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Argentina combina crescimento de 7% com inflação de 26%

Jornal espanhol analisa se este é um modelo a imitar ou a evitar

Carla Miranda

26 de julho de 2011 | 11h11

Em meio ao desespero diante da crise econômica na Espanha – com baixo crescimento e alto desemprego – o jornal local “El País” resolveu olhar para a Argentina como possível modelo. O país latino-americano tem inflação alta, mas também possui algo que os espanhóis não têm: crescimento econômico.

luiz_fernando_de_paula_.jpgLuiz Fernando de Paula* (foto), colaborador do Radar Econômico, analisa o caso:

“O jornal espanhol ‘El País’ publicou uma interessante e instigante reportagem intitulada ‘Argentina, ¿modelo a imitar o a evitar?’, uma peça de bom jornalismo, em que o repórter ouve diferentes visões sobre a problemática tratada, no caso, o modelo argentino de crescimento, ou mais precisamente o assim chamado “Modelo K” (em referência ao casal Néstor e Cristina Kirchner).  

Se por um  lado, o crescimento do PIB tem sido vigoroso desde a crise de conversibilidade de 2001-2002, com um aumento da ordem de 6% a 7% desde 2003, por outro há sérios desequilíbrios macroeconômicos, como a aceleração inflacionária (26% m 2010, pelas estimativas não-oficiais) e forte e persistente saída de capitais do País.

A combinação de uma bem-sucedida reestruturação de dívida externa, um ambiente internacional benigno (‘boom’ de commodities) e uma política econômica flexível, com elementos heterodoxos e ortodoxos (taxas de juros reais próximas de zero, superávit primário da ordem de 3% do PIB no período de 2003 a 2008 acompanhado de aumento nos investimentos sociais, controles de capital nos moldes chileno, regime de câmbio flutuante administrado, buscando manter uma taxa de câmbio competitiva e política de acumulação de reservas) permitiram uma rápida recuperação do produto (taxa de crescimento média de 6,8% em 2003-10), dos salários reais e do emprego a partir de 2003.

O modelo para funcionar depende de duas assunções básicas: de um lado, uma política fiscal apertada, que dê espaço a uma política de compras de divisas para sustentar o nível da taxa de câmbio; de outro, uma política de rendas que mantenha o aumento do salário real em linha com a produtividade. Essas duas assunções vêm sendo relaxadas nos últimos anos.

Uma inflação de mais de 20% ao ano começa a se tornar ‘disfuncional’ para o crescimento, pois torna as taxas de juros reais negativas, corrói a taxa de câmbio real e acirra o conflito distributivo entre empresários e trabalhadores dando origem à espiral preços/salários.

Parece haver um problema de dosagem na política econômica praticada na Argentina – é o que sugere Roberto Lavagna, ex-ministro da Fazenda, que foi quem renegociou, de forma bastante exitosa, a reestruturação da dívida externa do país.

Uma política fortemente expansionista do consumo em uma economia bastante aquecida tem acelerado a inflação. Ao mesmo tempo, a taxa de investimento tem-se mantida estável, ao redor de 20% do PIB. Tratei desse assunto no meu artigo para o jornal Valor, intitulado “O tango argentino”, de 08/04/2011.”

* Luiz Fernando de Paula é professor de Economia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), pesquisador do CNPq e presidente da Associação Keynesiana Brasileira (AKB). É autor, entre outros, do livro “Financial Liberalization and Economic Performance: Brazil at the crossroads” (Routledge, 2011).

Blog da Associação Keynesiana Brasileira (AKB): http://associacaokeynesiana.wordpress.com

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