Tecnologia predomina nas contratações em um mês de quarentena

Pesquisa inédita da Revelo registra aumento de 25% em contratações durante isolamento social; cresce também número de profissionais que se dispõem a contratos como PJ, não CLT

Bianca Zanatta

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Especial para o Estado

Após um mês de isolamento devido à pandemia do novo coronavírus, muitas empresas mantêm vagas congeladas ou mesmo demitem, mas há setores que demonstram reação. De acordo com pesquisa cedida com exclusividade para o Estadão pela Revelo, startup de recursos humanos que oferece plataforma digital de recrutamento e seleção com 14 mil empresas e cerca de 1 milhão de candidatos, os segmentos de business intelligence e tecnologia da informação registraram um aumento de 25% nas contratações em um mês de quarentena decretado no Estado de São Paulo.

Ainda que empresas de tecnologia estejam demitindo, outras tantas corporações se viram obrigadas a migrar para o mundo digital. Entre as funções mais procuradas segundo a Revelo estão analista de dados, analista de performance, engenharia de dados, ciência de dados, administração de sistema e segurança da informação. Os setores de e-commerce e software também permanecem em alta.

A plataforma identificou ainda um crescimento de 20% a 30% nas faixas salariais ofertadas, em decorrência do perfil das carreiras e funções com maior demanda. “O foco principal está em vagas para profissionais de nível mais sênior, que as empresas sabem que serão necessários daqui para a frente”, diz Lachlan de Crespigny, cofundador da Revelo.

Guilherme Sant’Anna, da XP Inc., que pretende chegar ao final do ano com um incremento de 25% no quadro de colaboradores. Foto: Werther Santana/Estadão

Outra percepção é sobre a transição de regime CLT para pessoa jurídica (PJ). Além das incertezas sobre o futuro, que têm levado muitas empresas a ter cautela na hora de assumir vínculo empregatício, os próprios profissionais começaram a ver vantagens no formato.

“Agora 30% dos candidatos sinalizam a disponibilidade para contratação como PJ, não só pela flexibilidade que isso oferece, mas pelo impacto líquido, que é menor”, analisa o executivo. Antes da quarentena, somente 7% marcavam esta opção.

Por outro lado, muitos que procuravam trocar de empresa preferiram interromper o processo e ficar onde estavam para não correr riscos. “Há áreas crescendo e preenchendo a demanda profissional, mas outras totalmente paradas, o que gera bastante insegurança neste momento”, explica Crespigny.

De acordo com o site de vagas e recrutamento Glassdoor, o mercado está começando a reagir, mesmo que de forma sutil. Após duas quedas seguidas na oferta de vagas nas últimas semanas de março (respectivamente -5% e -5,7%), abril iniciou com crescimento de 0,3%. Como facilitador, o site lançou um centro de busca específico para a pandemia, onde destaca os setores que estão contratando ativamente.

A lista inclui empresas como Itaú, Wildlife Studios, Amazon, Rede DOr São Luiz, Hospital Israelita Albert Einstein, Mercado Livre e Zé Delivery. No recorte por carreiras, o Glassdoor aponta demanda mais elevada por cargos ligados à área da saúde, como médicos, enfermeiros, farmacêuticos e técnicos de laboratório, setores de logística e comércio, atendimento ao cliente e telemarketing, além de uma maior procura por entregadores e motoboys.

Entre os negócios que estão a todo vapor em meio à crise, a XP Inc., que reúne empresas de investimento, pretende chegar ao final do ano com um incremento de 25% no quadro de colaboradores, que conta atualmente com 2,5 mil pessoas.

Lachlan de Crespigny, cofundador da Revelo. Foto: Daiane Rigo

“São quase 200 vagas abertas agora, incluindo área administrativa, mercado financeiro e tecnologia”, afirma Guilherme Sant’Anna, sócio responsável por gente e gestão. O processo de seleção é 100% digital e os novos contratados passam por uma imersão remota com lives e videoconferências em que a empresa, os benefícios, as ferramentas e a equipe são apresentados.

“Aprendemos a conviver com uma flexibilidade que nenhuma empresa do mundo tinha antes em termos de ambiente de trabalho e conexões à distância”, reflete o empresário. “Com isso, acredito que tanto empresas quanto funcionários entenderam que é possível trabalhar à distância com uma frequência maior do que se imaginava, de forma organizada e, por vezes, com um rendimento maior do que o esperado.”

Profissionais de direito e educação também são requisitados

Outras áreas que se mantêm ativas, segundo a empresa de recrutamento Robert Half, são finanças e contabilidade, banking e seguros. A advocacia também se mostra em movimentação, com oferta de posições no contencioso cível, área responsável por cuidar de litígios comerciais, em insolvência – advogados que auxiliam empresas a renegociar dívidas – e no setor trabalhista, consultoria a que muitos negócios estão recorrendo para entender novas regras e ter mais segurança durante a crise.

Apesar de não haver aumento significativo na contratação de professores, a educação também passou a movimentar o mercado. “A produção de conteúdos EAD envolve tecnologia e outros profissionais que estão por trás da infraestrutura dos cursos”, diz Maria Eduarda Silveira, division manager da Robert Half. “Mesmo universidades mais tradicionais, como Insper ou Fundação Getúlio Vargas, estão com aulas virtuais e precisam garantir segurança da informação, por exemplo”.

O setor de serviços como um todo demonstra certa estabilidade. Segundo uma pesquisa realizada com 259 empresas pela holding de recrutamento Talenses Group, a área manteve 58% das contratações ativas em subsegmentos como educação, agropecuária, telecomunicações, saúde e serviços financeiros, entre outros. O levantamento aborda ainda a expectativa quanto à retomada do crescimento.

“O resultado aponta exatamente o momento de incerteza que estamos vivendo”, afirma o CEO Luiz Valente. Ele analisa que os números estão relativamente divididos entre os que acreditam que voltarão a investir e contratar profissionais no segundo semestre ou até antes (58%) e os que não têm planos ou projetam apenas para 2021 (42%).

“A tendência parece ser um retorno gradual e baixo dos investimentos e contratações ao longo do segundo trimestre, com um possível aumento relevante a partir do terceiro trimestre”, calcula o CEO, que acredita que a rotina do mercado de trabalho comece a se estabilizar após o período mais crítico da curva de crescimento nos casos de contaminação pelo coronavírus, mas ainda cercada de muitos cuidados e restrições.

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