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Europa pode ter seu primeiro calote desde 1948, diz estudo

Projeção está no mesmo relatório que previa ajuda da UE a Portugal

Carla Miranda

25 de abril de 2011 | 11h25

A empresa de pesquisas Economist Intelligence Unit (EIU), que pertence ao mesmo grupo empresarial da revista “The Economist”, publicou um relatório em março em que afirmava: “Acreditamos que Portugal seja forçado a pedir ajuda financeira em 2011”. Acertou. No início de abril, o premiê José Sócrates anunciou pela TV, em rede nacional, que o país precisaria ser socorrido pela União Europeia.

Depois da bola dentro da equipe da EIU, vale a pena prestar atenção em outros dados levantados pelo mesmo relatório, que em março poderiam parecer um pouco exagerados. Por exemplo, a suposição de que “a Europa poderá testemunhar sua primeira moratória da dívida soberana desde 1948”. Na Grécia e na Irlanda, apesar da ajuda internacional e das medidas de austeridade fiscal, não há sinais de “qualquer recuperação significativa”.

A EIU traçou quatro cenários possíveis para a zona do euro nos próximos anos, e as afirmações acima fazem parte do panorama mais provável, com 50% de chance de se concretizar. O curioso é que essa é uma expectativa relativamente otimista. A mais pessimista, com 15% de probabilidade, é a de que os países da periferia da Europa e também a Alemanha decidam abandonar o euro.

Quem indica a leitura desse estudo da EIU é Luiz Fernando de Paula*, colaborador do Radar Econômico. Ele comenta:

“Para quem está interessado nos rumos da atual crise da zona do euro, foi lançado o relatório elaborado pelo EIU intitulado ‘State of the union: Can the eurozone survive its debt crisis?‘. O estudo elabora quatro cenários sobre o futuro do euro, atribuindo 50% de probabilidade para um cenário razoavelmente otimista segundo o qual a crise é superada com cortes nos déficits públicos nos países periféricos atingidos pela crise, acompanhados do suporte financeiro dos países credores, permitindo assim que a reestruturação da dívida soberana seja obtida em 2013.

Obviamente neste caso o ônus da crise (em termos de desemprego e redução do crescimento) fica com o países atingidos pela mesma, e não dividindo o mesmo como os países credores. O estudo do EIU reconhece que há problemas estruturais na constituição da zona do euro, uma vez que as chamadas pré-condições para uma zona monetária ótima não estavam razoavelmente colocadas quando foi introduzida a nova moeda. Em outras palavras, trata-se de uma região bastante heterogênea em termos econômicos e sociais. Assim, foi muito mais um projeto político do que econômico propriamente dito.

A zona do euro irá superar a crise mantendo sua estrutura intacta? Qual o preço do ajuste adotado para manter o funcionamento da mesma? Os benefícios dos países periféricos da zona do euro em participar da mesma superam seus custos? Infelizmente o relatório não dá respostas para essas questões. Mas vale a pena a leitura.”

Leia o estudo da EIU na íntegra (em inglês)

* Luiz Fernando de Paula é professor de Economia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), pesquisador do CNPq, e Presidente da Associação Keynesiana Brasileira (AKB).  É autor, entre outros, do livro “Financial Liberalization and Economic Performance: Brazil at the crossroads” (Routledge, 2011).
Blog da Associação Keynesiana Brasileira (AKB): http://associacaokeynesiana.wordpress.com

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