu prédio. Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Para Mórris Litvak, fundador da Maturi, que encomendou a pesquisa, ser mais velho colocou as pessoas em uma estigmatização que tem ido além da dificuldade na hora de contratar. “Antes da pandemia, estava crescendo o interesse das empresas em inclusão etária, mas isso parou completamente. O número de novas vagas durante a pandemia é mínimo. Não é zero, mas é quase zero”, aponta ele, que para ajudar profissionais do nicho realiza anualmente o evento MaturiFest. Neste ano, será online, de 6 a 9 de julho, com palestras que falam de trabalho e empreendedorismo para o público 50+.

“Vimos (com a pandemia) casos de empresas que possuem trabalhos que não podem ser realizados no home office demitindo pessoas mais velhas para contratar jovens”, diz ele. A Maturi possui mais de 140 mil profissionais cadastrados, com média de idade de 58 anos e 80% deles estão desempregados.

Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), a taxa de desemprego no País foi de 12,2% no primeiro trimestre deste ano, atingindo 12,8 milhões de pessoas. A faixa etária mais atingida é de 25 a 39 anos (33%). A população entre 40 e 59 anos representa 23% dos desempregados, e aqueles que têm 60 anos ou mais são 2,7%.

Recolocação no mercado de trabalho

No ano passado, Cristiane Oyakawa, de 53 anos, conseguiu uma recolocação no mercado como consultora interna na Great Place to Work, por meio da plataforma Maturi. Seu último emprego com carteira assinada havia sido em 2018, quando pediu demissão para prestar serviços para uma escola de negócios. O plano era se estabilizar com projetos, mas eles ficaram escassos e ela voltou para o mercado.

“Ainda existe um preconceito muito grande na maioria das empresas. Eu vejo que muitas delas estão mudando a mentalidade, o que é ótimo porque a população brasileira está envelhecendo e as empresas vão ter que se adaptar”, conta. “E é engraçado porque eu não me considero uma senhora. Eu tenho uma foto da minha avó com 42 anos e vejo que ela era bem velhinha, cabelo bem branco. Mas esse conceito de idoso está mudando. Eu tenho uma foto com 42 anos e eu estou jovem, segurando um baixo (ela é musicista)”.

Por enquanto, ela ainda é a única funcionária contratada pela GPTW em um processo focado no público sênior, mas a empresa diz que, como a contratação de Cristiane é um caso de sucesso, devem ser ampliadas as vagas no futuro.

“O mais surpreendente é que, a princípio, não tínhamos a premissa de contratar um sênior, mas depois de muitas entrevistas com outras gerações não conseguimos identificar a maturidade necessária que precisávamos para essa posição”, conta a diretora de recursos humanos da empresa, Lilian Bonfim.

Flexibilidade e qualidade de vida

Para o criador da Labora, plataforma que desenvolve profissionais seniores, Sérgio Serapião, o principal problema para a empregabilidade do público 50+ é que as vagas do mercado não contemplam suas principais competências.

“Há dois anos nos demos conta que não adiantava criar vaga para pessoas mais velhas porque as vagas que estão por aí são feitas para os jovens. O formato de contrato desenhado no Brasil ocorreu há muitas décadas, quando a força de trabalho era de pessoas com menos de 40 anos. Foi feito para o jovem ter estágio e o adulto ter CLT”, explica.

Desde então, eles mudaram o foco para a criação de projetos, em parceria com empresas, nos quais os maduros prestam serviço sem vínculo trabalhista, com a preocupação na qualidade de vida.

“As posições que desenvolvemos são baseadas nos soft skills (ou competências socioemocionais) que seniores desenvolvem pela vida, acrescidas de atualização tecnológica. Não basta apenas trazê-los para as vagas. É preciso recriar essas posições, com jornadas mais curtas e flexíveis.”

Um dos projetos foi criado em parceria com o Itaú e colocou profissionais acima dos 50 anos, por seis meses e quatro horas diárias, em 16 agências do banco em São Paulo para incentivar os clientes maduros a usarem o acesso digital. De acordo com o Itaú, a ação levou a um crescimento de 81% na participação digital das agências nas quais os seniores atuaram.

Outra empresa a aderir ao projeto foi a Dengo Chocolates. “Quando fomos expandir e abrir as lojas físicas, queríamos profissionais nos extremos geracionais e não apareceu ninguém com o perfil mais velho. Com a parceria com a Labora, conseguimos reunir pessoas que estavam há muito tempo paradas, com várias experiências. As empresas deveriam fazer isso mais porque o engajamento interno também é ótimo”, explica a líder de varejo da Dengo, Samira Bolson.

Os profissionais seniores ficaram responsáveis por recepcionar os clientes, convidá-los a entrar na loja e explicar os produtos. A primeira fase do projeto ocorreu no natal e foi interrompido com o início da quarentena.

Ser remunerada em um trabalho com carga horária reduzida era exatamente o que a aposentada Aracy Silbernagel, de 57 anos, procurava. Em 2017, após se aposentar, ela decidiu tirar um tempo para cuidar do neto mais novo, mas quando ele fez dois anos e foi para a escola, ela sentiu que era a hora de voltar para o mercado de trabalho. Aracy foi uma das profissionais seniores que participaram do projeto com o Itaú e estava em treinamento para começar na Dengo quando a pandemia começou.

“Eu não chamaria de emprego porque a gente já trabalhou, já construiu uma carreira. Eu trabalhava 12 horas por dia, isso sim era o meu emprego, quando eu fiz carreira e construí bagagem. Mas chega um ponto depois de se aposentar que a gente se pergunta ‘eu quero voltar a trabalhar, mas eu quero voltar de que forma? Como era antes, de 10 a 12 horas por dia?’ Não. E, ao mesmo tempo, eu tenho uma bagagem que eu quero contribuir. É um recomeço onde a gente usa essa bagagem de maneira saudável”.

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