As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Anistia fiscal de Cristina para resgatar dólares causa confusão

Banqueiros e interessados estão perdidos e oposição fala em lavagem de dinheiro

Gustavo Santos Ferreira

02 de julho de 2013 | 15h35

Entrou em vigor segunda-feira novo plano do governo da Argentina para recapturar dólares escapulidos do sistema financeiro local. Mas a desinformação dos interessados parece atrapalhar os planos de Cristina Kirchner.

Ainda é cedo, mas matéria do Clarín desta terça garante: os bancos tem mais dúvidas que respostas aos investidores interessados no Certificado de Depósito para Investimento (Cedin). Sobre o primeiro dia do programa, bancários afirmaram à reportagem que a procura pelo Cedin foi baixa e que, quando ele foi solicitado, não sabiam como agir.

cristina_reuters.JPG
Cristina. Oposição a acusa de ajudar a lavar dinheiro com plano

“Eu recebi minha primeira consulta. E eu não sei o que dizer “, diz (um bancário aos seus colegas) com humor. Poucos minutos depois, um cliente entra no escritório de outro gerente de contas do mesmo banco e pergunta pelo Cedin. “Eu acho que é um título público, não tem muita informação, não fomos treinados ainda. Se estiver interessado, você pode preencher uma ordem de compra e pedido para que o banco o adiquira no mercado eletrônico”, afirmou um funcionário de banco ao Clarín.

Bem simplificadamente, o Cedin é um papel que pode ser trocado por dólares que não precisam ter sido declarados ao Fisco (anistia fiscal). Com ele, pode-se investir na construção civil e no setor imobiliário. Mas, se o vendedor aceitar, é possível comprar qualquer coisa com ele.

(Caso você seja argentino e tenha vindo parar neste Radar Econômico; ou, então, seja apenas curioso, entenda algo de espanhol e queria saber mais detalhes, o Clarín preparou um manual bastante didático que pode ser lido clicando aqui.)

Ou seja, a ideia é matar dois coelhos de uma só vez: trazer dólares de volta ao mercado e estimular a economia, trazendo de volta para o mercado um dinheiro parado. A oposição, no entanto, diz que a anistia fiscal de Cristina nada mais é que nova facilidade à lavagem de dinheiro.

Na prática. Os efeitos de Cedin ainda não são sentidos. O câmbio paralelo (dólar blue)  está praticamente estável, caiu apenas um centavo em relação a segunda-feira. O dólar blue custa 7,97 pesos argentinos e o oficial está cotado a 5,35 pesos nesta tarde de terça-feira.
brecha.jpg

A instabilidade da política econômica dos últimos anos na Argentina fortaleceu o mercado do dólar blue. A falta de confiança no sistema financeiro levou bastante gente a acumular riquezas em moeda americana. Não nos bancos, mas no exterior e em casa – em cofres, debaixo do colchão ou sabe-se lá onde. Como consequência, as reservas do Banco Central da Argentina, em queda há dois anos e meio, atingiram seu menor nível desde 2007. O caixa da autoridade monetária ficou 28% mais vazio desde janeiro de 2011.

A corrida pelo dólar blue é tamanha que, em relação ao câmbio cotado no mercado financeiro, a diferença (brecha) de seu preço em pesos argentinos em relação ao oficial chegou a beirar os 100% em maio.

dolar_messi.jpg

‘Dólar Messi’. Brincadeira na internet, quando ‘blue’ custava 10 pesos

Enquanto o dólar oficial custava 5 pesos, o blue custava 10 – por isso foi apelidado de “dólar Messi”, em alusão ao número da camisa do jogador do Barcelona e da seleção Argentina. Essa brecha já diminuiu bastante desde maio, como se vê no gráfico acima. Mas segue bem grande, de quase 49%.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.