Um dia na vida de uma CEO dividida entre reuniões e filhos
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Um dia na vida de uma CEO dividida entre reuniões e filhos

Passamos 12 horas ao lado da brasiliense Beatriz Ramos, executiva da filial brasileira da BrandLoyalty, empresa que executa campanhas de selinhos e brindes para redes varejistas

Marina Dayrell

02 de junho de 2019 | 06h10

Como é a rotina de uma executiva do mundo do marketing? Inspirados na coluna Like a Boss, do New York Times, que conta a rotina de executivos, passamos 12 horas ao lado da brasiliense Beatriz Ramos, CEO da filial brasileira da BrandLoyalty. Ex-pianista clássica, ela trocou a música pelo mundo dos negócios na companhia holandesa, que desenvolve campanhas de fidelização a curto prazo. Entre reuniões no escritório, em empresas parceiras e até no táxi, Beatriz se desdobra na função de mãe de dois meninos enquanto, ao lado de 30 funcionários, idealiza, planeja e executa campanhas de selinhos e brindes para redes varejistas.

7h30. O dia de Beatriz Ramos, de 38 anos, já começa com checagem de e-mails profissionais. Depois de pronta, às 8h sai de casa para deixar o filho de três anos na escola, enquanto o marido leva o mais velho, de sete. “A gente sempre se reveza, porque é legal para eles. Nos esquematizamos de acordo com a nossos compromissos”, conta, dirigindo.

Na rotina dividida entre as obrigações de executiva de uma filial que faturou R$ 200 milhões em 2018 e as tarefas maternais – que faz questão de incluir o máximo possível no dia a dia –, não sobra tempo para a academia. Mas, logo cedo, de salto alto e roupa social, joga futebol com o filho mais novo na escola. São 15 minutos, e a partida termina empatada: um gol da criança, um da mãe e nenhum da repórter, que ajudou a integrar o time das adultas.

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Com um dia de intensas negociações pela frente, a primeira começa fora do escritório. No lugar do cliente, Beatriz precisa convencer o filho a deixá-la ir embora – ela e o marido acabaram de voltar de uma viagem à Europa e ele ainda está com saudade.

No comando da BrandLoyalty, Beatriz Ramos não abre mão do notebook durante as corridas de táxi. Foto: Valéria Gonçalvez/Estadão

8h30. No escritório, que ocupa um andar de um prédio no Itaim Bibi, Beatriz divide a baia com outros cinco funcionários, na faixa dos 30 anos, embora tenha uma sala individual, que usa mais para entrevistas. Pelas salas e corredores do local, há uma dezena de estandes com facas, cutelos, panelas e brinquedos de pelúcia. A BrandLoyalty, com filiais em 32 países, desenvolve campanhas de fidelização a curto prazo.

Na prática, eles são a inteligência por trás dos selinhos que redes de supermercado distribuem em compras. Em 2018, o Extra, do Grupo Pão de Açúcar (GPA), cliente de Beatriz, distribuiu mais de 2 milhões de facas a clientes. Os números ajudaram a levar a filial brasileira do 32º lugar na lista de faturamento (em 2011) para a 5ª posição.

9h. Imersos em uma nova campanha, o escritório organiza um grupo com parentes de funcionários para coletar opiniões sobre novos brindes. “Usamos o momento para introduzir as famílias na empresa, já que seus familiares dedicam tanto tempo para a gente”, diz Beatriz enquanto cumprimenta algumas pessoas.

Após o social e uma maquiagem rápida, ela vai ao encontro de um candidato que a espera para uma entrevista de emprego. Questionada sobre o perfil que busca, Beatriz é categórica: “Para trabalhar nesse cenário, paixão tem que ser tudo”.

10h. A caminho da primeira reunião do dia, com um de seus maiores clientes, o GPA, Beatriz vai de táxi. Do Itaim aos Jardins, responde e-mails no notebook, alinha pontos da reunião pelo Whatsapp, conversa com a mãe, manda áudio para o marido em holandês (língua-mãe dele) e combina um encontro das crianças para o dia seguinte.

Tudo isso com a ajuda de uma agenda, lapiseira e borracha. “Prefiro assim porque consigo ter visão de longo prazo. Viro a página e já sei quando a bomba vai explodir.” Na página da próxima semana, dá para ver escrito uma viagem para Las Vegas. “Vão todos que trabalham na empresa há mais de seis meses. Conquistamos muita coisa boa no ano passado. Eu brinco que aqui é ‘work hard, play hard’.”

11h. Depois da reunião no GPA, vai a pé para um almoço com a Philips e volta para mais um encontro no GPA. Agora, outros quatro funcionários a acompanham. Entre uma reunião e outra, eles alertam a reportagem: “No escritório, você vai ver que, quando ela chega, a gente parece pombo em volta do milho. Todo mundo precisa de um minuto com ela”.

O escritório da BrandLoyalty no Brasil e a CEO, Beatriz Ramos. Foto: Valéria Gonçalvez/Estadão

15h30. Duas vezes por semana, Beatriz busca o filho mais velho na escola. No táxi, faz uma conferência de vídeo com funcionários. Quando a criança entra no carro, não há mais espaço para notebook, agenda ou reuniões pelo celular. Alternando entre inglês, holandês e português, eles conversam sobre as tarefas da escola.

Embora Beatriz não trabalhe oficialmente nos fins de semana, o seu mais velho entrega que, às vezes, ela fica muito tempo no celular aos sábados e domingos. “Quando se está estruturando uma empresa, você ainda está muito envolvida na operação. A minha meta é poder formar uma equipe para delegar funções com as quais eu não gostaria de estar mais envolvida”, explica.

17h15. Depois de nove horas de trabalho, de comprar lanche para o filho e de deixá-lo em casa com a babá, Beatriz volta ao escritório para uma reunião com a equipe. Na pauta está o estoque dos brindes das campanhas. A operação é tão grande que a empresa estima que, se enfileirar todos os selinhos já distribuídos no Brasil ao longo desses oito anos, dá para percorrer meia volta na Terra. Sai do escritório para a última reunião, na Ambev.

20h. Ao final da reunião, ela sai correndo para casa, na tentativa de conseguir colocar os dois filhos para dormir. Como seguem o padrão de hábitos holandês, eles vão para a cama cedo, entre 19h30 e 20h. É o momento em que se desconecta do escritório. “Quando não consigo colocar os meninos para dormir, eu fico mal. Tenho certeza de que não seria uma boa mãe se eu não trabalhasse, mas os meus filhos superam qualquer coisa.”

O dia de Beatriz ainda dura até meia-noite. Responde e-mails e antecipa as pendências do dia seguinte. Por fim, medita antes de dormir, “para manter a mente sã e colocar o pensamento em dia”.

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