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Entenda causas e consequências de possível calote dos EUA

Não é provável, mas é possível: EUA podem pular no abismo fiscal neste dia 17

Gustavo Santos Ferreira

15 de outubro de 2013 | 18h35

Não é provável, mas é possível. Se o Congresso dos Estados Unidos não entrar num acordo até a meia-noite desta quarta-feira, o dia 17 de outubro de 2013 ficará marcado na história como aquele em que o então maior império econômico de todos os tempos pulou no abismo fiscal, dando calote sem precedentes no mercado financeiro.

Mas, antes do choro e do ranger de dentes, vamos a uma breve explicação:

Todo governo faz dívidas para se financiar – todo, sem exceção. E essa dívida é contraída com a venda dos chamados “títulos de dívida”. É com venda desses papéis que são bancadas, por exemplo, aposentadorias. Na prática, funciona como um empréstimo. Um país toma dinheiro emprestado e o emprestador consegue seu dinheiro de volta com os juros incidentes após determinado período – há títulos de 2, 5 e 10 anos nos Estados Unidos.

No caso americano, é o Congresso quem decide quanto de empréstimo pode ser tomado pelo governo. Ou seja, são deputados e senadores republicanos e democratas, em eterno pé de guerra, quem dão a palavra final sobre quanto de dívida o governo pode fazer. Esse limite está hoje em US$ 16,7 trilhões.

Na próxima quinta, esse teto será atingido. A partir de então, caso não haja acerto entre republicanos e democratas, o governo não poderá mais tomar “empréstimos”. Faltará dinheiro tanto para tocar o barco interno do país como para pagar seus credores externos, detentores dos títulos de dívida.

Bem, como nunca aconteceu um calote dessa magnitude, não dá para saber ao certo a gravidade desse hipotético cenário apocalíptico. Mas o professor Antonio Manfredini, da Fundação Getulio Vargas, especialista em economia internacional, vislumbra três cenários possíveis:

1) Falta de liquidez no sistema financeiro mundial. Ninguém nunca duvidou da capacidade dos Estados Unidos de pagar os retornos dos seus títulos de dívida. Por isso, uma das formas de investimento mais seguras do mundo, de retorno certo, sempre foram esses títulos. Assim, esses papéis são utilizados em transações financeiras entre bancos do mundo todo, como se fossem dinheiro. Transações avaliadas em US$ 500 bilhões são feitas com os ativos todos os dias. Agora, se os Estados Unidos declaram o calote, é como se esse dinheiro fosse para o ralo, sumisse.

E o medo já é real. O Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos Estados Unidos) disse nesta terça-feira, 15, que bancos credores dos Estados Unidos venderam nas últimas duas semanas ao menos metade dos títulos americanos prestes a vencer que detinham.

2) Hierarquizar pagamentos. Sem poder fazer mais dívidas para se financiar, os Estados Unidos ainda terão suas receitas em impostos. Mas esse montante não basta para pagar os credores internacionais e manter seus gastos internos. É a boa e velha faca de dois gumes apontada para a cara do governo dos Estados Unidos.

Digamos que, num primeiro cenário, a escolha seja pelos os credores. Ótimo. Um colapso mundial de falta de liquidez será evitado por algum tempo. Mas o efeito eleitoral seria catastrófico para o presidente Barack Obama – e pegaria de surpresa os cerca de 40% de americanos que, segundo institutos de pesquisa, acreditam que o calote da dívida não seria tão apocalíptico assim. São 2 milhões os funcionários públicos que dependem do governo – e que já estão sem receber desde a paralisação do Orçamento. E são 1,4 milhão de militares. Sem falar de milhões e milhões de aposentados e pensionistas. É um quadro impensável.

Num segundo cenário, podemos imaginar que o governo opte por não pagar os credores. O problema não é apenas a falta de liquidez que poderia vir. O dinheiro das receitas não bastaria. Mas, ora, os Estados Unidos são o que são por, sobretudo, terem o poder de imprimir a moeda mais forte do mundo, o dólar. Mas o Fed não pode imprimir dólares a torto e a direito para pagar credores. Nesta hipótese maluca, os Estados Unidos, aí sim, estariam de vez afundados para sempre numa crise de credibilidade dificilmente contornável.

3) Recessão sem precedentes. O Estados Unidos podem resolver arcar com todos os seus compromissos, internos ou externos. Mas, para isso, precisariam não só frear seu crescimento, mas diminuir a riqueza gerada por seus bens e serviços. Ou seja, teriam de fazer sério plano de austeridade, nos moldes dos feitos por países como a Grécia. Fazendo isso, calcula-se que o PIB americano passaria, de cara, por um corte de 4% ao ano. O efeito bola de neve de uma ruptura como essa faria das crises de 1929 e de 2008 – essa última parece ainda durar – meras tempestades de verão.

Enfim, não é nada não é nada, não será nada disso mesmo se alguma decisão sair das cabeças de democratas e republicanos em breve. Mas, pelo histórico recente, mesmo que seja afastado o perigo, não será para sempre. Mesmo que chegue uma solução, o medo do calote americano ainda deve voltar a assombrar os mercados internacionais.

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