Agora que Bernanke tem um blog, eis algumas sugestões de temas para seus posts
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Agora que Bernanke tem um blog, eis algumas sugestões de temas para seus posts

O debate na internet envolvendo a ciência econômica tem um novo participante, de credenciais incomuns e acima da média, diz o NYT

Economia & Negócios

31 de março de 2015 | 14h58

Neil Irwin

THE NEW YORK TIMES

O ex-presidente do FED Ben Bernanke promete escrever também sobre basebol

O ex-presidente do FED Ben Bernanke promete escrever também sobre baisebol

O debate na internet envolvendo a ciência econômica tem um novo participante, de credenciais incomuns e acima da média.

O ex-presidente do Federal Reserve, Ben S. Bernanke, lançou um blog e abriu uma conta do Twitter na segunda feira de manhã, prometendo opinar de maneira mais pública a respeito de uma série de questões econômicas, e ocasionalmente também sobre o beisebol.

“Agora que voltei a ser um civil, posso comentar novamente as questões políticas e financeiras sem que minhas palavras sejam colocadas no microscópio pelos observadores do Fed”, escreveu Bernanke no post inaugural do site da Brookings Institution, de onde é bolsista residente. “Espero educar, e espero também aprender algumas coisas.”

Bernanke teve uma longa e produtiva carreira acadêmica combinada com uma década de experiência no mais alto escalão do governo, conferindo a ele uma perspectiva rica diante de alguns dos debates econômicos mais importantes dos nossos tempos.

Em seu primeiro post substancial, Bernanke se manifestou contra os críticos para os quais a política de juros ultrabaixos do Fed promovida por ele teria criado juros “artificialmente baixos” ou castigado indevidamente os poupadores. Em vez disso, era a economia que precisava de políticas de juros baixos, disse ele. “Em resumo, a taxa real de retorno alcançável por investidores e poupadores é determinada pelo estado da economia, e não pelo Fed”, escreveu.

E quais outros tópicos ele poderia abordar agora que entra para o debate econômico online? Eis algumas ideias para começar.

Qual a importância da desigualdade?
Tem havido um consenso cada vez mais aprofundado (principalmente após a publicação do Capital de Thomas Piketty) segundo o qual a crescente desigualdade de renda e riqueza é uma tendência importante observada nas duas ou três décadas mais recentes em todo o mundo desenvolvido.

Outras obras disseram que esse fenômeno está prejudicando a economia em geral, com os ricos poupando mais do que as famílias de renda média e baixa. E independentemente de comprarmos essa ideia ou não, há razões morais para concluir que um sistema econômico incapaz de gerar ganhos para os 95% mais pobres da população não está funcionando bem.

Por ter comandado um período de política intervencionista à frente do Fed, é fácil esquecer que Bernanke é republicano, e partidário do tradicional ceticismo de centro-direita em relação à necessidade de intervenções do governo para corrigir aparentes problemas na economia. Mas como os acontecimentos dos dez anos mais recentes influenciaram o pensamento dele a respeito da questão crucial que determina se o governo deve fazer mais para combater a desigualdade?
Como presidente do Fed, Bernanke tendia a evitar um posicionamento quanto a essas questões, enxergando-as como fora de sua alçada e objeto dos debates partidários. Agora que está do lado de fora, chegou a hora de opinar.

E quanto aos robôs?
Um dos debates mais interessantes a capturar a atenção dos blogueiros de economia nos anos mais recentes envolve os possíveis efeitos da robótica e de outras tecnologias da informação em rápido aperfeiçoamento sobre os salários e empregos nas próximas décadas.
Será que aqueles que temem um futuro distópico no qual a maioria de nós não terá perspectiva real de obter renda estão na pista certa, ou será que este é mais um caso de lamentar os efeitos do computador pessoal para a indústria de máquinas de escrever?

No passado, Bernanke se mostrou otimista em relação à tecnologia, enxergando seu grande avanço como forma de melhorar o bem estar humano e tornar os trabalhadores mais produtivos (com renda mais alta), em vez de excluí-los do mercado de trabalho.

A volta da fartura de poupanças
Dez anos atrás, Bernanke cunhou a expressão “fartura global de poupanças” como possível explicação para os juros baixos no longo prazo nos EUA e em outros países. Na prática, havia mais poupadores em busca de lugares seguros para estacionar o dinheiro do que lugares para recebê-lo.

Ele relativizou um pouco essa ideia numa entrevista concedida ao New York Times no ano passado, defendendo que a falta de boas oportunidades de investimento pode ser culpada pelo excesso de poupança. Em outras palavras, a razão de juros tão baixos na época – e ainda mais baixos agora – tem menos a ver com o excesso de poupança e mais com a procura relativamente baixa por parte de empresas e lares interessados em gastar.

Isso está bastante ligado ao debate da “estagnação secular” iniciado nos anos mais recentes por outro grande responsável pela política econômica recente, Larry Summers. Este deve ser um território bastante frutífero para o blog de Bernanke.

Lições do Fed
O Federal Reserve ocupa uma posição única dentro do governo, exercendo vasto poder, mas com uma independência cuidadosamente defendida em relação à política partidária. Bernanke foi nomeado pelo presidente George W. Bush e mantido pelo presidente Barack Obama, mas não respondia a eles.

Essa estrutura criou uma organização tecnocrática de alto desempenho que emprega algumas das pessoas mais inteligentes do governo. Mas isso cria também dúvidas em relação à sua legitimidade numa sociedade democrática, especialmente durante a crise de 2008, quando o Fed decidia como empregar centenas de bilhões de dólares do contribuinte.

Quais seriam, então, as lições para o governo americano? Será que o congresso deveria terceirizar mais de suas decisões a tecnocratas independentes? Ou será que o processo legislativo pode ser mudado para manter o processo decisório nas mãos dos governantes eleitos, mas com resultados melhores?

Bernanke viu de perto como se fabricam as salsichas da política econômica. É hora de explicar como poderíamos obter salsichas mais saborosas.

Washington Nationals: o que o time está fazendo de certo e errado?
Bernanke é um grande fã dos Nats e já elogiou os méritos do técnico Davey Johnson (numa avaliação que, para os mais atentos, pode soar como uma metáfora para o tipo de presidente do banco central que Bernanke tentou ser).

E então, senhor ex-presidente do Fed? Será que o megacontrato oferecido ao talentoso arremessador Max Scherzer foi boa jogada, ou será que o time já tem bons arremessadores em demasia? Foi sinal de perspicácia ou miopia o fato de o time não ter garantido a renovação de dois excelentes jogadores, Ian Desmond e Jordan Zimmermann, com caros contratos de longo prazo?

No caso do beisebol, Bernanke é apenas um fã, que se distingue apenas pelas habilidades na matemática – com a política econômica a história é diferente. Mas isso pode ser liberador: ele pode opinar despreocupadamente a respeito dos Nats, mais à vontade do que jamais poderia ficar em se tratando de política monetária./Tradução de Augusto Calil

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