Saiba quando é uma boa ideia procurar um coach
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Saiba quando é uma boa ideia procurar um coach

Profissionais podem ajudar no processo de mudança na carreira, mas interessado deve adotar precauções

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06 Janeiro 2019 | 06h50

Matheus Prado
ESPECIAL PARA O ESTADO

Buscar recolocação no mercado ou procurar um novo ofício pode ser tarefa difícil. Nesse momento, sempre aparece um conselho: “Vou te indicar meu coach de carreira, ele é ótimo”. E sempre tem alguém que duvida: “Essa história de coach é uma farsa, não gaste seu dinheiro”.

A verdade é que o mercado que promete ajudar a alavancar os desenvolvimentos pessoal e profissional não para de crescer, mas não sem receber questionamentos. Isso porque a prática não é regulamentada por aqui, o que abre espaço para profissionais de todos os níveis. A reportagem ouviu coaches, coachees (que contratam o serviço), psicólogos, professores e entidades relacionadas à prática. Segundo atestam grupos ligados a esse universo, o processo consiste numa assessoria pessoal e profissional que usa ferramentas comportamentais em busca de resultados melhores para quem adota o método.

Presidente do Instituto Brasileiro de Coaching, José Roberto Marques afirma que o objetivo do coach é “tirar o coachee do plano A e levá-lo ao plano B, através de ferramentas onde o coachee irá se desenvolver para alcançar as metas”.

ILUSTRAÇÃO: MARCOS MÜLLER/ESTADÃO

Sigmar Malvezzi, professor e pesquisador em psicologia organizacional da USP, opina que, devido à atual instabilidade do mercado de trabalho, o principal apoio que um indivíduo pode receber é na compreensão de suas competências.

Ou seja, devemos nos guiar pelos processos ou pelos resultados? Ao tentar emular algumas situações diferentes, podemos encontrar, na teoria e na prática, uma delimitação no espaço para a prática dos coaches.

Empurrãozinho. Gabriel Fontes estudava administração no Mackenzie e trabalhava na empresa da família, mas não era o que queria. Seu sonho era jogar futebol e estudar fora. Gino Rocchi, coach e irmão de um amigo, foi quem Gabriel procurou.

O jovem foi a uma das sessões em grupo e ficou bem impressionado. “Me apaixonei, quando eles vendem a ideia, a gente cresce os olhos. A propaganda foi boa.” Depois de contratar sessões individuais com Gino, Gabriel conta que aprendeu que “tudo estava nas mãos dele”. Leu livros obrigatórios, como O Poder da Ação e O Poder do Hábito, e por fim procurou uma empresa de intercâmbio acadêmico e esportivo. Hoje estuda psicologia e joga futebol em uma universidade do Kansas, nos Estados Unidos.

Gino Rocchi afirma que o coach não está lá para dar respostas, e sim ajudar a apontar um caminho. “Eu brinco que a gente tem que ser meio Capitão Nascimento, tirar a pessoa da zona de conforto.” Apesar disso, o profissional entende que por vezes a mudança está fora do alcance. Yuri Busin, psicólogo e doutor em neurociência do comportamento pelo Mackenzie, resume: “As mudanças exigem energia, mas por vezes a pessoa está sem”.

Natália Cassolari já atuava na área que gostava – produção audiovisual –, mas não conseguia se manter em um emprego. Por indicação, procurou o coach João Cosenza, mas faltava a tal energia. Chorava nas sessões quando era pressionada a tomar decisões. O coach acabou aconselhando-a a procurar um psicólogo. João argumenta que “a pessoa não deve procurar um coach porque tem problemas. O grande propósito do coach é fazer o coachee entender onde está e para onde quer ir”.

Ele também entende que o seu gesto de indicar outro profissional para o caso está longe de ser regra. Aponta ainda que a falta de legislação proporciona essa discrepância no nível dos profissionais no Brasil.

Luiz Eduardo Berni, psicólogo e coach, corrobora o sentimento de Cosenza. Para ele, as escolas de coaching estão vendendo este sonho para profissionais que buscam uma recolocação, “oferecendo formações às toneladas”. Cabe ao coachee analisar o currículo e a trajetória profissional da pessoa que está contratando.

Pulo no escuro. No site Reclame Aqui, é possível encontrar dezenas de relatos contra práticas indevidas. São casos de cursos que não entregam o que prometem e empresas que não devolvem o dinheiro de desistentes.

Somente em 2018, o Instituto Brasileiro de Coaching diz ter formado mais de 7 mil pessoas. A coach Silvia Donati desconfia do número. “Quantos desses realmente se tornam coaches?” Para ela, o processo não é igual a uma faculdade, trata-se de ter experiência, e para obter o certificado, diz, é preciso fazer uma pesquisa científica e apresentar ao menos cinco casos de sucesso.

A coach Bettina Krutman engrossa o coro. “O que me preocupa são as pessoas que fazem formações pouco profundas. A ideia é que você consiga ajudar a pessoa a se movimentar.” CEO da ProFitCoach e autora do livro Coaching: O que você precisa saber, Eliana Dutra concorda, mas ironiza a subjetividade dos resultados. Dá o exemplo de uma loja que faz treinamento com seus vendedores e vê melhora nas vendas. “É provável que seja o treinamento, mas não é possível fazer essa ligação direta.”

TRÊS PERGUNTAS PARA…

Svend Brinkmann, psicólogo, professor e autor do livro Stand Firm, onde critica os processos de auto-ajuda

Por que acredita-se tanto na cultura de coaching?
Vivemos numa sociedade competitiva, onde os indivíduos devem competir. O coaching vem dos esportes, onde competir faz todo sentido. Mas as pessoas têm buscado esse tipo de ajuda para se tornar “vencedoras”.

Existe motivo para as pessoas preferirem coach a psicólogo?
O coaching pode ser utilizado para melhorar sua performance. O processo é baseado no desenvolvimento constante e incessante, o que na teoria pode ser alcançado por todos. Isso também quer dizer que você nunca é bom o suficiente.

O coaching é fruto da individualidade e do egoísmo?
Eu não usaria a palavra egoísmo, mas ansiedade. A ansiedade de não ser bem sucedido, amplificada numa sociedade cada vez mais individualista. A solução seria focar numa ideia de comunidade, mas isso não é popular no momento.

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