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Análise: na prática, euro subsidia exportações da Alemanha

Países que usam a moeda única compram produtos alemães

Carla Miranda

24 de outubro de 2011 | 14h39

A Alemanha tem sido o país mais rigoroso nas negociações para socorrer nações europeias e salvar o euro, mas sua boa situação atual deve-se, ao menos em parte, à existência da moeda única, como observou Ian Bremmer em artigo no “Financial Times“.

mailson_da_nobrega.JPGQuem indica o texto é Mailson da Nóbrega, colaborador do Radar Econômico, que comenta abaixo o assunto.

“Na já prolongada crise da Europa, surgiram temores de colapso do euro, propostas de saída da Grécia da zona do euro e até de limitação da moeda única a um grupo de países mais desenvolvidos, que incluiria a Alemanha, a França, a Holanda e uns poucos mais. Na verdade, a evolução recente da crise e a ação dos líderes indica o firme compromisso de adotar as medidas necessárias para preservar o euro. A situação da Grécia, a mais grave de todas, tende a ser resolvida mediante uma combinação de perdão parcial de sua dívida pública – da ordem de 40% a 60% – e de medidas de ajuste para dar sustentação à dívida no futuro e restabelecer as condições para o crescimento.

Poucos acreditam numa zona do euro sem a Alemanha, que foi um de seus principais mentores. Em artigo recente no ‘Financial Times‘, Ian Bremmer assinala fortes razões pelas quais a Alemanha nunca deixará o euro. Ele começa assinalando que, com a moeda comum, a robustez da Alemanha está atrelada às relativas fraquezas da zona do euro. ‘A moeda única compartilhada é significantemente mais desvalorizada do que poderia ser uma moeda exclusiva da Alemanha. As exportações alemãs são assim subsidiadas, fazendo-as internacionalmente muito mais competitivas.

‘A zona do euro é um bloco comercial único’, continua Bremmer. ‘Isso institucionaliza eficiências, facilita transferências e elimina o risco de protecionismo entre a Alemanha e sua principal fonte de demanda, isto é, a própria zona do euro.’ A integração amarra as mãos do que seriam seus competidores, os quais poderiam se tornar mais competitivos mediante desvalorização de suas moedas. ‘Não constitui surpresa que o balanço de pagamentos da Alemanha tenha passado de um pequeno déficit para o segundo maior superávit do mundo desde que o país adotou a moeda única em 1999’.

Mesmo que os alemães reclamem das ações de salvamento da Grécia, o melhor para todos é o país ficar no euro. Bremmer não menciona o efeito das vantagens que a Alemanha extrai de sua participação no bloco: 73% de seu superávit comercial são obtidos no comércio com os demais parceiros. Além do mais, profetiza Bremmer, ‘sem a Alemanha, a União Europeia se desintegraria’.

Bremmer traça uma cenário de uma Alemanha fora da Zona do Euro. ‘Os alemães terminariam com vizinhos menos amistosos sob o ponto de vista econômico e de segurança.’ No médio prazo, a crise acarretaria uma fuga para o marco alemão, o que significaria tremendas pressões para valorização da moeda e redução das exportações e da competitividade. ‘Um novo marco repetiria a recente valorização do franco suíço’. Desse modo, as pessoas passariam a comprar Bunds, em vez de Benzs”. Como se sabe, ‘Bund’ é o título público alemão; ‘Benz’ são os famosos automóveis.

Os principais partidos políticos são favoráveis a uma integração maior para solucionar a crise do euro. Os políticos são majoritariamente pró-euro, ‘mesmo que eles resistam antes de aprovar mais recursos alemães para onde eles são necessários’. Já a opinião pública é contraditória. ‘Os alemães querem o apoio à periferia do euro? Não. Eles querem o euro? Sim. À medida que a crise se aprofunda, a opinião pública vai preferir os dois, em lugar de nenhum deles”. Cabe aos políticos explicar ao público as difíceis decisões a serem adotadas. ‘Seja como for, mesmo que a opinião pública se volte contra a Zona do Euro, o mesmo não aconteceria nas elites. Os padrões de vida e a prosperidade estão fundamentalmente atreladas à União Européia e ao euro.’

A Alemanha pagou o preço por juntar-se à zona do euro: o abandono do marco. ‘Felizmente, esse preço tornou-se um prêmio. Os benefícios políticos da atual situação são claros: a Alemanha pode estabelecer a integração fiscal com base em seus próprios termos, ainda que a um alto preço”. Explicar isso para o público alemão não será fácil, diz Bremmer. ‘Será uma longa e difícil caminhada rumo à saúde fiscal europeia. Essa caminhada será para a zona do euro. A Alemanha pagará o preço que for necessário para estar no comando’.”

Mailson da Nóbrega foi ministro da Fazenda (1988 a 1990) e hoje é sócio da Tendências Consultoria Integrada e membro de conselhos de administração de empresas no Brasil e no exterior. Ele colabora com o Radar Econômico comentando artigos e reportagens relevantes da imprensa internacional.

Blog: http://mailsondanobrega.com.br/blog/

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