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Acordo entre Brasil e Irã é ‘golpe’ nos EUA, diz jornal

Maiores diários dos EUA e Europa tiveram reação neutra ou negativa

Carla Miranda

18 de maio de 2010 | 11h02

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Manchete do Wall Street Journal: ‘Acordo nuclear iraniano aumenta o medo no Ocidente’

A reação dos maiores jornais norte-americanos e europeus diante do acordo entre Brasil, Turquia e Irã a respeito do urânio enriquecido pelo país persa foi de neutra a negativa. Enquanto os diários europeus El País (Espanha), The Guardian (Reino Unido) e Le Figaro (França) salientam que o pacto não resolverá o problema, os norte-americanos The Wall Street Journal e The New York Times avaliam que o acordo deixa mais difícil o impedimento de que o Irã construa armas nucleares.

O Wall Street Journal adotou o tom mais enfático e adjetivado entre os grandes jornais, com o editorial intitulado “Golpe nuclear iraniano”. Sua fúria, no entanto, voltou-se mais contra o governo dos Estados Unidos do que contra Brasil, Turquia e Irã. “Que fiasco” é a primeira frase do editorial, em referência à incapacidade da administração Barack Obama de se antecipar ao acordo turco-brasileiro. Na primeira página, a manchete: “Acordo nuclear iraniano aumenta o medo no Ocidente”.

Pelo acordo, o Irã se compromete a enviar à Turquia 1.200 quilos de urânio baixamente enriquecido (pouco mais que metade dos 2.300 quilos que os EUA estimam que existam no Irã), para em menos de um ano receber 120 quilos enriquecidos. Entre as críticas, destacam-se a de que o urânio que sobrará no país será suficiente para que o Irã desenvolva armas nucleares, e a de que a nação persa continuará enriquecendo urânio a 20%, percentual a partir do qual é tecnicamente viável atingir os 99% necessários para a construção da bomba nuclear. Uma terceira crítica que apareceu nos diários norte-americanos é de que agora ficará mais difícil, para os EUA, obter apoio para sanções contra o Irã.

Os EUA emitiram nota criticando o acordo. O Irã reafirmou que o projeto nuclear tem fins pacíficos.

Leia os trechos mais marcantes da reação da grande imprensa norte-americana e Europeia ao acordo.

 

The Wall Street Journal (editorial)

“Ao invés de EUA e Europa empurrarem o Irã em um canto nesta primavera, Ahmadinejad empurrou Obama para um. O desconforto da América é óbvio. [… O Irã] moveu-se para a autossuficiência na produção de mísseis nucleares. O acordo de ontem não terá impacto nessas atividades ilícitas [… e] torna quase impossível o rompimento do programa nuclear iraniano”.

“Obama agora enfrenta um Irã muito mais perto de uma bomba e muito menos isolado diplomaticamente do que o presidente Bush deixou. […] Israel terá que considerar seriamente suas opções militares. Esse confronto é muito mais provável graças à diplomacia de Turquia e Brasil, e especialmentea um presidente dos EUA cuja diplomacia teve sucesso principalmente em persuadir os trapaceiros do mundo de que faltou ao governo norte-americano determinação para barrar as ambições destrutivas desses países”.

 

The New York Times

“A rejeição ao novo acordo poderia fazer parecer que Obama estivesse bloqueando um compromisso potencial. E o acordo mostra como Brasil e Turquia, que por seus próprios interesses econômicos se põem às sanções, podem descarrilar um frágil consenso internacional para aumentar a pressão sobre o Irã. […] Se bem sucedido, o acordo reforçaria e sublinharia a contínua ascensão de Turquia e Brasil como forças internacionais.”

 

Le Figaro

“O acordo não resolve a questão do programa nuclear iraniano e não interromperá a marcha rumo a novas sanções. […] Não convenceu os ocidentais. […] Precisaria de uma atualização, como exigia Washington.”

 

El País

“O Irã dá um golpe de efeito diplomático. […] Na euforia do momento, ninguém em Teerã pareceu reparar nas várias dúvidas que o acordo suscita. […] Não fica claro se o urânio enviado a solo turco será usado para obter novo combustível, como era o plano de outubro, ou se servirá apenas como garantia. Se as disposições não forem respeitadas, a Turquia se compromete a devolver 1200 kg de urânio com baixo enriquecimento.”

 

The Guardian

“O acordo fará pouco para reduzir o ritmo do progresso nuclear iraniano.”

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