Carne bovina afeta mais o clima que a branca

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Carne bovina afeta mais o clima que a branca

Se o objetivo é desacelerar a mudança climática, a carne certa pode ser a carne branca, de acordo com dois estudos que calculam o efeito da indústria pecuária no clima

Cley Scholz

25 de julho de 2014 | 12h07

Estudos apontam efeito da carne vermelha sobre o clima

Geoffrey Mohan, Los Angeles Times

A criação de gado nos Estados Unidos exige 28 vezes mais terra e 11 vezes mais água de irrigação, jogando cinco vezes mais gases do efeito estufa na atmosfera terrestre do que a produção de uma quantidade equivalente de calorias como derivados do leite, aves, suínos ou ovos, de acordo com estudo publicado na segunda feira na edição online da revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

Além disso, entre 1961 e 2010, a emissão global de gases do efeito estufa resultante da criação de animais aumentou 51%, sendo que a maior parte deste aumento ocorreu nos países em desenvolvimento que estão adotando rapidamente o modelo americano de consumo de carne, de acordo com outro estudo publicado na segunda feira pela revista Climatic Change.

“Para o público, a resposta óbvia parece ser: sempre que possível, substituir a carne bovina por outra coisa”, disse Gidon Eshel, geofísico da Bard College e principal autor do estudo da Proceedings of the National Academy of Sciences.

“Se for absolutamente necessário se alimentar de artigos de origem animal, tudo bem. Não há problema nos ovos com bacon e outros tipos de comida. Basta optar por algo diferente da carne bovina, que resulta em emissões muito mais intensas que as demais variedades.”

Não surpreende que a indústria da pecuária bovina tenha criticado os resultados. “O estudo da PNAS representa uma grosseira simplificação dos complexos sistemas que compõem a cadeia de valor da carne bovina, algo que os próprios autores admitem”, disse Kim Stackhouse-Lawson, diretora de sustentabilidade da Associação Nacional dos Criadores de Gado, em pronunciamento.

“O fato é que a indústria americana da carne bovina produz carne com emissões de gases estufa mais baixas do que qualquer outro país.”

De fato, as emissões provenientes de países desenvolvidos, como os EUA, atingiram o ápice em 1970, recuando 23% desde então, de acordo com o estudo da Climatic Change.

Mas, nos países em desenvolvimento, as emissões mais do que dobraram, principalmente em decorrência do consumo doméstico, disse Ken Caldeira, ecologista da Carnegie Institution e coautor do estudo, que calculou estimativas para a produção de metano e óxido nitroso provenientes de 11 populações de animais de corte em 237 países.

O gado de corte foi responsável por mais da metade das emissões, seguido pelo gado leiteiro (17%), ovelhas (9%), búfalos (7%), suínos (5%) e cabras (4%), de acordo com o estudo da Climatic Change. Os maiores aumentos foram observados no Congo, República Centro-Africana e Omã, de acordo com o estudo.

“Uma parte cada vez maior dos países em desenvolvimento está adotando os maus hábitos dos países desenvolvidos”, disse Caldeira. De acordo com ele, o estudo corresponde a uma ampla “regra geral” usando fatores de emissões brutas desenvolvidos pelo Painel Intergovernamental para a Mudança Climática para calcular estimativas. Mas suas conclusões seguem aquelas de vários outros estudos, de acordo com o relatório.

O estudo da Proceedings of the National Academy of Sciences buscou um olhar mais estreito e aprofundado para a cadeia da indústria americana de alimentos, levando em consideração um maior número de fatores, incluindo os efeitos da pastagem, do cultivo de alimentos para o gado e do uso da água de irrigação.

Mas o estudo não tem a pretensão de levar em consideração cada um dos fatores envolvidos na produção da carne bovina. Numeroso fatores que apresentam ampla variação trazem um grau de incerteza às medidas calculadas, algo que os próprios autores reconhecem.

Entre tais fatores está a quantidade de alimento necessária para cada animal por quilo de peso ganho, e a fração de pasto necessária para a dieta do gado de corte e do gado leiteiro, que diferem de acordo com a geografia e as práticas tecnológicas.

Eshel disse que o estudo deve orientar não apenas a escolha dos consumidores, mas também as políticas do governo, como a aplicação de taxas de pastoreio em terras públicas.

“Tudo se resume à mesma pergunta que está por trás de todas as questões ambientais, ou seja, a tragédia dos bens comuns: enquanto as coisas que pertencem a todos nós forem gratuitas, não vamos aprender a usá-las com parcimônia e critério”, disse Eshel. “Vamos usá-las de maneira pouco eficiente, com muito desperdício, como temos feito.” Tradução de Augusto Calil

 

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