Minas de ouro ameaçam paraísos turísticos na Grécia
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Minas de ouro ameaçam paraísos turísticos na Grécia

Projeto bilionário na península de Halkidiki prevê uma mina a céu aberto e três barragens em importantes reservas de água para bacias de decantação que armazenam metais pesados perigosos

Economia & Negócios

15 Dezembro 2014 | 09h44

Uma das praias de Halkidiki: exploração de ouro ameaça turismo (Foto: divulgação)

Uma das praias de Halkidiki: exploração de ouro ameaça turismo (Foto: divulgação)

Nikolia Apostolou/REUTERS

ATENAS – As minas de Cassandra, na península grega de Halkidiki, permaneceram em silêncio por mais de uma década, fechadas por decisão de um tribunal em 2003 por causa de riscos ambientais.

Mas essas minas, que constituem um dos mais ricos campos de ouro e outros metais importantes foram reabertas e a perspectiva de uma nova expansão tem levado os moradores da localidade preocupados com o turismo, a pesca e o trabalho agrícola, a se opor àqueles que anseiam por um emprego diante da severa crise econômica que se abateu sobre o país.

Alguns moradores, levados pela taxa de emprego que chegou a 27%, querem o emprego. Outros afirmam que não vão se candidatar a uma vaga.

“Planejava voltar para meu país natal e trabalhar nas minas”, disse Yannis Verginis, ineralogista. Ele trabalhou na indústria pesada na Alemanha até 2000, quando mudou-se com a família para Halkidiki pensando em ficar mais perto da natureza.

“Mas quando cheguei e vi a situação, não me candidatei. Eu vi que teria de abandonar meus sonhos e os planos que fiz para minha vida, pois do contrário isso significará a destruição da região”.

Primeiro o trabalho e depois a saúde? A empresa canadense Eldorado Gold assumiu os direitos de mineração em 2012. A companhia já deu início às operações do que será um investimento de um bilhão de dólares em mineração especialmente de ouro, mas também prata, chumbo, zinco e cobre. Segundo a empresa a mina transformará a Grécia em uma importante fornecedora de ouro e irá propiciar as vagas de emprego tão necessárias.

“Quando nossas minas em Halkidiki e Trácia atingirem a plena produção, a Grécia se tornará uma das principais produtora de ouro da Europa”, disse Eduardo Moura, vice-presidente da Eldorado Gold e gerente geral para a Grécia. Segundo ele, a mão de obra de 1.900 trabalhadores deverá aumentar para cinco mil “empregos diretos e indiretos”, na Grécia, como resultado do investimento.

Mas moradores, cientistas e organizações da sociedade civil estão preocupados de que este não seja um investimento sustentável. “A Comissão de Meio Ambiente da Universidade de Aristóteles investigou e concluiu que a expansão “mudará radicalmente o caráter de uma região com um habitat natural rico e único, uma paisagem cultural e histórica importante, com sítios arqueológicos e grande espaço para o desenvolvimento dos setores agrícola e de turismo.

Uma das praias de Halkidiki: exploração de ouro ameaça turismo (Foto: divulgação)

Uma das praias de Halkidiki: exploração de ouro ameaça turismo (Foto: divulgação)

Riscos. A Eldorado Gold tem o direito de mineração sobre uma área de 316 quilômetros quadrados, cerca de um décimo da região de Halkidiki, conhecida região de turismo. De acordo com estudo da Comissão de Meio Ambiente, a expansão inclui a criação de uma mina a céu aberto e uma usina de processamento.

Ainda de acordo com o projeto serão construídas três barragens em importantes reservas de água para a criação de bacias de decantação que armazenam metais pesados perigosos.

Além disso, serão desmatados 178 hectares de uma floresta que possui espécies de fauna e flora raras e em risco de extinção. Especialistas da Comissão também alertam que a mina vai poluir o ar e prejudicar as reservas de água da região.

“O problema é a expansão das operações – o meio ambiente não aguentará”, afirmou Kostas Katsifarakis, professor de recursos hídricos na Universidade de Aristóteles em Tessalonica e presidente da Comissão de Meio Ambiente da universidade.

Segundo o professor, na área onde 40.000 pessoas obtêm sua água a drenagem irá baixar o aquífero de 500 metros acima do mar para 100 metros, ao passo que as inundações serão mais frequentes por causa do desmatamento. Mesmo alguns moradores que já trabalharam nas minas não querem retornar ao trabalho agora.

“Eu mesmo trabalhei nas minas quando adolescente e durante 15 anos”, disse Kostas. “Mas ganhar 1.500 euros por mês e não ter uma casa para meus filhos, não posso aceitar isto. Os que trabalham ali agora dizem que ‘ primeiro o trabalho e depois nossa saúde’”.

Mas para muita gente as operações de mineração podem ser realizadas de maneira segura. “O que costumamos dizer é que em todos os países bem governados todas as atividades podem coexistir, desde que haja regras”, afirmou Christos Pachtas, ex-prefeito e vice-ministro grego, a uma TV local. Pachtas assinou o acordo que outorgou os direitos de mineração com a Hellas Gold para desenvolver o projeto.

Ele listou alguns exemplos: “Regras para as minas, para o setor primário para proteger o meio ambiente contra pesticidas, regras para a exploração do turismo, tratamento da água usada na operação e assim por diante”.

Problemas de controle e benefícios Executivos da companhia afirmam que o impacto sobre o meio ambiente será gerenciado adequadamente. E observam que a avaliação em termos de meio ambiente foi aprovada pelo governo.

Mas para os oponentes a maneira como governo concedeu os direitos de mineração é suspeita. O Estado vendeu os direitos para as minas Cassandra, juntamente com os ativos fixos que a empresa anterior havia deixado, por 11 milhões de euros (US$ 13,7 milhões) para a empresa grega Hellas Gold em 2003. Alguns anos depois a European Goldfields adquiriu a Hellas Gold e vendeu os direitos das minas de Cassandra por mais de US$ 2,5 bilhões para a Eldorado Gold.

Penínsulas gregas: paraíso turístico ameaçado

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Transgressão. Em 2009 a Comissão Europeia concluiu que os direitos e os ativos foram vendidos para a European Goldfields por um preço abaixo do valor de mercado, sem uma avaliação independente e um processo de licitação aberto, como determinam as regras estabelecidas pela União Europeia e a Grécia.

A transgressão foi levada à Corte Europeia de Justiça que determinou que a Eldorado Gold deve à Grécia 15,3 milhões de euros (US$ 19 milhões) de impostos sobre transações financeiras não pagos. Esses impostos ainda devem ser pagos e o atual governo diz que não deseja o dinheiro. Agora a comissão promete acionar o governo grego e a empresa na Corte Europeia de Justiça.

Alguns também acusam a Eldorado Gold de não pagar o valor necessário de impostos. De acordo com levantamento da organização sem fins lucrativos holandesa SOMO, que investiga operações de evasão fiscal, a Eldorado Gold usou um programa de evasão fiscal para se evadir de quase um milhão de euros (US$ 1,25 milhão) de impostos entre 2009 e 2013.

Mas Eduardo Moura afirma que a Eldorado Gold obedece a todas as leis sobre meio ambiente ou fiscais, tanto da UE como da Grécia. E acrescenta que desde 2012 a companhia pagou cerca de 47 milhões de euros (US$ 59 milhões) em impostos sobre a folha de pagamento para a Grécia. “Os fatos não apoiam as afirmações de que o Estado grego não vem se beneficiando de nossos investimentos” afirmou.

Entretanto muitos gregos estão irritados com o governo por causa da sua atitude com relação à operação. “O primeiro ministro disse que este investimento deve continuar e implicará sacrifícios”, disse Katsifarakis. “Mas sacrificar todas essas pessoas aqui? Ou sacrificar todos os outros recursos econômicos numa região que é muito rica?”. /Tradução de Terezinha Martino