Sonhos dos CEOs contam com fracassos para guiar futuro de empresas

Sonhos dos CEOs contam com fracassos para guiar futuro de empresas

Em seminário sobre educação corporativa, executivos relatam desafios passados que ajudaram a construir sonhos futuros; propósito, cultura, sustentabilidade e tecnologia são algumas das reflexões

Marisa Eboli

07 de abril de 2022 | 11h56

Era início do mês de dezembro de 2021. Cresciam as expectativas de que a pandemia da covid-19 começava a se despedir. Era o momento de voltarmos a sonhar com um futuro melhor que nos enchesse de esperança. Foi o que nos estimulou a organizar dois painéis com CEOs para refletir sobre os sonhos para a construção do futuro no 5º Simpósio Internacional de Educação Corporativa que realizamos, em parceria com Cacau Show e Azul, em dezembro do ano passado.

O primeiro painel, intitulado “Quais os sonhos dos CEOs para o futuro?” contou com três CEOs bem sucedidos: Claudia Woods, Gino Di Domenico e Roberto Lima. Foram enfatizados pontos como o desafio do que fazer no pós-pandemia, a necessidade de procurar a solução dos problemas estando mais próximo dos clientes, a tecnologia como um fator importante na diminuição de desigualdades no País e a sustentabilidade.

O fato é que, quase quatro meses depois, não só a pandemia ainda não acabou como estamos assistindo à guerra na Ucrânia, que só fez aumentar ansiedade, incerteza e insegurança na população do mundo. Ainda não se avizinha um novo despertar. Mas mantém-se uma pergunta óbvia: para onde queremos ir? Como chegar lá? Não se trata de redigir um memorando de diretivas. É bem mais do que isso e vem antes. É voar, voar alto. Por que não chamamos esse plano de voo de sonho?

Sendo assim, as reflexões dos CEOs convidados ao simpósio continuam valendo. Pedimos que compartilhassem conosco seus sonhos. De fato, não só podemos como devemos sonhar. O que nos disseram eles? Antes de sonhar, é preciso voltar ao passado, revisitar trajetórias e experiências. Em retrospecto, ao pensar no futuro, tiveram que reviver o que já viveram. No fundo, é isso mesmo, sonhos não nascem como uma fagulha no presente, mas com o remexer de experiências passadas.

Para Claudia Woods, CEO da WeWork, fracassos contribuem para desenvolver resiliência. Foto: Dani Toviansky/Uber

Contaram suas experiências passadas. Viveram momentos lindos. Porém, as maiores lições vêm dos fracassos, dos tropeços, do que não deu certo. A primeira lição é a resiliência. Caiu? “Reconhece a queda, e não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”, como bem escreveu o músico Paulo Vanzolini. É preciso fazer tudo de novo. E sem perder a curiosidade e a oportunidade estratégica de refletir sobre os erros e acertos.

Qual a agenda? Inovar? Mudar a imagem da empresa perante os clientes? Cada um tem a sua, respondendo ao seu momento, personalidade e entorno. E agora, como é mesmo que se fazia no presencial? Como voltar do trabalho remoto para a presença física? Como capitalizar nas trocas durante o cafezinho? Fica tudo igual? Será uma oportunidade para introduzir mudanças impossíveis “em tempos de paz”?

Claudia Woods, CEO da WeWork, resgatou sua vivência familiar, na medida em que acredita que os nossos sonhos e o que imaginamos poder fazer, vem muito dos exemplos que tivemos em casa. Contou suas experiências profissionais para chegar até a posição que ocupa hoje, mas também falou dos fracassos, pois eles ensinam muito, principalmente no desenvolvimento da resiliência, fundamental para uma carreira de sucesso.

Destacou que as encruzilhadas pós-pandemia desafiam a todos. Para ela, a volta ao trabalho presencial é um momento crítico e de reinvenção de modelos de trabalho e do próprio formato do escritório. Não há fórmulas prontas e cada empresa terá que desenhar sua própria política, considerando ainda que dentro de uma mesma empresa haverá mais de um modelo de trabalho, adequado às demandas de cada equipe. Isso é desafiante e, ao mesmo tempo, inspirador, afinal é a oportunidade de transformar as relações de trabalho que temos usado há 300 anos, desde a Revolução Industrial.

Pessoalmente com os clientes

Gino di Domenico, filho de italiano e mãe peruana, foi criado no Brasil e essa influência internacional no começo da vida, convivendo com muitos estrangeiros, abriu um canal para as conexões com as pessoas. Trabalhou na Unilever e foi muito interessante ter que aprender a interagir com os “gringos”. De fato, são muito diferentes de nós brasileiros. Para trabalhar com gente tão diferente a grande interrogação é como eu vou gerar empatia, como vou entender como o outro pensa e age?

Mas, quando foi parar em uma empresa familiar, à época Schincariol, saiu de “um mundo lindo e foi tocar a vida como ela é”. E foi, segundo ele, a melhor experiência da sua vida.

Um dos seus sonhos é o desafio de poder continuar vivendo novas experiências. Hoje, é CEO da empresa Studio Z. Tudo que lhe deu esse passado bem movimentado o levou a formular o seu sonho. É o sonho do empoderamento do público de níveis C e D. Sua meta é a oportunidade de oferecer a eles calçados que são normalmente consumidos pelas classes A e B. Isso os faz sentirem-se mais valorizados e importantes. E sua experiência passada o ensinou que “no escritório você resolve os problemas, porém as soluções você só encontra estando pessoalmente com os clientes”.

Roberto Lima é administrador e filho de professor universitário. Falou de seu começo na Rhodia e de sua trajetória na Accor, onde trabalhou por 17 anos. Segundo ele, um dos maiores aprendizados foi entender, de fato, o significado da palavra servir.

Depois disso, o Grupo Credicard e depois a Vivo, em um período de muitas realizações e crescimento da empresa. Entender de serviços fez uma grande diferença ao longo do tempo em que esteve lá. De fato, é uma empresa de prestação de serviços de telecomunicações. Dirigir uma empresa totalmente voltada a servir 65 milhões de clientes todos os dias foi a maior satisfação de sua vida profissional.

Depois de passar pelo seu conselho de administração, foi convidado pela Natura para ser CEO por pouco mais de dois anos. Hoje, serve em conselhos de administração em empresas no Brasil e no exterior. Interessa-se pelo mundo das tecnologias digitais. Acredita que elas são o melhor instrumento para reduzir a diferença entre classes sociais e entre regiões geográficas.

Não é possível imaginar as empresas sem as tecnologias digitais hoje existentes e em constante desenvolvimento e inovação. Elas trazem para as empresas a possibilidade de se livrar de limites geográficos e falta de conhecimento. Permite atender ao cliente onde ele estiver, na hora e na forma mais conveniente. Cybersecurity é palavra da onda e veio para ficar.

Seu sonho é fazer a diferença nesse mundo tão conturbado. Ao fim e ao cabo, sua meta é tentar fazer esse País um pouco melhor. Mas sua visão é otimista, e nisso está o sonho, pois sua aposta é que a tecnologia pode diminuir a desigualdade no País e melhorar a situação de todos.

Formação profissional e experiência pessoal

À primeira vista, ouvimos dos três sobre os seus desafios profissionais. Isso até sugere que podem ser enfrentados com o que se aprende nos livros da profissão. Nada poderia estar mais longe da verdade. A formação profissional é apenas um dos pilares de uma carreira executiva de sucesso. O que se vê, o que se entende e o que se vai fazer é profundamente modulado pela visão de mundo. Ao viver, adquirimos experiência, tanto quanto é possível diante da nossa relativamente curta experiência de vida e trabalho.

O que fica faltando? Muito! O que é nossa experiência pessoal, diante da enorme quantidade de gente criativa, dedicada e competente que nos precedeu? As teorias e práticas, seja da administração, seja do que for, está compactada nos livros-texto. Mas não há um livro texto didático, que realmente funcione, ensinando a “Teoria da Vida do Executivo”. O que há é uma enorme coleção de gente que também viveu, refletiu e pensou. Por isso, compartilhar experiências é sempre muito rico e produtivo.

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Outro painel, intitulado “Rumo a Novos Horizontes”, teve a participação de John Rodgerson, CEO da Azul, e Fabio Barbosa, experiente conselheiro de empresas. John falou sobre o que tem o movido ao longo de sua trajetória internacional: “Você precisa assumir riscos na vida. Ao fazer isso, você tem a oportunidade de andar mais rápido”.

Fabio Barbosa também resgatou sua carreira internacional e disse que, quando estava na Suíça, deparou-se com a questão dos valores, notando que, aqui no Brasil, a cultura empresarial ainda não dava atenção a este aspecto. Trabalhou em alguns bancos e incorporou o lema “dar certo, fazendo a coisa certa, do jeito certo”, ou seja, no Brasil, era mandatório criar uma cultura organizacional na qual não era preciso transgredir para dar certo. Propôs-se a falar sobre isso, sobre transparência, sustentabilidade e educação, pois sem esta não se alteram os valores.

Propósito, valores e verdadeiramente gostar de gente foram os pontos fortes das falas de ambos, John e Fabio. E os sonhos para dar asas ao futuro? Fabio volta-se para a sustentabilidade e se mostra bastante otimista, porque “se a geração dele não deixou um Brasil melhor para os filhos, deixou filhos melhores para o nosso Brasil”, e isso é fundamental. E sentencia: “Eu não sei como resolver o problema do Brasil, não tenho a menor noção, mas eu sei que se cada um varrer sua calçada, o País fica limpo”.

“É importante acreditar que a gente pode construir algo melhor na nossa vida e, na somatória, isso representa um país melhor”, finalizou John. Enfim, todos esses sonhos são impossíveis sem uma boa educação, seja ela formal, familiar ou corporativa. E exemplo, em todas essas esferas, é tudo!

Se tivesse que expressar em algumas palavras todas essas trocas de experiências e reflexões, assim simplificaria: propósito, valores, cultura, clientes, serviços, sustentabilidade, pessoas, resiliência, liderança, exemplo e tecnologia. Nada de fato é novidade. Mas precisa ser praticado com seriedade nas formulações estratégicas, na Gestão de Pessoas e na Educação Corporativa, para voltarmos a ter esperança.

* Marisa Eboli é doutora em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e especialista em educação corporativa. É professora de graduação e do mestrado profissional na FIA Business School.

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