Trabalhar bastante acelera, de verdade, a carreira?
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Trabalhar bastante acelera, de verdade, a carreira?

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01 Setembro 2018 | 14h14

Foto: Pixabay


Artigo de Leonardo Trevisan*

Será que só trabalhar muito, por longas jornadas, constrói carreiras promissoras? Automação será responsável sozinha por trabalharmos, de fato, menos? Respostas provavelmente devem passar mais por produtividade real do que por vontade, crença ou dogmas. Aliás, basta olhar o que já acontece em locais tão diversos como a matriz da Volkswagen, ou o Bank of America , ou a Merril Lynch. Em todos esses locais a tentativa é de reduzir não aumentar as horas de trabalho.

Artigo do Financial Times, assinado por Emma Jacobs, discutiu essa redução de horas e encontrou uma tendência. Várias empresas, na Europa e EUA há tempos já reduzem no verão a semana de trabalho para 4 dias sem prejudicar o volume produzido. O que os gestores perceberam é que se é preciso exigir 50/60 hs de trabalho semanais existe aí um grave “problema de gestão”.

O artigo do FT cita pesquisa (de Argyro Augoustaki e Hans Frankort) em vários países, comparando pessoas de empregos e níveis de educação semelhantes, que quando trabalham de modo muito intenso enfrentam, além de problemas de saúde, expectativas piores de carreira. No artigo, diferentes analistas bateram no mesmo ponto: valorizar tempo de trabalho em vez de produto do trabalho é algo que motiva as pessoas a ludibriar outras sobre a quantidade de horas que efetivamente trabalham, uma “armadilha fácil de cair”. Este texto do FT está em: https://www.ft.com/content/d27b4334-962d-11e8-b747-fb1e803ee64e

Produtividade no trabalho não é questão de tempo e sim de eficiência. Todos conhecemos exemplos de locais com longas jornadas e baixa produção. Nessa realidade, a automação será implacável na redução de postos de trabalho. Será uma questão de “quando” e não de “se” para acontecer. Carreiras promissoras no mundo digital terão referência, apenas, em produtividade.

Pesquisas diversas confirmam ligação entre carga extra de trabalho e horas “desperdiçadas”. É fato que oferecer escolha sobre como e onde trabalhar alivia a pressão e gera melhor ritmo de trabalho. A autodeterminação de horas e pausas define responsabilidade e aumento de eficiência. É erro grave pensar que isso é só “mania dos milênios”… É apenas percepção de melhor gestão do nível de esforço prestado por unidade de tempo de trabalho.

Economistas repetem, faz tempo, os três fatores que determinam a produtividade no trabalho. Nível educacional é o primeiro. Capital investido (tecnologia, infraestrutura) vem em seguida. Mas o terceiro é a eficiência geral do “ambiente” de trabalho, o que no economês ganha o nome de “Produtividade Total dos Fatores”. É nesse ponto que longas horas de trabalho se mostram muito desfavoráveis. Certos ambientes empresariais (como certas realidades sociais) são bem pouco propícias à produtividade. Nessas condições, com fatores desfavoráveis, pouco adiantam longas jornadas de esforço.

Nesses cenários, de ambientes inóspitos à produtividade, carreiras também ficam prejudicadas. Apesar do trabalho duro e longo. Percepção tão paradoxal quanto perigosa. Porém, verdadeira.

*Professor da PUC-SP