Desesperada jogada russa para salvar o rublo pode sacrificar a sua economia
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Desesperada jogada russa para salvar o rublo pode sacrificar a sua economia

País está em um beco econômico sem saída: a economia precisa de juros mais baixos para crescer, mas as empresas precisam de juros mais altos para valorizar o rublo e diminuir o peso de sua dívida em dólares

Economia & Negócios

16 Dezembro 2014 | 17h21

Russos em casa de câmbio, preocupadas em trocar rublos diante da desvalorização acelerada (Foto: AP)

Russos em casa de câmbio, preocupados em trocar rublos diante da desvalorização acelerada (Foto: AP)

Matt O’Brien
The Washington Post

Algo curioso ocorreu enquanto Vladimir Putin dava voltas estratégicas em torno do Ocidente: a economia russa implodiu. O banco central russo aumentou os juros de 10,5% para 17% numa tentativa de deter a queda do rublo, que teve desvalorização de 50% ante o dólar este ano.

Trata-se de uma jogada desesperada para tentar salvar a moeda russa que traz como custo o sacrifício da economia do país. Assim, mesmo que o plano funcione, é provável que as coisas piorem bastante.

O que temos é um típico caso de crise de mercado emergente. Não é exagerar na simplificação dizer que a Rússia não possui exatamente uma economia, e sim um empreendimento de produção de petróleo que subsidia todo o resto. É por isso que a combinação de aumento na oferta por parte dos Estados Unidos e redução na demanda por parte da Europa, China e Japão atingiu a Rússia com força.

O preço mais baixo do petróleo significa que as empresas russas têm menos dólares para transformar em rublos, o que equivale a dizer que é menor a demanda por rublos – o que faz seu preço cair. É claro que as sanções impostas à Rússia por causa da incursão na Ucrânia não ajudaram, reduzindo ainda mais a disponibilidade de dólares para os russos.

Somados todos esses fatores, temos uma desvalorização do rublo ante o dólar de cerca de 22% no mês passado, com uma queda de 11% apenas na segunda feira. Enquanto investimento, o desempenho do rublo está abaixo até da hryvnia ucraniana e do petróleo Brent.

O único “ativo” que apresentou queda pior do que o tombo de 50% do rublo foi o bitcoin, uma moeda falsa apontada pelos especialistas em tecnologias como o futuro que não desejamos.

E a situação só vai piorar. A Rússia se vê presa em um beco econômico sem saída. A economia do país precisa de juros mais baixos para impulsionar o crescimento, mas suas empresas precisam de juros mais altos para valorizar o rublo e diminuir o peso de sua dívida em dólares. Assim, eles estão em maus lençóis, independentemente do rumo seguido.

Se tivessem mantido os juros baixos, o rublo continuaria a se desintegrar, a inflação dispararia e as grandes corporações se tornariam inadimplentes, declarando moratória – mas o crescimento não teria caído tanto.

Em vez disso, a Rússia optou pela estratégia de choque e pavor, aumentando os juros de 10,5% para 17% numa só tacada. Juros tão altos jogarão a já moribunda economia russa numa profunda recessão – o banco central já estima que a economia terá contração de 4,5% a 4,7% se o barril de petróleo permanecer na casa dos US$ 60 – mas talvez isso consiga deter a queda livre do rublo. Veremos. Se isso não bastar, a Rússia terá de recorrer ao controle de capitais para manter o valor do rublo e, possivelmente, solicitar um resgate ao Fundo Monetário Internacional.

A Rússia de Putin, como a União Soviética antes dela, é tão forte quanto o preço do petróleo lhe permite ser. Nos anos 1970 cometemos o erro de pensar que a invasão soviética do Afeganistão significava que estávamos perdendo a Guerra Fria, quando a realidade é que eles tinham encontrado seu próprio Vietnã e só conseguiam alimentar seu povo enquanto o preço do petróleo estivesse nas alturas.

Mas a miragem econômica da URSS se tornou aparente para todos – principalmente para os próprios cidadãos soviéticos, que se viram diante de prateleiras vazias nos supermercados – depois que o preço do petróleo despencou nos anos 80. Essa história se repete agora, mas sem o marxismo-leninismo.

Putin pôde arcar com o custo da invasão da Geórgia e da Ucrânia quando o preço do petróleo estava confortavelmente na casa dos três dígitos, mas não quando cai para a metade disso. Nesse patamar, a Rússia não pode arcar com o custo de nada.

Talvez Putin esteja jogando xadrez enquanto nós jogamos damas, mas ele só pode fazê-lo se emprestarmos a ele o dinheiro para as peças./Tradução de Augusto Calil

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