Programa da OIT capacita transexuais com curso de cozinha e poesia
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Programa da OIT capacita transexuais com curso de cozinha e poesia

Cozinha & Voz, que tem entre idealizadoras a chef Paola Carosella, forma em dois anos mais de 300 pessoas em situação de vulnerabilidade social, como transgêneros; taxa de inserção no mercado chega a 70%, segundo parceria da OIT com o Ministério Público do Trabalho

Ana Paula Boni

14 de dezembro de 2019 | 16h00

A baiana Karolaine Ferreira, de 42 anos, nasceu menino, mas se reconhece como menina desde os 8 anos de idade. O mercado não concorda com a existência de transgêneros e os empurra para a informalidade. Karol sobreviveu os últimos anos de prostituição e bicos variados em São Paulo, até receber o primeiro registro na carteira de trabalho como ajudante no restaurante Arturito, da chef e apresentadora Paola Carosella.

Paola é uma das idealizadoras do programa Cozinha & Voz, promovido pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) em parceria com o Ministério Público do Trabalho. Contratou Karol após a primeira turma, realizada em São Paulo em outubro de 2017. De lá para cá, o programa deu capacitação como ajudante de cozinha a 333 homens e mulheres em situação de vulnerabilidade social (em sua maioria, transexuais) em cidades como Salvador e Campo Grande.

A última turma deste ano, com 25 mulheres e homens trans, foi concluída na última quinta-feira, no Rio de Janeiro, com a presença de Paola. A previsão é que ocorram 12 edições em 2020, confirmadas em São Paulo, Espírito Santo, Bahia, Distrito Federal e Rio Grande do Sul. Um plano de expansão para a Ásia também está em negociação.

Hoje, 70% dos alunos das últimas turmas estão no mercado de trabalho formal, contratados como pessoa física ou empreendendo como pessoa jurídica, explica Thaís Faria, oficial técnica regional da OIT e idealizadora do programa ao lado de Paola. Elas facilitam a ponte das pessoas trans com o mercado – seja Paola em contatos com seus colegas chefs donos de restaurantes pelo País, seja a OIT em contato com entidades como o Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+.

O Fórum reúne mais de 70 grandes empresas, como Vivo, Itaú, Sodexo e Carrefour, e tem entre seus 10 compromissos a promoção de igualdade de oportunidades às pessoas LGBTI+. Foi por meio da Sodexo, por exemplo, que uma das participantes da primeira turma, Vanessa Holanda, foi contratada para trabalhar no restaurante da Avon.

A chef Paola Carosella (ao centro) com as ajudantes de cozinha Karolaine Ferreira (à esq.) e Emilly da Silva, no restaurante Arturito, em São Paulo. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Além de Karol no Arturito, Paola também emprega a cearense Emilly Rodrigues da Silva, de 38 anos, na cozinha do Mangiare, restaurante do grupo que tem em sociedade com o empresário Benny Goldenberg. Assim como Karol, Emilly também é da primeira turma do Cozinha & Voz. “Tem que estudar, tem que correr atrás. Ano que vem vou prestar o Enem. Para fazer gastronomia, lógico”, diz Emilly.

Há muita solidariedade e empatia no projeto, conta Paola, mas não filantropia. “Não gosto dessa coisa de falar em ‘ajudar’. Não é uma ONG. É uma oportunidade de trabalho”, afirma. “Não seria justo dizer que elas chegam e agarram (a oportunidade) com mais força do que outras pessoas. Mas aqui elas chegaram e agarraram.”

A determinação vem também do desejo de se ter um trabalho regular “para onde se possa ir e voltar todo dia”, diz Danielly Rocha, de 32 anos. Paraense residente no Rio, Danielly foi uma das alunas da turma encerrada na quinta-feira. Após passar os últimos anos na informalidade como caixa de balada e outros bicos, agora ela negocia uma vaga regular na cozinha de um restaurante em Copacabana.

Para Paola, mais do que treinar receitas, o Cozinha & Voz foca na disciplina exigida em negócios de alimentação. “Ensinamos como se comportar na cozinha, como montar uma praça, como segurar uma tábua. O mais importante do programa não é ensinar receita, mas o gestual profissional da cozinha.”

A poesia como apaziguadora

Foi na cozinha da casa da chef que nasceu o programa, num encontro com Thaís Faria. Thaís já trabalhava pela OIT há nove anos em parceria com a Casa Poema, da poeta e atriz Elisa Lucinda e sua sócia Geovana Pires. Ao lado delas, levava o projeto Versos de Liberdade a jovens em regime de medida socioeducativa, mas perceberam em 2016 que deveria haver uma formação técnica para o mercado, não só o empoderamento pelas palavras.

Entre as alunas da turma do Rio, da esq. à dir., Larissa Gusman, Letícia de Lima, Emilly Cristina, Danielly Rocha e Maya Catana. Foto: Wilton Júnior/Estadão

Hoje, o Cozinha & Voz tem um formato mínimo com cinco dias de aulas de poesia e nove dias de aulas de cozinha, para cerca de 20 alunos, desde transexuais a mulheres em situação de violência doméstica. Paola dá algumas aulas, todas as outras contam com uma profissional treinada por ela, a chef Fernanda Cunha. E a poesia vem sempre antes. “A gente descobriu que a poesia tinha que vir antes, porque ela apazigua as emoções”, diz Paola.

Em um dia do programa acompanhado pela reportagem no Senac Riachuelo, no Rio, uma oficina com declamação de textos revela a emoção despertada entre os alunos. Segundo Thaís, esse foi o diferencial apontado pela avaliadora internacional da OIT, que veio do Peru ao Brasil para avaliar o programa.

“Ela disse coisas que a gente não percebia. Que o único indicador de sucesso desse projeto não é o emprego. Porque as pessoas voltam para a família, param de usar drogas, se identificam com seus pares”, diz Thaís.

Além de drogas e prostituição, grupos vulneráveis como homens e mulheres trans também enfrentam rejeição na família. “Aos 15 anos, quando disse que queria me vestir como menina, minha mãe disse: ‘Ser gay tudo bem, mas travesti não!’”, conta a carioca Emilly Cristina, de 21 anos, que participou da turma na última semana no Rio.

Alunos e alunas da última turma de Cozinha & Voz do ano, no Rio de Janeiro. Foto: Wilton Júnior/Estadão

Aos 17 anos, Emilly começou a tomar hormônios femininos e, se era rejeitada em casa pela própria mãe, não seria diferente com o mercado de trabalho. Prostituiu-se durante três anos e, há dois anos, vive na informalidade fazendo trança e implante afro. Agora, quer trabalhar com cozinha.

Financiamento do projeto

Para colocar o Cozinha & Voz de pé em várias cidades, a OIT faz parcerias com entidades locais. Em São Paulo, todas as turmas desde 2017 foram realizadas com o apoio da Faculdade Hotec, que cede o espaço físico. No Rio, o programa foi realizado no Senac. A depender do parceiro, o formato mínimo de aulas pode ser expandido. Em Goiânia, por exemplo, neste ano houve uma turma que durou três meses.

O dinheiro chega por meio da parceria com o Ministério Público do Trabalho, de multas aplicadas a empresas que descumprem regras trabalhistas. A OIT estima que até agora cerca de R$ 600 mil tenham sido destinados ao Cozinha & Voz.

“A nossa missão é pegar esse dinheiro de uma ação que causou um dano à sociedade e retorná-lo à sociedade”, afirma Thaís Faria, segundo quem o custo médio de 2 turmas de capacitação vai de R$ 60 mil a R$ 90 mil.

E, se o dinheiro volta à sociedade, grupos marginalizados como os homens e mulheres trans se sentem mais acolhidos. “Agora eu conheço os meus direitos. Eu achava que eu, trans, não podia entrar no teatro, ter conta em banco. E eu posso. Esse programa me abriu portas e janelas. Estou bem esclarecida da vida”, diz Karolaine, despedindo-se da reportagem. É quase hora do almoço e vai começar o serviço na cozinha do Arturito.

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