Brinquedos eróticos faturam com ‘Cinquenta Tons de Cinza’
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Brinquedos eróticos faturam com ‘Cinquenta Tons de Cinza’

Economia & Negócios

02 Fevereiro 2015 | 18h20

Óleo para banho engarrafado com rótulo inspirado em '50 tons de cinza' (Foto: NYT)

Óleo para banho engarrafado com rótulo inspirado em ’50 tons de cinza’ (Foto: NYT)

Rachel Abrams

THE NEW YORK TIMES

Quando brinquedos são criados a partir de filmes, seu alvo é em geral o público infantil. Mas, com a estreia de ‘Cinquenta Tons de Cinza’ marcada nos cinemas para o dia dos namorados nos Estados Unidos, muitos dos produtos ligados ao filme são apenas para adultos.

A indústria dos brinquedos eróticos está apostando na esperança que o filme da Universal Pictures produza vendas expressivas, mais ou menos como ocorreu com o romance erótico de mesmo título e imenso sucesso, que criou milhares de novas consumidoras entre as mulheres que passavam o livro de mão em mão entre as vizinhas suburbanas.

Na expectativa de tamanho interesse, os principais varejistas estão enchendo seus estoques com as vendas, chicotes, algemas e máscaras da indústria do prazer. Os fabricantes desenvolveram novos produtos e embalagens para se adaptar à temática e ao tom provocantes do filme, adaptado a partir da história de E. L. James a respeito de uma jovem ingênua que é apresentada aos jogos sexuais de sadomasoquismo.

Até a Target, uma das maiores redes de varejo dos EUA, começou a oferecer recentemente um “anel vibratório do amor”, que deve ser usado pelos homens, mas não no dedo.

“Esse deve ser o maior momento de todos os tempos para nossa indústria na cultura popular”, disse Claire Cavanah, cofundadora da Babeland, que produz artigos para adultos. “Estamos todos nos preparando para aquela que pode ser outra onda de brinquedos.”

A trilogia de alto teor sexual da autora – Cinquenta Tons de Cinza teve duas sequências – se tornou um fenômeno cultural, transformando-a numa lenda.

Ela vendeu os direitos de publicação à Vintage Books, divisão da Random House, e logo chegou a um número ainda maior de leitores que talvez nunca tivessem lido uma ficção erótica.

No ano passado, a Vintage Books anunciou ter vendido 100 milhões de exemplares da série. A autora, Erika Leonard James, britânica de meia idade, mãe e ex-produtora de TV, recebeu o crédito por apresentar o conceito do BDSM (sigla em inglês para amarração/disciplina, dominação/submissão, sadismo/masoquismo) ao vernacular corriqueiro.

Ela também deu início a uma verdadeira guerra de propostas em Hollywood. Os executivos disputaram uma oportunidade de orientar a autora e sua agente literária, Valerie Hoskins, a respeito da melhor maneira de contar a história de Anastasia Steele, uma estudante virgem de 21 anos que se torna a submissa parceira sexual de Christian Grey, um bem-sucedido empresário de 27 anos.

A Universal Studios e a Focus Features foram as vencedoras, concordando em pagar US$ 5 milhões pelos direitos de produção do filme.

O estúdio queria aproveitar os mesmos leitores – e outros – que fizeram as vendas de produtos adultos alcançarem a estratosfera depois da estreia de Cinquenta Tons de Cinza no formato eletrônico em 2011. Subitamente, os varejistas se viram com dificuldades para manter cheios os estoques de produtos antes considerados obscuros. Em 2013, romance resultou numa alta de 7,5% nas vendas de produtos ligados ao sexo, incluindo brinquedos, vídeos e livros, de acordo com relatório da firma de pesquisas IBISWorld.

Chicotes ganharam novas versões inspiradas no filme (Foto: NYT)

Chicotes ganharam novas versões inspiradas no filme (Foto: NYT)

“Fomos apanhados de surpresa quando o livro foi lançado”, disse Claire. “Mas estamos muito mais preparados para o filme.

Nas telas, a história será menos explícita que no livro. Neal Slateford, cofundador da Lovehoney, única empresa licenciada para oferecer produtos oficialmente ligados à série Cinquenta Tons de Cinza encontrados na Target e em outras lojas, não espera que alguns dos brinquedos usados nas cenas mais quentes do livro apareçam no filme.
Em entrevista, Slateford disse que sua marca não vai aparecer no filme, que talvez mostre alguns dos produtos mais comportados.

“Acho que o filme vai dar nova vida às vendas do livro, que pode aumentar as vendas de nossos artigos”, disse ele.
Especialistas no mercado de brinquedos adultos dizem que é difícil oferecer uma estimativa de vendas mais precisa ou determinar quais artigos teriam sido especificamente inspirados pelo livro. Mas eles apontam para algumas características.

Os romances incluem uma cena particularmente explícita que usa as esferas Ben Wa, também conhecidas como bolinhas Kegel, item que os varejistas oferecem há anos como produto para a saúde feminina, especialmente após o parto.

A venda das esferas teve alta imediata. A grande fabricante de produtos para o sexo, California Exotic Novelties, que costumavam vender entre 80 mil e 90 mil unidades do artigo por ano, registrou um milhão de unidades vendidas nos seis meses após o lançamento do livro, de acordo com a presidente e diretora executiva da empresa, Susan Colvin.
“Houve literalmente uma escassez mundial de bolinhas do prazer”, disse Slateford, cofundador da Livehoney. “Mas, sabendo que elas não aparecerão no filme, não espero que as vendas voltem a aumentar.”

A indústria dos brinquedos sexuais tem caráter privado, e não apenas do ponto de vista cultural. É difícil encontrar dados financeiros porque são poucas as empresas do ramo de capital aberto.
Alguns especialistas, como Sara Ramirez, editora assistente especializada em varejo na publicação XBIZ, voltada para a indústria, concordam que os americanos gastam anualmente entre US$ 1 bilhão e US$ 2 bilhões com produtos ligados ao prazer. Uma estimativa mais conservadora da IBISWorld definiu esse número como US$ 610 milhões em 2013, com projeção de crescimento para US$ 792 milhões já em 2018.

Como apenas a Lovehoney pode usar oficialmente a marca Cinquenta Tons de Cinza, outras foram obrigadas a usar a criatividade.

Lojas de artigos eróticos reforçam estoques à espera do filme '50 tons de cinza' (Foto: NYT)

Lojas de artigos eróticos reforçam estoques à espera do filme ’50 tons de cinza’ (Foto: NYT)

A Pipedream Products, que faz brinquedos sexuais e artigos do gênero, redesenhou algumas de suas embalagens em tons de preto e cinza, imitando o filme.

A California Exotic Novelties expandiu a linha de algemas “Scandal” quando o trailer do filme foi lançado, em julho.
E a Jimmyjane, conhecida pelos vibradores, está explorando pela primeira vez o segmento dos “artigos macios” com novos kits de fetichismo inspirados no filme, incluindo itens como vendas e amarras de seda.
“Eu diria que todo mundo entrou na moda em se tratando de criar brinquedos inspirados em Cinquenta Tons…”, disse Sara, da XBIZ.

A Babeland acrescentou 20 itens novos à espera da estreia do filme, marcada para 13 de fevereiro. O vibrador da Lovehoney licenciado com a marca Cinquenta Tons… está entre os mais vendidos. A California Exotic Novelties encomendou um volume de produtos 10 vezes superior ao normal para dar conta da demanda esperada nos seis meses seguintes ao lançamento do filme.

Os produtos da Lovehoney chegaram até às prateleiras da Target em dezembro, onde sua linha de velas, lubrificantes e vendas com a marca Cinquenta Tons… deixaram alguns pais frustrados ao serem exibidos bem ao lado das escovas de dente do Capitão América num dos endereços da rede.
Mas, embora desejem aproveitar a oportunidade de ganhar dinheiro com o filme, essas empresas não querem superestimar a demanda.

A Babeland ainda tem no estoque alguns itens de quando a loja se apressou para aumentar o fornecimento em 2012. A empresa se mostra mais conservadora dessa vez, e diz que os itens ligados ao filme representam aproximadamente 5% de todos os novos produtos.

“Pessoalmente, sou da opinião que haverá uma alta acentuada, mas a tendência vai perder força rapidamente”, disse Nick Orlandino, diretor executivo da Pipedream Products.

Há também preocupações culturais. O livro pode ter trazido um nicho de práticas eróticas para os holofotes, mas alguns críticos enxergam também um protagonista masculino que pressiona sua amante de uma forma que os entusiastas do sadomasoquismo dizem ser antiética em se tratando daquela que deveria ser uma relação consensual.
Alguns dizem que essas concepções equivocadas podem se estender aos brinquedos sexuais. E os fabricantes não querem consumidores com expectativas irreais, que podem se frustrar com os produtos oferecidos.
“Houve muito da descrição dos brinquedos e produtos no livro que a autora não descreveu de maneira fidedigna”, disse claire. “Usar as esferas Kegel não é muito divertido. Na verdade, é preciso esforço para acertar.”
/Tradução de Augusto Calil

Trailler do filme exibido no intervalo do Super Bowl:

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