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Trabalhar no exterior exige adaptação ao jeito local

Para atuar em outro país não basta ser capacitado, é preciso entender a cultura

CRIS OLIVETTE

22 Abril 2018 | 07h53

Carolina Pinheiro. Foto: Mariana Valverde

Estudo realizado no final de 2017 pela recrutadora Talenses com mais de mil executivos brasileiros aponta que 93% deles têm interesse em deixar o Brasil. Ao mesmo tempo, dados do Ministério da Fazenda mostram que no período houve aumento de 165% no número de brasileiros que deixaram o País (21.717) na comparação com 2011 (8.170).

CEO do escritório de advocacia Hayman-Woodward, especializado em emigração e imigração, Leonardo Freitas diz que a falta de perspectiva diante da crise econômica, política e de segurança é principal fator que leva à busca de destinos mais seguros do ponto de vista econômico e com melhores condições profissionais.

Segundo ele, neste ano o interesse em imigrar está ainda maior. “Mas, para que essa mudança tenha sucesso, as pessoas precisam saber quais são as características do ambiente corporativo do país escolhido, além de conhecer o sistema de leis trabalhistas.”

Na Austrália, por exemplo, Freitas diz que os profissionais costumam ser muito individualistas. “Há muito respeito em relação ao espaço de cada profissional e grande rigidez com os horários. Além disso, a assertividade de conhecimento e o protocolo corporativo são fundamentais para ter sucesso.”

A redatora publicitária Carolina Pinheiro viveu dois anos no país e há três semanas está morando em Barcelona. Ela confirma a questão do individualismo. “Mas não diria que é só no trabalho. Por ser um país muito jovem, com apenas 200 anos, a maioria das pessoas não têm raízes. Penso que, talvez, elas não tenham muito o conceito de família, como temos nos países latinos, o que as torna mais individualistas.”

Ela afirma que o que mais chamou sua atenção no país é o alto senso de justiça. “Por exemplo, se tivéssemos de trabalhar mais horas que o previsto em contrato, tínhamos direito a um taxi para casa e jantar pago pela agência, a partir das 20 horas.”

Carolina acrescenta que a burocracia é grande e os processos longos. “Reuniões que poderiam ser substituídas por um e-mail são incontáveis. É outro ritmo. No Brasil, somos muito ágeis. Acho que é um dos motivos pelos quais o profissional brasileiro é contratado no exterior. Solucionamos problemas rapidamente e com menos verba.”

Ela resolveu mudar para a Espanha porque acha que a Austrália fica distante, não apenas do Brasil, mas do resto do mundo. “O país é literalmente uma ilha. É como se estivessem desconectados do que está acontecendo no planeta. Mas fui muito feliz lá. Ir à praia antes do trabalho ou surfar após o expediente não tem preço. Porém, negocie um bom salário, porque as coisas são muito caras.”

A paranaense Leticia Barros também escolheu a Austrália para estudar e trabalhar. “Eles são bastante focados no trabalho, respeitam e valorizam muito as habilidades de cada um.”

Letícia Barros Soares. Foto: Tais Corral

Quando trabalhou como barista, percebeu que há confiança no profissional desde o primeiro momento. “No primeiro dia de trabalho já fiquei no caixa, sem supervisão alguma.”

Agora, atua com marketing e mídia social em uma companhia de intercâmbio. “Outra coisa que é diferente aqui é o pagamento. Recebo por horas trabalhadas e quinzenalmente. Como estou com visto de estudante, só posso trabalhar 40 horas por quinzena”, diz.

Especialista em marketing, Maximiliano Fernandes trabalhou em Paris entre 2010 e 2013 e diz que a diferença no ambiente corporativo é brutal.

“Se o profissional entrega um trabalho acima da curva, por exemplo, o superior usa apenas a expressão ‘nada mal’. No Brasil é comum recebermos elogios. Entendi tal postura quando soube que o sistema de notas escolares na França é de zero a 20 e ninguém tira mais que 15. Eles estão acostumados a entregar ótimos trabalhos e isso não é nada além da obrigação.”

Além disso, destaca que as decisões são bem hierarquizadas. “As reuniões são longas, fala-se muito e não se chega a uma conclusão. Depois de ouvir todas as partes, o diretor se recolhe e toma a decisão com base em todos os elementos expostos.”

Fernandes conta que a jornada de trabalho é menor, mas não menos produtiva. “As pessoas chegam ao trabalho às 9h, depois de deixar os filhos na escola. É comum um papo rápido no café e a partir das 9h30 todos estão trabalhando e ninguém mais se comunica.”

Maximiliano Fernandes/Arquivo pessoal

Diferentemente dos Estados Unidos, onde o normal é comer sobre a mesa de trabalho, na França o almoço é sempre fora da empresa. “Eles respeitam muito o horário do almoço, que pode durar até duas horas para que seja possível o deslocamento até um bom restaurante. Na volta, há muito foco no trabalho e às 18 horas as luzes são apagadas e todos vão embora.”

Formada em turismo e hotelaria, Rivia Vieira trabalhou em Londres entre 2007 e 2010, como garçonete e assistente de supervisão em uma rede de cafés e restaurantes, e ressalta que atrasos não são aceitos. “Os ingleses são muito rígidos tanto com o horário de começar quanto de encerrar o trabalho. Os clientes não podem ficar além do horário de fechamento da casa e são praticamente expulsos.”

Na empresa na qual trabalhou o tratamento entre o chefe superior e demais funcionários era bem próximo. “Mas não sei se em outras empresas é assim.”

Advogada, Ester Santana viveu nos Estados Unidos durante o período em que fez mestrado na área de tributação internacional. “Ao mesmo tempo, participei de muitos eventos profissionais como reuniões, palestras, competições e ainda mantenho contato semanal com o mercado profissional americano. Então, posso afirmar que tenho vasta referência quanto à postura profissional deles.”

Segundo ela, o americano está no trabalho para produzir resultado. “São extremamente objetivos. Diferentemente dos brasileiros, não param para tomar cafezinho e bater papo. E não saem para almoçar.”

Ester diz que, durante reuniões das quais participou, vivenciou inúmeras vezes a situação de chegar a hora do almoço e todos pedirem lanche e continuarem trabalhando enquanto comiam. “Um americano comentou comigo que quando está trabalhando pensa no que fazer para ser mais produtivo e obter mais resultados para ele e para o negócio. O mindset deles é 100% voltado à produtividade e eficiência. Enquanto o brasileiro faz o que é solicitado, o americano quer fazer mais rápido para ser mais eficiente.”

Ela afirma que ao mesmo tempo em que são muito educados também são bem fechados. “Eles querem trabalhar e não têm tempo para conversa.”

Ester diz que essas diferenças podem ser contornadas pelos brasileiros, porque temos jeito para conquistar as pessoas. “Isso é possível, desde que se respeite a cultura local.”
Segundo ela, americanos também valorizam muito a pontualidade. “Uma vez, tinha uma reunião e cheguei no horário, ainda assim ouvi o seguinte comentário: Você chegou no horário! O problema dos brasileiros é que sempre atrasam.”

A advogada afirma que além de objetivos e eficientes, eles também valorizam a política de meritocracia. “Eles levam muito a sério carta de referência na hora de contratar alguém. Se o chefe gosta da pessoa, não mede esforço para fazer elogios.”

Alemanha
Além da questão do idioma,
muitas pessoas não se adaptam ao frio e à cultura; formalidade e o respeito à hierarquia são comportamentos esperados

Austrália
Profissionais são individualistas, há respeito ao espaço de cada um e o respeito ao protocolo corporativo é fundamental

Canadá
São muito objetivos e valorizam a proatividade e quem se antecipa a possíveis problemas para
trazer mais soluções do que
dificuldades ao time

Estados Unidos
São focados em resultados, objetivos e eficientes. Valorizam muito a pontualidade e não fazem amizade pessoal no trabalho

França
O intraempreendedorismo é bastante expressivo. A jornada de trabalho é menor e tem flexibilidade prevista em lei com opção de redução de salário

Portugal
Apesar da ligação com o país, há diferenças que podem atrapalhar; questionar ou sugerir pode nem sempre pode ser bem visto