Vale-internet ganha lugar em política de benefícios na pandemia

Vale-internet ganha lugar em política de benefícios na pandemia

Empresas dão a funcionários no home office verba para internet, energia, cadeira e até cuidador de idoso ou criança; ‘vale-tudo’, que funcionário gasta como quiser, também é opção

Marina Dayrell

23 de agosto de 2020 | 06h06

Quem está em home office durante a pandemia do novo coronavírus parou de usar o vale-transporte. Por outro lado, viu as despesas com internet e energia elétrica subirem. Se a empresa não enviou os materiais de escritório, como cadeiras ergonômicas, é possível que tenha sido necessário comprá-los. O tempo em casa com o trabalho remoto e os restaurantes fechados também podem ter aumentado a conta no supermercado e diminuído os gastos com alimentação na rua. As mudanças de comportamento durante a quarentena levaram as empresas a modificar suas políticas de benefícios e, em alguns casos, flexibilizar a forma como os funcionários os gastam.

Uma pesquisa realizada pela Sodexo Benefícios e Incentivos, entre junho e julho, com mais de 7.700 pessoas de todo o País, aponta que os benefícios mais desejados por quem está no home office são o auxílio para pagar internet, 24%, e luz, 17%. Gastos como esses, que antes eram da empresa, agora caem na conta dos funcionários.

“Estamos economizando dinheiro na empresa neste momento, ainda mais que vamos ter trabalho híbrido no futuro, então teremos menos custos no escritório. Por que não reverter esse valor para os colaboradores?”, destaca a diretora de Pessoas e Cultura da GetNinjas, Andréia Girardini.

A empresa, que tem cerca de 120 funcionários, está em home office desde março, sem previsão de volta ao trabalho presencial. Com a economia do vale-transporte e dos gastos com o escritório, a GetNinjas aumentou em 20% o vale-alimentação, criou um programa de terapia online gratuita, fornece ajuda de custo de R$ 100 para as contas de luz e internet e, durante quatro meses, concedeu um auxílio extra para que os funcionários comprassem o que precisassem.

Para o backoffice Michael Douglas, de 28 anos, funcionário da empresa há quase um ano, os benefícios têm sido essenciais para um trabalho mais confortável. “Sempre recebemos o vale-refeição e o vale-alimentação. Agora, deram a opção de colocar todo o valor no vale-alimentação e isso me ajudou muito porque tenho comprado mais em supermercado.” O funcionário também recebeu em casa uma cadeira ergonômica e outros materiais que utilizava no escritório.

“Ao pensar no bem-estar do funcionário para que ele possa trabalhar no home office, também pensamos na retenção e na atração de talentos. As pessoas pensam duas vezes se querem sair: será que a outra empresa vai me dar tudo isso?”, destaca a líder de Recursos Humanos da Intel no Brasil, na América Latina e no Canadá, Telma Gircis.

Funcionário da GetNinjas, Michael Douglas, de 28 anos, recebeu materiais ergonômicos para trabalhar em casa e trocou o vale-refeição pelo vale-alimentação durante a pandemia. Foto: Taba Benedicto/Estadão

A empresa anunciou que, globalmente, o home office vai pelo menos até junho do próximo ano. Para isso, enviou cadeiras aos funcionários e concedeu um valor para que eles pudessem comprar equipamentos ergonômicos. Também há auxílio para o pagamento da internet, seja para aumentar o pacote ou financiar parte do serviço já contratado.

Outra frente de atuação é em promover benefícios em relação à gestão de tempo. Quem precisa cuidar de filhos pequenos ou de idosos passou a receber uma ajuda de custo para pagar por serviços de babá ou cuidadores. Caso o funcionário precise fazer um horário alternativo, a flexibilidade é permitida.

Para aqueles que, ainda assim, não consigam trabalhar durante a pandemia, são oferecidas opções de redução da carga horária em até 50% (com consequente redução de salário) ou uma licença não-remunerada de até um ano.

‘Vale-tudo’ com verba administrada pelo funcionário

A pandemia deixou ainda mais claro que dentro de uma mesma organização existem perfis diferentes de funcionários. Uma pessoa pode precisar comprar mesa e cadeira para conseguir trabalhar de forma confortável em casa. Outra pode preferir gastar a verba com o supermercado ou assinando um serviço de streaming.

A pesquisa da Sodexo Benefícios e Incentivos apontou que 95% dos entrevistados gostariam que suas empresas disponibilizassem um cartão que fosse flexível, ou seja, que elas tivessem autonomia para usar os valores como quisessem. A partir da pesquisa, a companhia criou uma opção de cartão que permite às empresas fornecer outros benefícios além dos tradicionais, como auxílio a internet e energia elétrica, farmácia, viagens, incentivos e despesas corporativas.

Ao contratar um serviço de benefício flexível, as organizações determinam um valor disponível para o funcionário e em quais áreas ele pode utilizá-lo: alimentação, saúde, educação, refeição, mobilidade e, mais recentemente, auxílio home office.

“As necessidades, que já eram diversas, aumentaram. Tivemos uma mudança de comportamento. O delivery cresceu muito, os gastos com supermercado aumentaram, os com mobilidade despencaram e foram compensados por gastos na saúde, como farmácia e terapia online”, explica Ricardo Salem, CEO da Flash, empresa de benefícios corporativos flexíveis.

Após demanda das empresas, a Flash criou em junho um pacote de benefícios focado no home office. Com ele, os funcionários recebem valores para serem gastos exclusivamente com despesas relacionadas ao trabalho em casa, como luz, internet, água e materiais de escritório.

“Ser econômico no benefício é prática velha, de 10 anos atrás, quando pagávamos o mínimo exigido pelo sindicato. Hoje, as empresas aprenderam que benefício é incrível para atrair talentos e gerar diferenciação na proposta de trabalho”, diz Salem. O ticket-médio de benefícios contratados por seus clientes é de, em média, R$ 700 mensais por funcionário. Em relação ao pacote de home office, o auxílio gira em torno de R$ 150.

Acordos sindicais devem ser seguidos

“Se a jornada do colaborador mudou, os benefícios precisam ser diferentes. A empresa cria as regras, estipula um mínimo e máximo e as categorias e o colaborador usa como quiser. Mas, claro, respeitando sempre o que os acordos sindicais exigem em relação a refeição, transporte e alimentação”, explica Raphael Machioni, CEO da Vee, plataforma de benefícios flexíveis.

A advogada trabalhista e previdenciária Roberta Gaudencio destaca que é importante sempre obedecer o que determinam as convenções coletivas dos sindicatos de cada categoria. Ela explica que, durante a pandemia, as empresas podem suspender o vale-transporte para os funcionários que estão em home office e não precisam se deslocar até a empresa.

Mas benefícios como plano de saúde, seguro de vida e vale-refeição e alimentação devem ser mantidos quando previstos em contrato. “O vale-refeição ou alimentação têm que ser fornecidos independentemente dos dias trabalhados ou se houve redução de jornada. Com a MP 936, o funcionário pode trabalhar menos horas ou menos dias na semana, mas isso não faz com que possa haver uma redução do valor do vale-refeição”, explica.

A Amaro, marca digital de moda, já oferecia aos 420 colaboradores os benefícios flexíveis desde 2017. Com a pandemia e o aumento nas reuniões online, a empresa decidiu adicionar o auxílio home-office ao cartão flexível.

“A ideia do benefício flexível é valorizar a equipe. As pessoas têm um momento de vida diferente e, ao longo dela, as suas necessidades vão mudando e elas vão tendo liberdade para ajustar. Podem escolher entre supermercado, saúde, academia, restaurante, farmácia e, agora, gastar com despesas relativas ao home office, de mobiliário a internet”, conta Renata Emendabili, gerente de Operações de Recursos Humanos da empresa.

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