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África pode ser o próximo Bric, diz O’Neill, criador do termo

Economista expõe também as dificuldades para chegar lá

Carla Miranda

27 de agosto de 2010 | 10h48

Atualizado às 12h23

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‘QUASE BRIC’: Jovens vendem farinha à luz de velas em Lagos, capital da Nigéria, um dos países mais promissores da África, segundo O’Neill. O governo anunciou dia 24 um plano bilionário para consertar o degradado sistema de energia que deixa as pessoas dependentes de geradores privados.
Foto: Sunday Alamba/AP

 

Jim O’Neill, criador do acrônimo Bric (sigla para Brasil, Rússia, Índia e China), o grupo dos países emergentes mais promissores, afirmou que a África – um continente – pode se tornar mais um membro desse clube de nações do futuro.

Mas para quem lê até o fim o artigo intitulado “Como a África pode se tornar o próximo Bric”, publicado no jornal britânico “Financial Times”, pode ficar a impressão de que ele está explicando por que esse continente não pode fazer parte do Bric.

O economista conta que inicialmente pensou em colocar um “s” no final do acrônimo, formando o Brics. A última letra representaria a África do Sul (do inglês “South Africa”). Mas o país, com seus 45 milhões de habitantes, não tem população suficiente para sozinho se tornar um Bric, diz o próprio O’Neill.

Já o continente africano como um todo teria uma população adequada à teoria do economista-chefe do banco Goldman Sachs. O’Neill ressalta que, entre os 11 países que ele e seus colegas apontam como sendo o grupo dos emergentes mais promissores depois do Bric, dois estão na África: o Egito e a Nigéria. O continente tem 54 países.

Além disso, a economia dos 11 países da região com maior PIB (Produto Interno Bruto) “tem potencial” para chegar a US$ 13 trilhões em 2050, à frente das projeções para Brasil e Rússia, ainda que atrás de China e Índia. Quase metade desse valor virá de Egito e Nigéria, diz O’Neill. Esse cálculo foi feito a partir de dados demográficos e expectativas sobre a evolução da mão de obra disponível e da produtividade.

Esses foram os argumentos favoráveis à ideia de que a África pode ser um Bric. Agora vêm as ressalvas. O Goldman Sachs formulou um índice com 13 variáveis para saber se um país tem chance de manter crescimento e produtividade razoáveis em longo prazo. Esse indicador varia de 0 a 10. Dos 11 países “quase Bric”, a Coreia do Sul é que tem mais pontos: 7,4. As economias do Bric têm, na média, 4,9 pontos. Já as 11 maiores economias da África têm 3,5 pontos.

O’Neill afirma que os países africanos “precisam aumentar essa pontuação significativamente”. Para isso, basta:

– estabilizar políticas macroeconômicas com foco em inflação baixa;

– evitar dívidas pública e externa excessivas;

– gerar estabilidade nos governos;

– melhorar o Estado de Direito;

– melhorar a educação nos níveis mais básicos;

– espalhar o uso da internet e do celular (“nesse ponto tem havido um desenvolvimento impressionante”, diz O’Neil);

– erradicar a crônica corrupção vista em muitas nações africanas.

Em outras palavras, assim que o continente africano se livrar das sequelas deixadas por seu conturbado passado (e presente), já estará apto a entrar no Bric. E como o que está ruim sempre pode piorar, circula no Congresso Nacional Africano um projeto de amordaçar a imprensa. “Seria um passo muito grande na direção errada”, afirma o artigo.

O mesmo O’Neill não deixa de dizer: “Autoridades sul-africanas falam entusiasticamente sobre suas aspirações ao status de quase-Bric. […] O senhor Zuma [presidente da África do Sul] e outros líderes africanos precisam se concentrar em promover a transparência e um ambiente que contribua para os negócios. Caso contrário, o sonho de um Bric africano permanecerá apenas isso – um sonho”. De fato, os brasileiros sabemos do orgulho que é ser apontado pelo banco Goldman Sachs como um dos países do futuro.

Leia o artigo de O’Neil no site do “Financial Times” (em inglês)

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