Calote da Argentina e possíveis consequências para o Brasil
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Calote da Argentina e possíveis consequências para o Brasil

Apesar de o governo argentino afirmar que pretende negociar com os credores, calote ainda é uma possibilidade; neste caso, peso pode se desvalorizar

Yolanda Fordelone

18 de junho de 2014 | 13h42

Apesar de não estar envolvido diretamente na briga que corre na Justiça americana sobre o pagamento de títulos da Argentina, a crise no país dos hermanos, se aprofundada, pode respingar no Brasil, sobretudo na balança comercial. Nesta semana, a Corte dos EUA recusou o apelo da Argentina sobre a decisão que havia sido tomada em 2012 de que o país deveria pagar os US$ 1,3 bilhão que deve a alguns credores, os chamados fundos abutres. Tais investidores não aceitaram entrar no acordo de reestruturação da dívida promovido pela presidente Cristina Kirchner em 2010.

O grupo é liderado pelos fundos de hedge americanos Aurelius Capital Management e NML Capital Ltd, unidade do Elliott Management Corp, do bilionário Paul Singer. Caso todos os credores que não participaram das reestruturações recorram aos tribunais, a conta pode pode aumentar para US$ 18 bilhões, o que representa 64% da atual reserva internacional da Argentina (US$ 28 bilhões).  A Argentina já declarou ao longo da semana que não pretende dar calote e sim negociar com seus credores.

No passado, a imagem do Brasil já foi muito associada ao do país vizinho, mas atualmente passou-se a distinguir melhor as duas economias. Ainda assim, caso a crise se aprofunde e a Argentina declare calote, há algumas consequências para o Brasil:

Turismo. A invasão argentina vista no Maracanã deve demorar a ocorrer de novo, pois a moeda local, o peso argentino, irá se enfraquecer, tornando as viagens dos argentinos ao exterior mais caras. Por outro lado, viajar para lá pode se tornar ainda mais barato. Há três anos, o dólar equivalia a 4 pesos argentinos, cotação que atualmente já gira em 8 pesos. Isto porque estamos falando do câmbio oficial. Para viajar, argentinos têm recorrido ao mercado negro, já que há um limite de compra da moeda no mercado legal. Fora dos olhos de Cristina, o dólar varia entre 12 e 15 pesos. Com a desvalorização do peso quem ganha é o brasileiro que viaja para lá pois com a mesma quantidade de dólares conseguirá comprar mais moedas argentinas.

Vale ressaltar que os brasileiros são o principal público de turistas na Argentina. Em abril, somaram 30,1% dos passageiros que desembarcaram nos aeroportos de Ezeiza e de Jorge Newbery. Segundo o Ministério do Turismo argentino, em média, o turista brasileiro gasta US$ 148,2 por dia, o maior entre os visitantes que vão ao país.

Consumidor brasileiro. Em teoria, com a desvalorização do peso, os produtos da Argentina importados pelo Brasil tendem a ficar mais baratos. Assinalamos “em teoria” porque na prática todos sabem que nos últimos anos o comércio com o vizinho foi marcado por políticas protecionistas. Além disso, caso a crise se aprofunde diminuindo a produção, os preços pelo contrário poderiam entrar em tendência de alta. Os principais produtos importados da Argentina pelo Brasil são automóveis de passageiros (o país representa 37% das importações brasileiras) e partes e peças de veículos e tratores (10% vêm da Argentina).

Exportações. Se a indústria de automóveis no Brasil já não vai bem, a situação pode piorar. Do total de carros exportados, 88% têm como destino a Argentina. Se a renda e emprego dos consumidores de lá piorarem, os estoques do Brasil aumentam, o que pode significar redução de preços ao brasileiro.

Multinacionais. No ano passado, a JBS reduziu sua operação na Argentina de cinco para um frigorífico. A Deca resolveu fechar as portas no país após alguns anos de prejuízo. Depois da decisão da Justiça americana, a taxa de risco da Argentina disparou. Caso declare calote, sua imagem na praça piorará, o que irá dificultar a tomada de empréstimos. Sem crédito, o investimento cai, inclusive em setores como o de energia e petrolífero, importantes para o país. Empresas brasileiras que ainda permanecem na Argentina podem ter anos difíceis neste cenário.

Entenda a crise da dívida

No fim de 2001, Adolfo Rodríguez Saá, que ocupava a presidência apenas por uma semana, decretou o calote de US$ 81 bilhões da dívida pública, o maior calote da história mundial moderna. O presidente Néstor Kirchner reestruturou a dívida em 2005, mas 25% dos credores não aceitaram as novas condições dos títulos. Em 2010, a presidente Cristina Kirchner resolveu renegociar tais títulos, para tentar incluir os credores que ainda não haviam aceitado a troca de bônus, os “holdouts”. Ainda assim, 7% ficaram de fora e entraram na Justiça para tentar reaver seus investimentos. Cristina estava pagando os bônus daqueles que haviam aceitado a reestruturação, mas segundo a lei americana nenhum credor pode ser priorizado em prol de outro. Ou seja, todos devem ser pagos paralelamente.


Foto: Enrique Marcarian/Reuters

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