Sob protestos, Reino Unido decide privatizar correios
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Sob protestos, Reino Unido decide privatizar correios

Nem a liberal Margaret Thatcher ousou mexer no capital da empresa

Nayara Fraga

12 de setembro de 2013 | 15h14

Por Fernando Nakagawa, de Londres

Orgulho dos britânicos e intocável até mesmo para a privatizadora dama de ferro Margaret Thatcher, o serviço de correios do Reino Unido será mesmo privatizado.

É mais uma inovação para a conservadora economia britânica, após o banco central do país resolver fazer libras de plástico, abandonando o tradicional papel.

Após meses de estudo e mesmo com a pressão de vários setores da sociedade, o governo do primeiro-ministro David Cameron anunciou que venderá parte das ações do Royal Mail nas próximas semanas. A reação veio rapidamente: trabalhadores vaiaram a presidente da empresa que tentou explicar a operação e já há ameaça de greve.

Tabu. Nem Thatcher ousou mexer na empresa

Com o argumento de que é preciso atrair novos acionistas para modernizar a empresa de 497 anos e preparar o Royal Mail para o futuro, o governo conservador de Cameron anunciou nesta quinta-feira o plano para oferecer parte da empresa ao capital privado. “A decisão assegurará o futuro saudável da companhia. Essa medida ajudará a assegurar a sustentabilidade do Royal Mail no longo prazo”, defendeu o secretário de negócios do governo inglês, Vince Cable. Esse é o mais ambicioso plano de privatização no país desde a década de 1990.

Ainda há poucos detalhes sobre como será a venda das ações. O governo não anunciou, por exemplo, qual parcela será oferecida ao mercado. A imprensa britânica afirma que Cameron poderia negociar até 41% do capital da companhia.

Será oferecida parcela de 10% da empresa aos cerca de 150 mil funcionários dos correios. Se os números forem confirmados, o contribuinte inglês poderia deixar de ser dono do Royal Mail, já que até 51% do capital da empresa seria trocado de mãos. Analistas avaliam que a empresa valeria cerca de 3 bilhões de libras – cerca de R$ 10 bilhões.

Os correios sempre foram considerados um tabu quando o assunto é privatização no Reino Unido. Nos anos 80, quando o país viveu uma dos mais intensos processos de privatização da história, o governo Thatcher vendeu a British Gas, British Airways e a British Telecom, entre outras estatais. A dama de ferro, porém, não tocou nos serviços postais porque, se a privatização já era um tema polêmico, a venda do Royal Mail era ainda mais sensível.

Entre os britânicos, há o temor de que a venda prejudique a qualidade dos serviços. Ingleses se orgulham de ter um serviço postal confiável que passa seis vezes por semana na porta de todos os endereços do país e cobra preço único para a postagem nacional. Segundo o secretário Cable, mesmo privatizado, os correios manterão os serviços de seis dias por semana e o preço único.

As explicações, porém, não foram suficientes e a reação mais forte veio dos cerca de 150 mil empregados que consideram entrar em greve nas próximas semanas.

Durante evento na cidade de Birmingham, a presidente da estatal Moya Greene foi vaiada ao chegar e deixar o palco pelos empregados. Durante o encontro com trabalhadores, a executiva ouviu gritos de “Não à privatização do Royal Mail” enquanto tentava explicar os motivos do plano e chegou a ser ridicularizada pela plateia quando afirmou que “não entendia” porque há ameaça de greve.

O polêmico plano acontece em um momento político delicado para o governo Cameron. Mesmo com a recuperação gradual da economia, o primeiro-ministro tem enfrentado a insatisfação popular e política crescente. Há alguns dias, a intenção do governo de apoiar uma intervenção militar na Síria foi rechaçada pelo Parlamento em uma derrota inédita em décadas.

A oposição de centro-esquerda do partido trabalhista rejeita a privatização dos correios e diz que o governo não considerou “grandes preocupações” de consumidores, empresas e comunidades.

O polêmico líder do partido de direita UKIP, Nigel Farage – que é publicamente contra a União Europeia e a imigração, disse que a venda dos correios é culpa das autoridades europeias. “A privatização é um resultado direto das ordens da União Europeia. Eu já previa isso há anos e era chamado de louco”, disse.

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