Barbie wi-fi com alma da Siri: nova era de brinquedos interativos
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Barbie wi-fi com alma da Siri: nova era de brinquedos interativos

Versão Hello da boneca que faz sucesso há 60 anos marca nova era de brinquedos interativos, que permitem às crianças desenver conversas elaboradas de maneira semelhante às paisagens elaboradas construídas pelos jogadores de Minecraft

Economia & Negócios

30 de março de 2015 | 16h23

Barbie Talk: tecnologia permite interação com as crianças

Barbie Talk: tecnologia permite interação com as crianças

THE NEW YORK TIMES

Desde o dia em que a tecnologia Siri surgiu como recurso do iPhone, certas crianças – e até alguns de seus pais – passaram horas conversando com a assistente virtual, curiosas a respeito dos detalhes de sua história humanoide. Siri, onde você mora? Siri, você tem namorado? Siri, quantos anos você tem?

Numa época em que adultos podem usar comandos de voz para encontrar restaurantes, mudar o canal da TV ou pedir informações de localização, parece lógico que as crianças agora esperem que os aparelhos compreendam sua fala e respondam com a mesma linguagem.

“Crianças de 10 anos dão como garantida a capacidade de conversar com um dispositivo móvel”, disse Oren Jacob, diretor executivo da Toy Talk, empresa que cria personagens para diálogo com crianças, em conversa na sede da empresa em San Francisco. “O mesmo não vale para quem está no ensino médio.”

Fundada em 2011, a Toy Talk já produz aplicativos de diálogo animado bastante populares – como Winston Show e SpeakaZoo – que incentivam as crianças pequenas a se envolver em diálogos complexos com uma série de personagens de faz de conta. Desenvolvida originalmente para personagens bidimensionais na tela, a tecnologia da empresa deve agora ser incorporada por brinquedos tangíveis que as crianças seguram nas mãos.

No segundo semestre, a Mattel planeja lançar a Hello Barbie, uma versão da boneca icônica equipada com sinal wifi, que usa o sistema da Toy Talk para analisar a fala da criança e produzir respostas relevantes.

“Ela é um personagem conhecidíssimo, com uma história enorme”, diz Jacob a respeito da Barbie. “Esperamos que, quando estiver pronta, ela tenha milhares e milhares de coisas para dizer, e a criança possa conversar com ela durante horas.”

Talvez fosse inevitável que a chamada internet das coisas – os eletrodomésticos mais variados que agora têm conexão com a internet – produzisse uma internet dos brinquedos. E, assim como o dispositivos conectados à internet podem reunir informações a respeito do usuário e transmiti-las para análise remota, os brinquedos conectados à internet oferecem a encantadora promessa de serviços personalizados e o risco de ameaças à privacidade.

“Será que teremos uma boneca sinistra que registra aquilo que se passa na sua casa sem que saibamos?” indaga Nicole A. Ozer, diretora de tecnologia e liberdades civis da União Americana das Liberdades Civis do norte da Califórnia. “O que está sendo registrado? Como está sendo armazenado? Com quem essas informações são compartilhadas?”

O advento dos brinquedos conectados que podem registrar a fala e responder às crianças deve aprofundar o debate a respeito da internet das coisas por causa do potencial que brinquedos inteligentes desse tipo trazem de influenciar a imaginação infantil, o aprendizado da criança seu e desenvolvimento social.

Um estudo recente realizado por pesquisadores da Universidade Georgetown, por exemplo, comparou dois grupos de bebês. Um grupo brincou com bichos de pelúcia pré-programados para dizer o nome da criança, e também que tinham a mesma comida e música favoritas que ela; o outro grupo brincou com bichos de pelúcia que chamavam as crianças de “amiguinho” e gostavam de coisas diferentes.

Quando o mesmo personagem de brinquedo ensinava na tela habilidades matemáticas – como organizar potes por tamanho – o primeiro grupo teve desempenho melhor do que aquele que brincou com bichos de pelúcia menos personalizados.

Sandra L. Calvert, diretora do Centro Infantil de Mídia Digital, de Georgetown, e principal autora do estudo, disse que brinquedos capazes de personalizar suas respostas às crianças em tempo real podem ter um efeito ainda maior sobre elas.

“Pode haver usos revolucionários para facilitar o aprendizado infantil”, disse Sandra. Mas ela acrescentou que o impacto dos brinquedos dependeria principalmente da profundidade e variedade de suas capacidades de diálogo. “Cabe aos programadores aproveitarem esses recursos”, disse ela.

Jacob teve a ideia de desenvolver personagens para diálogo com crianças alguns anos atrás, quando sua filha Toby, na época com 7 anos, indagou a ele se poderia usar o Skype para conversar com seus bichos de pelúcia. Anteriormente ele trabalhou como diretor de tecnologia da Pixar Animation Studios. Assim, ele comentou a possibilidade com Martin Reddy, ex-colega da Pixar. Eles decidiram fundar a ToyTalk.

“Seria possível criar um personagem realmente capaz de responder? E, caso afirmativo, como seria um brinquedo do tipo?” disse Jacob.

Para desenvolver um sistema capaz de entender os comentários de uma criança e responder com algo revelante, a empresa construiu sua própria plataforma de processamento de língua falada – desenvolvida para o timbre das vozes infantis, sua prosódia e vocabulário. Agora, por exemplo, quando uma criança diz “tamém queio” a um aplicativo da ToyTalk, o processador de idioma entende que a criança disse “também quero”.

A empresa passou meses testando piadas, canções, rimas e perguntas em grupos de crianças para desenvolver personagens capazes de diálogo com suas próprias biografias e tramas. Jacob vê no desenvolvimento das estruturas de diálogo desses personagens uma nova forma de arte, diferente do cinema e dos jogos eletrônicos.

No decorrer do percurso, a ToyTalk também desenvolveu um processo de privacidade pensado para dar aos pais algum controle sobre as informações pessoais dos filhos. Antes que uma criança com menos de 13 anos possa usar os recursos de diálogo de um aplicativo, um dos pais precisa dar permissão e confirmá-la por e-mail.

Quando as crianças querem interagir com um personagem, elas apertam o botão do microfone do aplicativo como um walkie-talkie.

Os pais também têm acesso às conversas gravadas dos filhos e podem apagá-las se assim desejarem. Mas a ideia dessa tecnologia (pensada originalmente para as telas de celulares) encarnada numa Barbie já está produzindo controvérsia antes mesmo do lançamento da boneca.

Algumas semanas atrás, o grupo Campaign for a Commercial-Free Childhood, de Boston, pediu à Mattel que cancele o brinquedo. O grupo disse que a gravação de voz seria equivalente a “bisbilhotagem” e poderia ser usada para explorar os sentimentos da criança. “Tudo que a criança disser poderá ser manipulado e usado para aumentar a participação dessas bonecas nas vidas das meninas”, disse Susan Linn, diretora do grupo.

Em pronunciamento, a Mattel afirmou seu “compromisso com a segurança”, dizendo que a Hello Barbie contará com “alguns mecanismos de segurança para garantir que os dados registrados e armazenados estejam a salvo, impossíveis de serem acessados por usuários não autorizados”.
Executivos da ToyTalk e da Mattel estão cientes que grupos feministas e de defesa da criança acompanharão atentamente para ver se a Hello Barbie desafia as meninas a pensarem ou se simplesmente perpetua estereótipos de gênero e beleza. No segundo semestre do ano passado, por exemplo, a Mattel foi duramente criticada quando os críticos descobriram que um livro infantil intitulado “Barbie: I Can Be a Computer Engineer” mostrava a personagem pedindo ajuda a amigos para programar um jogo.

“Todos os envolvidos sabem muito bem o quanto é preciso ser cuidadoso no desenvolvimento de conteúdo desse tipo”, disse Michael Shore, diretor de insights do consumidor da Mattel, no início da semana. “Com essa poderosa tecnologia, isso é algo com que precisamos ser especialmente cuidadosos.”

Mas, se a ToyTalk puder influenciar o novo brinquedo, em vez de condenar a privacidade das crianças, a Hello Barbie pode ser o arauto de uma nova era de brinquedos interativos, permitindo que as crianças desenvolvam conversas elaboradas com brinquedos de maneira semelhante às paisagens elaboradas construídas pelos jogadores de Minecraft.

É claro que talvez a sociedade não esteja preparada para que as crianças busquem relacionamentos ilusórios com dispositivos inteligentes – por mais que estejam apenas imitando os pais./Tradução de Augusto Calil

Leia também:

Barbie ganha rival com espinha e celulite

Barbie derruba presidente da Mattel

Barbie é acusada de sexista associada ao capitalismo

Aos 60 anos, Barbie ganha versão inteligente

 

Tudo o que sabemos sobre:

Barbie

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.