“Uma empresa de serviços tem de ter alma”

Claudio Marques

27 de agosto de 2013 | 23h36

Bem-humorado, ambicioso e com espírito de equipe. Assim é Luiz Eduardo Falco, que aos 52 anos de idade e depois de 30 anos de experiência profissional em empresas de serviços – foi presidente da TAM e do Grupo Oi –, assumiu em março o cargo de CEO da CVC, empresa de turismo responsável pelo embarque de mais de três milhões de pessoas em 2012. Ele é formado em engenharia aeronáutica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), tem curso de extensão em marketing e finanças pela fundação Getúlio Vargas (FGV). E diz que o líder, além de ser justo, também deve se divertir. A seguir, leia trechos da entrevista.

Por que você migrou da área técnica para a administrativa?
Comecei como engenheiro de manutenção na TAM, que ainda era uma empresa muito pequena. Mas eu achava que, na área técnica das empresas, com toda a tecnologia disponível, faltava um pouco de gente. E na TAM tinha gente. Desde sempre, achei que tinha uma vocação para servir. Se eu ficasse engenheiro, ia servir de uma maneira indireta. Na TAM, ainda não havia tanta estrutura tecnológica, e era o que mais me aproximava das pessoas.

Como foi a sua trajetória profissional na TAM?
Além de engenheiro de manutenção, fui engenheiro de produção, trabalhei com os pilotos, coordenando voos, e cheguei à área comercial. Essa foi uma trajetória de 20 anos. Nos dez primeiros anos, eu trabalhei em áreas mais técnicas. Quando a TAM comprou a Votec, o comandante Rolim (Rolim Adolfo Amaro, fundador da companhia) me deu o prazer de tocar essa empresa no norte do País, com a condição de que não largasse a área técnica da TAM. A empresa foi muito bem, e o Rolim me chamou para comandar também as áreas comercial, técnica e operacional da TAM.

Foi sua primeira experiência como gestor?
A empresa crescia 30% ao ano, e é muito mais fácil estar em uma empresa que cresce, pois você cresce junto com ela. Tínhamos uma equipe muito boa, com pessoas motivadas. A empresa tinha alma, o comando do comandante Rolim era importante. Em 2001, já tinha alguns convites para sair, mas eu não tinha interesse. Foi quando o comandante Rolim morreu, em julho de 2001. Eu tinha desenvolvido com ele um relacionamento de muita afinidade. Se ele estivesse vivo, estaria até hoje na TAM.

Como era essa relação?
Ele tinha uma confiança em mim que não era normal no mundo dos negócios. Eu tinha carta branca para fazer o que eu quisesse na companhia, e obviamente eu devolvia em gratidão e resultados. Não era de graça que ele fazia isso. Depois que ele morreu, passou a ser uma companhia normal.

Perdeu o vínculo afetivo?
Sim, perdeu o vínculo emocional. E eu tinha muitos convites de outras empresas. E um deles era lançar uma telefonia móvel no Rio de Janeiro. Eu não entendia nada de telecom, mas fui lá ver. Eu já estava havia 20 anos na TAM, tinha feito um monte de coisas bacanas e decidi, então, mudar de área. Se não fizesse isso aos 40 anos, não faria nunca mais.

Foi um novo desafio na Oi?
Eu saí da TAM como o segundo homem da companhia e fui para a Oi (móvel) como presidente, quando ela ainda estava começando. Comecei a revolucionar o jeito de trabalhar com telecomunicação, a iniciando pelo nome da empresa, que passou a ser Oi antes era TNL. Esse é o benefício de quem que vem de fora, ele vê diferente. Em 2006, eu virei presidente do Grupo Oi, onde fiquei até 2011, quando sai para fazer coisas minhas.

Período sabático?
Não era um sabático sem fazer nada. Me inspirei no filme com Morgan Freeman e Jack Nicholson (“Antes de Partir”) e fiz uma lista de 20 coisas que queria fazer. Havia itens simples de coisas que nunca tinha feito, como tirar 30 dias de férias com a família. Ainda estou devendo uns dois ou três. Foi quando o Guilherme Paulus presidente do conselho da CVC) me chamou para cá.

Como é comandar a maior operadora turística do País?
Uma empresa de serviços tem de ter alma. Se você quer servir, tem de estar disponível, sorrindo, deixar os problemas do lado de fora e entrar no clima do cliente. Sem clichês, mas, para prestar serviço, você tem de gostar, tem de ser divertido, não pode ser sofrido. E o produto que vendemos, ou o serviço que prestamos, é sem barreiras. Os objetivos são difíceis, mas vamos fazer com bom humor.

O líder também precisa ter esse bom humor?
Precisa dar os sinais certos, ser muito justo e, principalmente, se divertir também, porque, se você não se diverte, a galera não se diverte.

O que aprendeu no decorrer de sua carreira?
Coisas simples. A primeira é que não se faz nada sozinho, é preciso ser um grande formador de equipe. Segunda é que precisa ser ambicioso. A ambição é muito boa, mas tem de balanceá-la com ética e justiça. Se não, acaba fazendo bobagem. Se tiver um time bom, ambição boa, com justiça e ética, e dar exemplos, há uma chance boa de se dar bem na indústria de serviços.

Quais são as perspectivas e planos para a CVC?
A TAM não era nada, e ajudamos a transformá-la na maior empresa do setor. A Oi era uma startup e virou a maior telecom do Brasil. Não há coisas impossíveis. Podem não ser fáceis, mas tem de fazer. Vamos crescer, a CVC vai ser grande, vamos colocar todo mundo para viajar.

A CVC vai fazer IPO (oferta inicial de ações)?
A IPO da CVC é uma coisa absolutamente normal de acontecer – e rápido. Se você olhar o mercado numa perspectiva macroeconômica, o telecom é 6% do PIB, e todas as empresas do setor são de capital aberto; as empresas de ensino a distância, que são 1,5% do PIB, são todas de capital aberto; o turismo é 4% do PIB e nenhuma empresa é aberta. Não faz sentido, e é uma perda de oportunidade não abrirmos as empresas de turismo. Ao abrir, aumentamos o leque de oportunidades, de consolidações, crescimento, financiamentos, novas maneiras de funding.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.