Três grandes erros na análise de Piketty sobre a desigualdade
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Três grandes erros na análise de Piketty sobre a desigualdade

São os senhorios que estão açambarcando a riqueza da economia, e não os grandes empresários, afirma blogueiro em critica ao economista Thomas Piketty

Economia & Negócios

30 de março de 2015 | 17h04

Noah Smith

BLOOMBERG NEWS

Matt Rognlie é um sujeito divertido e muito astuto. Estudante de doutorado em economia do Massachusetts Institute of Technology, Rognlie tinha um blog, mas desistiu para poder escrever longos comentários e e-mails a blogueiros (como eu). Como prova de que os blogs podem ser parte importante do processo de pesquisa, Rognlie transformou um comentário de blog numa das mais incisivas críticas a Thomas Piketty já produzidas.

Para quem não se lembra, Piketty é o economista francês que se tornou celebridade graças a seu trabalho envolvendo a desigualdade. Em seu livro de grande sucesso, ‘O Capital no século 21’, ele afirma que o ritmo de crescimento da riqueza dos donos do capital é quase sempre mais acelerado que o crescimento econômico. Se for verdade, isso significaria que os ricos ficam mais ricos, e a desigualdade econômica nunca deixa de aumentar.

Piketty: erros apontados por blogueiro (Reuters)

Piketty: erros apontados por blogueiro (Reuters)

Mas o jovem Rognlie faz três observações que colocam em dúvida a grande tese de Piketty.

A primeira é que Piketty não leva em consideração a depreciação. Conforme os capitalistas acumulam cada vez mais máquinas, edifícios e outros ativos, seu custo de manutenção do capital físico é cada vez maior. Caminhões precisam de pneus novos. Escritórios precisam de reforma. Rognlie aponta que esse custo de manutenção tem aumentado com o tempo. Hoje em dia, os bens capitais são com frequência na forma de computadores, software e outros produtos de alta tecnologia que logo se tornam obsoletos. Isso significa que os capitalistas precisam gastar mais na substituição dessas coisas. Boa parte daquilo que parece mais dinheiro entrando no bolso do proprietário é na verdade apenas o custo mais alto de se fazer negócio.

Rognlie não é o primeiro a apontar isso – James Hamilton, da Universidade da Califórnia em San Diego, e Benjamin Bridgman, do Bureau de Análise Econômica, já tinham feito esse comentário.

Mas Rognlie acrescenta dois outros pontos importantes. A segunda de suas críticas diz que boa parte da renda que ficou com os donos de capital nas seis décadas mais recentes decorreu dos ganhos de capitais – da valorização do preço das ações, e não de um aumento no seu valor nominal (o valor total líquido dos bens e ativos das empresas). Ao analisar o valor nominal, a alta foi muito mais modesta. Pode ser que aquilo que aparenta ser o início de uma explosão permanente na riqueza dos acionistas seja na verdade apenas o fim do “prêmio de equity” que há décadas fascina os economistas financeiros.

Mas o terceiro ponto de Rognlie é talvez o mais interessante. Os economistas combinam muitas coisas diferentes na forma de “capital”, como maquinário, edifícios e terrenos. Rognlie destaca que quase todo o aumento no valor do capital na linha do tempo de Piketty corresponde ao valor da terra, e não de outras formas de capital. Em outras palavras, são os senhorios que estão açambarcando a riqueza da economia, e não os grandes empresários. Trata-se de uma perspectiva dramaticamente diferente que tinha sido ignorada até ser apontada por Rognlie.

Trata-se de uma narrativa bastante diferente daquela em que costumamos pensar. Não tínhamos relegado os poderosos senhores de terras à lata de lixo da história quando nos livramos do feudalismo? As corporações produtivas não substituíram os donos de terras enquanto classe rica nas sociedades avançadas?

Talvez não. Economistas urbanos acreditam que, com o aumento na densidade, aumenta a produtividade. Isso é conhecido como “economia de aglomeração”. Mas, conforme a proximidade entre as pessoas se torna mais valiosa para o trabalho e a habitação, o valor das localizações centrais – da terra – aumenta. Sem produzir mais do que antes, os senhorios instalados em locais vantajosos recebem imensas recompensas.

Em geral, isso significará uma tendência entre as cidades de serem pequenas demais – o incentivo à proximidade que aumenta a produtividade é sufocado pelo alto preço da terra. A vazão da renda urbana para os senhorios tende a aumentar conforme a economia cresce e a vantagem das cidades para a produtividade aumenta. Para observar essa dinâmica em ação, basta analisar o caso de San Francisco, onde a acentuada alta no preço dos terrenos, e movimento idêntico nos aluguéis, absorveram boa parte da riqueza criada pelo novo boom tecnológico. É claro que isso foi muito exacerbado pela recusa da cidade em permitir novas construções habitacionais, algo que pode refletir o poder político dos donos de imóveis.

Os resultados de Rognlie e a teoria das economias de aglomeração indicam que, para combater a desigualdade de renda, não precisamos redistribuir a renda das corporações, e sim distribuir a renda imobiliária. Como fazer isso? Bem, permitir mais construções em áreas urbanas é um bom começo. Mas, nesse caso, a verdadeira arma é o imposto Henry George, ou imposto sobre valor do terreno (LVT, em inglês). É semelhante ao imposto sobre propriedade, mas taxa apenas o valor do terreno, e não o das estruturas construídas nele. Incentiva o uso eficiente dos terrenos, ao mesmo tempo proporcionando o método mais eficiente de redistribuição de renda. Milton Friedman o chamava de “imposto menos pior”.

Rognlie mostra que, se realmente quisermos combater a desigualdade para a qual Piketty nos alerta, provavelmente precisaremos de ferramentas como o LVT. Mais importante, nossas cidades precisarão encontrar maneiras de equilibrar o poder político dos donos de imóveis. A política de redistribuição mais importante pode ser agora uma política para o uso dos terrenos urbanos.

* O autor é professor assistente de finanças da Universidade Stony Brook

Tradução de Augusto Calil

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