Profissionais com câncer de mama reclamam de discriminação no trabalho

Profissionais com câncer de mama reclamam de discriminação no trabalho

Pesquisa mostra que, além da doença, mulheres em tratamento enfrentam falta de apoio de empresas; casos podem envolver dispensa discriminatória e ir parar na Justiça

Heloísa Scognamiglio

26 de outubro de 2019 | 17h00

Especial para o Estado 

Nátali Araújo, administradora de empresas com especialização em recursos humanos, teve o diagnóstico de câncer de mama aos 26 anos, em 2012. Ficou afastada do emprego pelo INSS por quase cinco anos e, quando retornou à empresa em que trabalhava, achou que sua vida voltaria ao normal. Mas isso não aconteceu. “Eu voltei a trabalhar e não tinha lugar para sentar por quase 20 dias. No primeiro dia, eu fiquei até as 15h sem ter o que fazer. Até que mandaram eu separar uniformes”, conta.

Em um exame de rotina no ano passado, surgiu a suspeita de que Nátali poderia estar doente de novo. “Eu cheguei na empresa e entreguei o laudo do médico, no qual ele pedia vários exames de investigação. Duas horas depois eu fui chamada em uma sala e me demitiram.”

Uma pesquisa realizada em setembro pelo LinkedIn e pela Fundação Laço Rosa, que trabalha pelos direitos das pacientes com câncer de mama, mostra que apenas 31% das pessoas que enfrentam ou já tiveram a doença continuaram trabalhando durante o tratamento. Ainda que não tenham se ausentado do serviço, elas relatam dificuldades como conciliar os sintomas do tratamento com a rotina profissional (28%) e a falta de políticas de apoio da empresa ao paciente (19%).

Do outro lado, entre as mulheres que pararam de trabalhar, a maior parte diz que estava afastada com licença médica pelo INSS (36%), mas uma parcela de 8% relata ter sido demitida por conta da doença. Na opinião da maioria das 932 entrevistadas, entre pacientes e ex-pacientes, as empresas ainda não oferecem o apoio necessário nesses casos.

Nátali Araújo foi demitida sob suspeita de reincidência de câncer de mama e ganhou na Justiça como dispensa discriminatória. Foto: Taba Benedicto/Estadão

Para Ana Claudia Plihal, diretora de soluções de talento do LinkedIn Brasil, o levantamento expõe que muitas companhias ainda não estão prontas para lidar com o tema. “Na visão de 90% das pacientes e ex-pacientes, ainda falta muito para que as empresas acolham da melhor maneira possível as pacientes de câncer de mama”, diz. “Para as empresas que queiram mudar esse cenário, o primeiro passo é fazer uma análise criteriosa (de procedimentos internos).”

Marisse Bonfim, coordenadora fiscal que também enfrentou um câncer de mama, concorda que o mercado de trabalho não sabe lidar com as pacientes. Hoje trabalhando em uma empresa na qual ela diz receber apoio total, Marisse fala que isso não aconteceu no emprego em que estava quando foi diagnosticada, em 2016.

“O que o paciente espera é pelo menos um ‘estou aqui, você precisa de alguma coisa?’. Às vezes a empresa faz um barulho tão grande no Outubro Rosa, faz palestras e eventos, mas não sabe como oferecer apoio para a própria funcionária.”

Campanha de conscientização sobre o câncer de mama, o Outubro Rosa foca na prevenção e no diagnóstico precoce da doença. Ainda que a campanha tenha penetração no mercado corporativo, outra pesquisa mostrou que 58% das empresas não possuem práticas de prevenção, acompanhamento ou reinserção de profissionais com câncer.

O levantamento – feito pela Go All (organização sem fins lucrativos que reúne ONGs e empresas do setor farmacêutico) e pela Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-Brasil) – ouviu 261 profissionais que atuam na área de RH de empresas nacionais no ano passado. Segundo eles, apenas 9% das companhias mantêm práticas de prevenção como oferta de exames de rotina e alimentação saudável no trabalho.

Durante o processo seletivo

Além dos casos em que a mulher tem o câncer diagnosticado enquanto está empregada, há relatos de dispensa durante os processos seletivos quando a candidata conta que já teve ou tem câncer.

“Muitas acabam ouvindo coisas como ‘a vaga foi congelada’ ou ‘tivemos um imprevisto’, quando achavam que já estavam prestes a serem contratadas”, diz Ana Claudia, do LinkedIn.

Segundo ela, a dica para pacientes ou ex-pacientes é selecionar as empresas a partir dos valores e benefícios que elas apregoam. “Antes de aplicar-se a uma vaga, procure saber se a companhia possui algum tipo de política de apoio. Se tiver, as chances de a empresa a enxergar como candidata, e não apenas olhar para a doença, serão maiores.”

Ana Claudia também dá dicas para a entrevista: a doença não precisa ser o primeiro tópico abordado, mas também não precisa ser omitida. “Conte suas experiências passadas, seus objetivos de carreira e suas habilidades técnicas e comportamentais”, enumera.

Quando falar sobre o diagnóstico, o importante é destacar “como aquilo te fortaleceu como pessoa e o que aprendeu com a doença que aplica atualmente na vida profissional”.

Casos podem virar dispensa discriminatória

Demitida depois da suspeita de estar doente de novo, o que acabou não se confirmando, Nátali diz que sua demissão foi traumática. “O RH lida com o maior patrimônio da empresa, que são as pessoas. Saber que o RH, o setor onde eu trabalhava, estava me tratando daquele jeito foi muito difícil.”

Foi então quando procurou uma advogada e ficou sabendo que havia sofrido dispensa discriminatória. “Eu nem fazia ideia do que era isso.”

A dispensa discriminatória ocorre quando a relação de trabalho é rompida por preconceito de gênero, origem, raça, estado civil, idade, situação de saúde, entre outros motivos discriminatórios, que ferem o tratamento isonômico dos funcionários.

Segundo a pesquisa do LinkedIn e da Laço Rosa, 18% das entrevistadas afirmaram ter sofrido dispensa discriminatória, mas ainda mais mulheres (26%) disseram não saber do que se trata a figura jurídica.

Segundo a advogada Coralli Rios, diretora jurídica da Adecco, em casos de dispensa discriminatória a jurisprudência tem sido no sentido de preservar qualquer pessoa que se encontre em um tratamento mais pesado. “Se a pessoa entra com uma reclamação trabalhista, a jurisprudência ordena que, no mínimo, o plano de saúde seja mantido. Isso quando não é determinada também a reintegração (ao trabalho)”, explica. Nesses casos, geralmente o plano de saúde é mantido durante o tratamento.

No caso de Nátali, ela venceu uma ação de reintegração contra a antiga empresa. “Mas, conversando com advogada, família e amigos e pensando no que eu sofreria se eu retornasse, foi feito um acordo financeiro. Abri mão de retornar, mas ganhei na Justiça como dispensa discriminatória.”

A dispensa discriminatória sofrida por Nátali serviu de inspiração para Marcelle Medeiros, presidente da Fundação Laço Rosa. Depois do caso, ela criou a plataforma Contratada, que reúne conteúdo sobre empreendedorismo e mercado de trabalho para mulheres que tiveram câncer de mama. Segundo Marcelle, “faltava um lugar com conteúdo e informação sobre o mercado de trabalho para esse público específico”.

Saúde da mulher no trabalho

Além dos casos de discriminação de pacientes com câncer de mama, outras situações envolvendo a saúde da mulher podem afetar o ambiente de trabalho em que ela está inserida.

A endocrinologista Daniela Miranda relata que ouve muitas queixas de mulheres na menopausa sobre seus empregos. “Falamos tanto de inclusão, mas a mulher, quando chega nessa fase, tem que ouvir piadinhas de colegas, por exemplo. Não vemos acolhimento. As empresas não estão preparadas para a mulher que está nessa faixa etária e não entendem que ela precisa ser apoiada”, defende.

Ainda de acordo com a médica, é preciso haver um esclarecimento das empresas, que precisam investir na saúde de suas funcionárias. “Também é importante lembrar que a expectativa de vida para a mulher pelo IBGE é de 80 anos no Brasil. Se você pensa que a mulher entra na menopausa com 50 anos, ela vai conviver com a falta de hormônio pelo menos por uns 30 anos.”

Para Miranda, a profissional tem condições de permanecer ativa, desde que consiga reconhecer os sintomas e que possa tratá-los para ter qualidade de vida.

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