Barão brasileiro das laranjas entra para a lista de bilionários
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Barão brasileiro das laranjas entra para a lista de bilionários

Avaliada em US$ 2,6 bilhões pelo Índice de Bilionários da Bloomberg, fortuna de José Luis Cutrale o torna a 26ª pessoa mais rica do Brasil

Economia & Negócios

02 Fevereiro 2015 | 17h45

José Luis Cutrale: na lista das maiores fortunas (Bloomberg News)

José Luis Cutrale: na lista das maiores fortunas (Bloomberg News)

Blake Schmidt e Juan Pablo Spinetto

BLOOMBERG

O cheiro da fábrica de suco de laranja de José Luis Cutrale permeia o ar na cidade brasileira de Araraquara.

Para os visitantes que fazem a viagem de 270 quilômetros a partir da São Paulo rumo ao noroeste, o aroma é um alívio bem-vindo, ajudando a esquecer o fedor que costuma emanar do Rio Tietê, tomado pelo esgoto.

Para os moradores da cidade, a instalação da Sucocitrico Cutrale Ltda os faz lembrar de casa. “Nem gosto do sabor das laranjas, mas adoro o cheiro da Cutrale”, disse Andreia Savia, assessora de um vereador de Araraquara. Ao voltar à cidade depois de ter passado um ano longe, Andreia foi às lágrimas quando sentiu novamente o odor cítrico do produto da empresa.

A Sucocitrico Cutrale cresceu sob os auspícios do diretor executivo Cutrale, de acordo com documentos apresentados envolvendo suas operações internacionais. Controlado de perto, o negócio desafiou a demanda global minguante por suco de laranja, dez anos de uma praga que devastou as laranjeiras em São Paulo, e alegações segundo as quais o diretor seria o líder de um cartel de exportadores de laranja.

Aos 68 anos, Cutrale comanda um império das frutas que teve início há duas gerações, com os pomares de laranjas de sua família, e se converteu no principal fornecedor da Minute Maid. Ele é também um acionista da distribuidora da Coca-Cola no Brasil, Spaal, e investiu em imóveis comerciais, empresas de negociação de commodities e numa operadora de aeronaves com sede nos Estados Unidos.

Aposta nas bananas. Avaliada em US$ 2,6 bilhões pelo Índice de Bilionários da Bloomberg, a fortuna dele o torna a 26ª pessoa mais rica do Brasil. Ele não aparece nos rankings globais de riqueza e não quis ser entrevistado para essa matéria.

As vendas aumentaram para a Sucocitrico Cutrale num momento em que a produção de laranjas na Flórida chega ao ponto mais baixo em 25 anos. Nos 40 principais mercados de suco de laranja, o consumo teve queda de 11% nos dez anos mais recentes, com a demanda nos EUA caindo 27%, de acordo com dados da associação brasileira de exportadores de sucos cítricos.

Para diversificar suas atividades, Cutrale começou a cultivar soja para exportação à Ásia, e juntou-se ao bilionário banqueiro brasileiro Joseph Safra na compra da Chiquita Brands International Inc., de Charlotte, Carolina do Norte, por US$ 1,3 bilhão, concluída em janeiro. Ao fazer a oferta pela Chiquita, Cutrale revelou que o império de sua família controla mais de 33% da indústria global de suco de laranja, avaliada em U$ 5 bilhões.

Estratégia abençoada. Os abacaxis, chips de frutas e produtos para salada da Chiquita diminuíram a exposição da Cutrale às laranjas quando a água com sabor e os cafés de dose única invadiram a demanda por suco de laranja, disse Brett Hundley, analista da BB&T Capital Markets, que ofereceu serviços de investimento à Chiquita.

“Quando bem executada, a diversificação é uma estratégia abençoada”, disse por e-mail Marcos Fava Neves, professor de estratégia da faculdade de economia da Universidade de São Paulo. “O mercado mundial de suco de laranja está em declínio. Assim, manter a liderança no segmento do suco e investir na soja e em outras frutas é um bom caminho se a Cutrale quiser continuar a crescer.”

A proposta de compra feita pela Cutrale chegou quando um Tribunal de Apelações de Atlanta encerrou em julho um processo movido por milhares de colombianos que acusam a Chiquita de ter financiado os paramilitares no país. Os querelantes dizem que vão solicitar a revisão do processo, chegando à Suprema Corte se necessário. A empresa se declarou culpada de acusações criminais ligadas ao caso em Atlanta em 2007 e pagou uma multa de US$ 25 milhões. Cutrale e Chiquita não quiseram comentar o episódio.

Honduras. A Cutrale vai contribuir com o equivalente em dinheiro a 50% de US$ 1 bilhão ou da soma do custo das ações e opções de ações, direitos às ações, notas privilegiadas com vencimento em 2016 e outras taxas resultantes da compra da Chiquita, de acordo com documentos apresentados.

As autoridades antitruste da Ucrânia aprovaram a compra, e a Cutrale e Safra disseram ter notificado as autoridades em Honduras e “chegado a acordos” para tratar do exercício do controle sobre as operações da Chiquita no Equador, aguardando a aprovação das autoridades do país, de acordo com comunicado do dia 2 de janeiro.

A Sucocitrico Cutrale não publica seus resultados financeiros. De acordo com relatórios anuais divulgados pela firma britânica de holding Burlingtown LLP, com sede em Londres, supervisora das operações da Cutrale fora do Brasil, a renda anual dobrou para US$ 1,3 bilhão entre 2007 e 2013.

A firma de holding possui 10 subsidiárias espalhadas entre Estados Unidos, Grã-Bretanha, Holanda e Portugal, com participação na Grove2Glass Trading GmbH (de Zurique), Nippon Juice Terminal KK (Japão) e General Avileansing Inc. (Orlando, EUA), dona dos jatos da empresa. Seus diretores são a mulher de Cutrale, Rosana, e os filhos José Henrique, José Luis Júnior e Graziela.

Minute Maid. Os negócios da família no segmentos das frutas começaram com o avô do bilionário, Giuseppe Cutrale, imigrante italiano que vendia laranjas no mercado municipal de São Paulo, de acordo com Eliseu Nonino, amigo da família e ex-diretor da empresa.

Foi ele que comprou um pomar de laranjas e começou a exportar a fruta para a Europa e Oriente Médio em 1956. O filho dele, José Cutrale Jr., comprou uma fábrica de suco em 1967 e mudou o nome da empresa para Sucocitrico Cutrale. Adquiriu cinco complexos industriais no estado de São Paulo e duas instalações que pertenciam à Minute Maid na Flórida.

“José era um empreendedor de visão grandiosa”, disse Nonino em entrevista pelo telefone a partir de Araraquara.

Alcance global. A empresa que José Luis Cutrale supervisiona atualmente não se parece em nada com o negócio de laranjas do avô. Os funcionários usam imagens de satélite dos bosques brasileiros para garantir que os frutos sejam colhidos no momento certo. Um duto envia o suco de silos de armazenagem em Auburndale, Flórida, para uma instalação de engarrafamento da Coca-Cola. Técnicos de mistura controlam os níveis de acidez ao seguir algoritmos conhecidos internamento como “Livro Negro”.

Os executivos da Cutrale viajam a Araraquara usando um heliporto no alto de um prédio ao lado da fábrica, que produz extrato concentrado de laranjas dia e noite. Moram em lares construídos pela empresa dentro de uma clareira em forma de coração protegida por seguranças armados. A piscina e a quadra de tênis no complexo são cercadas por bosques de laranjeiras.

O alcance da empresa envolve a cadeia de suprimentos global, incluindo mais de 160 mil hectare de bosques brasileiros e uma frota de navios que transportam suas commodities para pelo menos três continentes. Caminhões com o logotipo de uma fatia de laranja pingando suco são comuns nas estradas de São Paulo, transportando suco a Santos, o maior porto da América Latina, onde a empresa aluga um terminal de uso privativo.

Problemas na Flórida. Para atender à demanda na Ásia, a Cutrale investiu em uma empresa de comercialização de commodities e plantações de soja perto da Amazônia brasileira em 2012. As exportações de soja saídas de Araraquara aumentaram à razão de quatro vezes em 2013, chegando a US$ 777 milhões, embora tenham parado de aumentar em 2014, de acordo com o ministério brasileiro do comércio.

Os dados mostram que as exportações da Cutrale aumentaram 62% ante o ano anterior, chegando a US$ 1,7 bilhão em 2013, e acumularam pelo menos US$ 1,4 bilhão em 2014. Coca-Cola e Cutrale compram cerca de 30% de todas as laranjas cultivadas na Flórida.

O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos estima que a Flórida tenha produzido 125 milhões de caixas de laranjas na colheita do ano 2013-2014, aproximadamente metade do registrado no auge no final dos anos 1990, quando a produção foi de 244 milhões de caixas. No Brasil, a Conab disse que a produção nos estados de São Paulo e Minas Gerais permaneceu estável nos 15 anos mais recentes, na casa das 340 milhões de caixas.

O Brasil estava melhor preparado do que a Flórida para  o greening, doença bacterial transmitida por insetos que foi descoberta nos bosques do estado em 2005, porque sistemas de combate já tinham sido instalados após a epidemia de uma bactéria conhecida por causar o cancro cítrico, de acordo com Juliano Ayres, diretor da Fundecitrus de Araraquara, financiada pela Cutrale, que divulga alertas conforme as pragas se espalham

Investigações e acusações. A ascensão da Cutrale no ramo das laranjas atraiu escrutínio. Nos anos 1980, a empresa estava entre as produtoras brasileiras acusadas pelo Departamento de Comércio dos Estados Unidos de vender suco no mercado americano a preços considerados demasiadamente baixos pelos agricultores da Flórida, embora tenha conseguido remover as medidas antidumping americanas num caso da Organização Mundial do Comércio encerrado em 2013.

A associação brasileira de cultivadores de frutas cítricas acusou a Sucocitrico Cutrale, Citrosuco e uma unidade da Louis Dreyfus de formação de cartel para manter artificialmente baixos os preços das laranjas compradas por elas desde os anos 1990. As autoridades brasileiras ainda não chegaram a uma decisão a respeito do caso. As empresas negam as acusações há décadas, e não quiseram comentar o episódio.

“A Cutrale manipula o mercado e cria uma barreira de entrada para a concorrência”, disse Flavio Viegas, diretor da associação, que foi fornecedor da Cutrale por mais de quatro anos a partir de 2004.

Contribuições positivas. Numa audiência em 2010, o fabricante de suco Dino Tofini, morto em 2013, disse aos legisladores do estado de São Paulo que foi obrigado a participar de reuniões semanais orquestradas pela Cutrale para definir os preços. A polícia apreendeu 30 caixas de documentos e computadores de exportadores de laranja na Operação Fanta, em 2006.

Os artigos apreendidos, que incluíam uma submetralhadora Uzi encontrada no escritório da diretoria da Cutrale, de acordo com o jornal Folha de São Paulo, ficou inacessível por quatro anos antes de os investigadores receberem autorização para usar o material, pois os exportadores disseram que as provas foram obtidas ilegalmente. No Brasil, empresas envolvidas na formação de cartéis podem ser multadas em até 20% de suas vendas anuais.

A Sucocitrico Cutrale nega envolvimento em práticas ilegais e disse em e-mail que está cooperando com os investigadores. A empresa disse ter criado 20 mil empregos em todo o mundo e afirmou trazer “contribuições positivas” às suas comunidades, citando doações de equipamento robótico a um hospital local e a oferta de doses diárias de suco de laranja a 2 mil alunos da rede escolar.

Práticas de trabalho. A Cutrale também foi investigada por causa de suas práticas de trabalho. Promotores do estado de São Paulo dizem que investigaram as práticas de trabalho da empresa 286 vezes nos dez anos mais recentes, sendo que a Citrosuco foi investigada 50 vezes e a Louis Dreyfus Commodities, 71 vezes no mesmo período. Alguns casos resultaram em processos, e outros em acordos.

Em março de 2014 um tribunal ordenou que a Cutrale e outras duas empresas pagassem R$ 113 milhões e parassem de contratar irregularmente trabalhadores terceirizados para a colheita de laranjas. A Cutrale negou as irregularidades e não quis comentar os casos em aberto.

Apesar das acusações, os políticos disputam o apoio da Cutrale. O bilionário doou 21 milhões de reais nas eleições do ano passado, sendo R$ 6 milhões para a campanha de reeleição da presidente Dilma Rousseff e R$ 9,8 milhões a membros do partido da oposição, que governa o estado de São Paulo.

No documentário Entreatos, dirigido pelo também bilionário João Moreira Salles e mostrando a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, o futuro presidente ordena a um assessor que redija uma declaração de apoio, pedindo a Cutrale que a leia na TV.

“Ontem jantei com Cutrale”, diz Lula a um aliado de campanha no filme. “Disse a ele, ‘somos amigos, é a terceira vez que nos encontramos. Quando vai declarar seu apoio a mim? Quero que diga que é o maior exportador do país’.”/Tradução de Augusto Calil

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