Setor de turismo amplia oferta de empregos, mas enfrenta falta de qualificação

Setor de turismo amplia oferta de empregos, mas enfrenta falta de qualificação

Claudio Marques

28 de abril de 2014 | 15h26

GUSTAVO COLTRI

Dados preliminares da Pesquisa Anual da Conjuntura Econômica do Turismo, realizada pelo Ministério do Turismo em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV), mostram que segmentos dessa atividade – que já emprega abundantemente mão de obra – vão expandir ainda mais o seu pessoal em 2014.

Foram ouvidos pelo levantamento 80 executivos das maiores empresas ligadas ao Turismo nacional e que, no ano passado, faturaram juntas R$ 62,7 bilhões e empregaram 116 mil pessoas. De acordo com os entrevistados, o segmento de organização de eventos ampliará em 13,5% o número de empregados. O turismo receptivo, por sua vez, terá crescimento de 7,9% no ano, e o segmento de meios de hospedagem, 5,0%.

Outro estudo recente com dados coletados em 184 países, a Pesquisa 2014 de Impacto Econômico do Turismo, feito pelo World Travel & Tourism Council (WTTC), indica que o Brasil foi a quinta maior nação em geração de empregos no ano passado. Foram verificados 3,049 milhões de postos de trabalho no período, que representaram 3,0% do total de vagas preenchidas na nossa economia.

Considerando os empregos indiretos gerados pela atividade, o Turismo nacional contou com a atuação de 8,499 milhões de trabalhadores em 2013, de acordo com o WTTC. O número é equivalente a 8,4% da mão de obra em atuação no Brasil.

Formação. Se sobram oportunidades para o mercado de trabalho na área, falta qualificação para os brasileiros. Materializada de acordo com a característica de cada segmento, essa é uma reclamação comum entre as empresas do setor. O problema também fica evidente no Relatório 2013 de Competitividade em Viagem e Turismo divulgado em março pelo Fórum Econômico Mundial. No item Oferta de Mão de Obra Qualificada, o Brasil ocupa a 96ª posição entre 140 posições possíveis.

A hoje proprietária de uma pequena agência eventos Michele Silva de Siqueira da Silva, graduada em turismo em 2008, diz que um grande número de profissionais envolvidos com a organização de eventos no País adquiriu conhecimentos fora da academia, na prática. “E, na média, o atendimento diferenciado ainda não é bom.”

Atuando desde 1996 na montagem de estandes e na organização de congressos, ela buscou o curso universitário para ganhar uma visão mais ampla do mercado. A estrutura do negócio é enxuta – a empresa conta apenas com a colaboração de uma irmã –, por isso a empresária tem especial atenção na seleção de fornecedores. “A escolha dos parceiros é muito importante. Tenho a vantagem de ter conhecido muita gente nesses anos ”, confessa.

Michelle. Empresária ressalta importância de saber escolher fornecedores (Imagem: Arquivo Pessoal)

Nos hotéis, a maior falta é de profissionais nas áreas operacionais, de acordo com o presidente da Associação Brasileira da Indústria do Hotéis do Estado de São Paulo (ABIH-SP), Bruno Omori. “Sempre há procura para cargos como os de garçom, arrumadeira, e não há formação – em geral as pessoas têm, no máximo, um cursinho básico. Quem já tem experiência não fica sem trabalho, se quiser”, diz.

Faltam aos trabalhadores, segundo ele, desde expertise técnica para a execução das tarefas até conhecimentos relativos a posturas profissionais e comportamentos. O problema seria agravado pela alta rotatividade da mão de obra, motivada pelos baixos salários pagos para cargos mais básicos. “A partir de um segundo nível, em cargos como o de assistente de governanta e de reservas, é mais tranquilo encontrar mão de obra. A grande maioria das recepcionistas, por exemplo, tem mais de um a língua e graduação.”

Para o gerente administrativo do hotel de luxo Unique, José Roberto Martins Salles, as universidades fornecem ao mercado profissionais de qualidade, mas ainda em pequena quantidade. “A demanda poderia ser maior se houvesse incentivos para que todos pudessem  ter acesso a educação e formação.”

Salles. Gestor diz haver necessidade de profissionais na área operacional do hotel Unique (Imagem: Divulgação)

Em algumas áreas operacionais, o Unique opta por profissionais sem experiência, mas com potencial de aprendizagem.Todos os contratados, segundo Salles, passam, em média, um mês em treinamento para apreenderem procedimentos internos e conhecerem a rotina dos departamentos. “Temos também  seis treinamentos internos  sobre conduta de higiene nos processos de manipulações de alimentos.” A demanda maior atualmente no hotel de luxo é por arrumadeiras e assistentes de garçom.

Os grandes operadores – minoria no mercado hoteleiro nacional – em regra oferecem treinamentos para garantir padronização e qualidade aos colaboradores. Entidades como a ABIH-SP, por outro lado, realizam trabalhos para qualificar a mão de obra dos pequenos estabelecimentos de hospedagem.

Mais alto. Além do conhecimento de idiomas e da formação gerencial, o crescimento profissional na indústria hoteleira depende do amplo conhecimento da operação do negócio. Para especialistas, a área da recepção é uma das portas de entrada para egressos das universidades. Outro caminho é o dos programas de trainee.

A operadora hoteleira Accor, por exemplo, tem um programa para jovens talentos, além de uma universidade corporativa com foco em competências técnicas, comportamentais e de gestão. “Cinquenta e cinco por cento dos nossos gerentes da família Ibis e 65% dos nossos subgerentes vieram do nosso programa de trainee”, conta a gerente de RH na diretoria de operações Polo Econômico América Latina da Accor, Jacinta Maria Gomes Pereira.

Para participar do programa da multinacional, o interessado tem de, antes, comprovar experiência: “Um recepcionista leva um ano para dominar o setor. Depois disso, pode participar do programa de trainee, que tem mais um ano, Aí, ele está apto a se candidatar a assistente de gerente”, afirma.

No segmento hoteleiro, a qualificação pode levar os profissionais ainda para mais longe. A jovem Amanda Gonçalves, de 25 anos, está no último semestre da graduação em hotelaria na Universidade Anhembi Morumbi e acaba de ser aceita em um programa de trainee de uma rede de hospedagem internacional: no próximo dia 5 de junho ela se mudará para Washington, nos Estados Unidos.

Amanda.Jovem está de malas prontas para os EUA, onde participará de trainee em uma rede hoteleira (Imagem: Sérgio Castro/Estadão)

Amanda tem conhecimentos de inglês e espanhol, além de ter frequentado três semanas no Glion Institute of Higher Education, na Suíça. “Vou passar por várias áreas do hotel. Quando concluir o programa de trainee, eu já vou estar apta a trabalhar em hotéis da rede.”

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