Startups financeiras fogem à regra e contratam seniores
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Startups financeiras fogem à regra e contratam seniores

Fintechs buscam confiança do mercado com profissionais mais experientes, na contramão da juventude que domina as empresas de base tecnológica

Mateus Apud

09 de novembro de 2019 | 17h00

Empresas de base tecnológica, as startups são associadas a profissionais jovens, inovadores e disruptivos. Apesar desse DNA, consolidado nos últimos anos nas principais empresas do mundo (como Facebook), as startups financeiras, também conhecidas como fintechs, estão em busca de profissionais mais experientes para comporem seus times.

Em um momento em que o mercado tem empurrado gente mais velha para escanteio, e o desemprego chega a 12% no País, as fintechs se beneficiam do know how desses profissionais para escalar rapidamente em um setor tão regulamentado e específico como é o financeiro.

De acordo com levantamento da Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs) em parceria com a PwC Brasil (PricewaterhouseCoopers), 58% dessas empresas não atingem o “break even”, ponto em que começam a ter lucro. Por isso, explica o diretor da ABFintechs Mathias Fischer, essa busca por profissionais mais maduros e com experiência na regulação do mercado deve crescer muito.

“O movimento ainda está começando, pois tanto as fintechs como os executivos estão começando a entender os benefícios dessa troca. Acredito que ainda há um grande potencial para crescer. Como estamos falando de um segmento extremamente regulado e as fintechs devem ter as mesmas preocupações de uma instituição tradicional, a experiência desse executivo consegue agregar muito valor à fintech”, afirma Fischer.

Ailton Torres, 44 anos de idade e 20 de mercado. Foto: Wherter Santana/Estadão

O movimento começou a ser seguido recentemente por empresas como a IOUU, que diz acreditar que profissionais seniores em funções estratégicas é fundamental para atrair investidores. “No início de uma empresa, todo mundo faz um pouco de tudo. Mas, quando a startup começa a escalar, a ganhar mais clientes e faturar mais, você precisa estruturar a operação melhor”, diz o CEO, Bruno Sayão, de 25 anos.

Fundada em 2016, a fintech atua como uma plataforma P2P (peer to peer) que conecta micro, pequenas e médias empresas que necessitam de crédito a investidores (pessoas físicas) que emprestam dinheiro. Ao emprestar, os investidores buscam obter uma rentabilidade superior aos investimentos tradicionais brasileiros.

Com profissionais seniores nas áreas de marketing, crédito e TI (tecnologia da informação), Sayão afirma que eles são fundamentais para a estruturação das equipes e o crescimento da empresa. “Uma das coisas que os investidores mais avaliam é o time, quem faz parte dos cargos de liderança e se eles têm experiência no mercado.”

Com 27 funcionários, sendo cinco deles com idades que vão de 29 a 45 anos, a fintech tem a previsão de até o ano que vem contratar mais três funcionários nessa categoria sênior para acelerar a escalabilidade. “Temos muito parceiros que são grandes instituições financeiras e precisamos de profissionais com mais experiência para tratar com eles”, diz.

Além das fintechs, o envelhecimento da população exige que mais empresas estejam de  olho na contratação de profissionais maduros. Daqui a 20 anos, a estimativa é que 57% dos brasileiros ativos no mercado de trabalho terão 45 anos ou mais, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Mudança de carreira

Com mais de duas décadas atuando na área de TI e após 10 anos em uma grande empresa da indústria de seguros, onde liderou a revolução digital interna, Ailton Torres, de 44 anos, decidiu buscar um novo desafio. Encontrou na fintech SmartBrain a possibilidade de continuar no mercado digital. “Eu estava procurando uma empresa, e eles estavam procurando alguém com bagagem”, conta Torres, que hoje é CIO/CTO (chief information officer e chief technology officer, cargos de chefia na área de tecnologia) da fintech.

Atuando como uma plataforma com soluções para investidores autônomos e profissionais, com ferramentas para comparar, simular e consolidar extratos de investimentos, a SmartBrain contratou Torres há um ano para liderar o desenvolvimento de novos produtos com a utilização de big data e inteligência artificial.

“Entrar no mundo das fintechs foi relativamente fácil dada a carência no mercado de profissionais mais experientes”, diz. Para quem pensa em tomar o mesmo rumo, Torres minimiza os temores da transição. “A nossa experiência é muito bem vinda nesse mercado. Isso não significa que é o jovem contra o experiente. É um relação bimodal unindo as qualidades de ambos para construir algo novo.”

A falta de conhecimento em tecnologia não foi um problema, conta Ailton, pois ele já desenvolvia o mesmo tipo de atividade na empresa anterior. Ainda assim, ressalta o diretor da ABFintechs, o profissional mais velho não precisa entender tanto do assunto dependendo do cargo que ele vá assumir.

Para Fischer, o foco está na união de competências dos funcionários. “Essas diferentes gerações têm uma relação muito mais de colaboração do que de competição. Não vejo por que motivo o profissional mais experiente ter insegurança em fazer essa transição”, diz.

Característica das startups, a organização do quadro de funcionários de forma mais horizontal, sem hierarquia muito rígida, facilita a fusão entre gerações e é bem vista especificamente no Brasil. De acordo com levantamento da Randstad, empresa holandesa de recrutamento, 90% dos brasileiros dizem preferir trabalhar com equipes multigeracionais pois reconhecem que a parceria contribui para ideias e soluções inovadoras.

Estagiário sob a supervisão do editor de Economia e Negócios Alexandre Calais. 

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