Falta camisinha na Venezuela e preço já chega a R$ 2 mil a caixa
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Falta camisinha na Venezuela e preço já chega a R$ 2 mil a caixa

Embalagem com 36 unidades é vendida na internet pelo valor de um salário mínimo; consumidor paga R$ 55,00 por preservativo

Economia & Negócios

05 Fevereiro 2015 | 15h11

Consumidores em fila em farmácia de Caracas, na Venezuela: país enfrenta falta de produtos básicos (Reuters)

Consumidores em farmácia de Caracas: consumidores enfrentam falta de produtos básicos (Reuters)

Anatoly Kurmanaev

BLOOMBERG

Os venezuelanos, que já passam horas na fila para comprar frango, açúcar, remédios e outros produtos básicos em escassez enfrentam agora nova indignidade: os preservativos são difíceis de encontrar e quase impossíveis de comprar.

“O país está em tamanha bagunça que agora precisamos esperar na fila até para o sexo”, lamentou Jonatan Montilla, de 31 anos, diretor de arte de uma firma de publicidade. “É um novo marco negativo.”

Um colapso no preço do petróleo aprofundou a escassez de produtos voltados para o consumidor, desde fraldas até desodorante, neste país da Opep que importa a maior parte daquilo que consome, com a exportação de petróleo correspondendo a cerca de 95% de seus rendimentos em moeda estrangeira.

Como o preço recebido pelo país por suas reservas de petróleo caiu 60% nos últimos sete meses, a economia está se aproximando da beira do abismo, com 75% de chances de uma moratória nos próximos 12 meses caso o preço do petróleo não se recupere.

O impacto do acesso reduzido aos contraceptivos é muito mais grave do que a frustração dos encontros fracassados. A Venezuela apresenta uma das maiores incidências de infecção pelo HIV e gravidez na adolescência da América Latina. O aborto é ilegal.

“Sem camisinhas, não podemos fazer nada”, disse Jhonatan Rodriguez, diretor geral do grupo sem fins lucrativos StopHIV, em entrevista pelo telefone no dia 28 de janeiro a partir da Ilha de Margarita, Venezuela. “Essa escassez ameaça todos os programas de prevenção nos quais trabalhamos em todo o país.”

Falta de dólares. Camisinhas e outros contraceptivos desapareceram de muitas farmácias e clínicas venezuelanas a partir do final de dezembro, conforme o governo restringiu a distribuição de dólares em meio à queda na renda com o petróleo, de acordo com a Federação Farmacêutica Venezuelana.

Não havia preservativos disponíveis em 10 farmácias do leste e do centro de Caracas visitadas no final de janeiro, sendo que em novembro havia até 20 variedades à disposição em alguns endereços, incluindo as marcas Durex, da Reckitt Benckiser Group plc, e a Trojan, da Church & Dwight Co.

A Venezuela tinha o terceiro ritmo mais rápido de infecção pelo HIV per capita na América do Sul, perdendo para Paraguai e Brasil em 2013, de acordo com dados das Nações Unidas. O país tem também a maior proporção de casos de gravidez na adolescência do continente depois da Guiana, com 83 casos por mil habitantes, de acordo com dados do Banco Mundial de 2012. Na Alemanha são4 casos por mil habitantes e, nos EUA, 31.

No site de leilões MercadoLibre, usado pelos venezuelanos para obter artigos em falta, um pacote com 36 camisinhas é vendido por 4.760 bolívares (US$ 755 de acordo com a taxa de câmbio oficial, ou o equivalente a R$ 2 mil – R$ 55 cada camisinha). O valor é quase o equivalente ao salário mínimo do país, de 5.600 bolívares.

Seguindo o câmbio do mercado negro usado pelas pessoas com acesso a dólares, o custo de cada camisinha é de US$ 25 (R$ 67,oo).

Uma queda de dois terços no valor do petróleo venezuelano desde junho trouxe o país à beira da moratória, de acordo com preços no mercado de swaps. Em vez de cortar os gastos sociais, o presidente Nicolas Maduro respondeu à renda mais baixa com um corte nas importações.

Esse ano, a Venezuela vai importar 42% menos do que em 2012 em se tratando de dólares gastos, de acordo com estimativas da Bank of America Corp.

Fila em supermercado expropriado pelo governo da Venezuela: faltam produtos básicos (AP)

Fila em supermercado expropriado pelo governo da Venezuela: faltam produtos básicos (AP)

Filas. A falta de artigos de todo tipo, da farinha aos remédios cardíacos, passou a ser muito mais sentida desde dezembro. Centenas de pessoas formam filas do lado de fora dos supermercados de Caracas no horário das entregas para comprar alimentos ou artigos para o lar a preços subsidiados. Manifestações contra a gestão de Maduro para a escassez, a inflação e o crime deixaram 43 mortos no ano passado.

Na Venezuela, onde o aborto é ilegal, o desaparecimento dos preservativos vai aumentar o número de mortes entre mulheres ao levar mais grávidas a clínicas clandestinas, disse Carlos Cabrera, vice-presidente do braço local da Federação Internacional do Planejamento Familiar (IPPF), com sede em Londres. A falta de camisinhas também trará um impacto econômico duradouro ao afastar meninas e jovens mulheres das escolas e da força de trabalho, disse ele.

“Uma gravidez indesejada na adolescência é a marca de um fracasso do governo: fracasso de suas políticas econômicas, de saúde pública e de ensino”, disse Cabrera, que trabalha como ginecologista em Caracas.

Na cidade de Los Teques, subúrbio de Caracas, a gerente da farmácia Ramo Verde, Katherine Munoz, estava ao lado de uma prateleira de contraceptivos cheia de camisinhas fabricadas na Ásia. A loja dela não recebeu nenhum pacote de Durex nem Duo, produto da Beiersdorf AG, desde outubro, e os estoques se esgotaram no mês passado, disse ela, acrescentando que os consumidores “não confiam” nas marcas que restaram.

“As pessoas me perguntam se já usei pessoalmente essas marcas, e se há alguma que possa recomendar”, disse Katherine. “Não posso dizer que as tenha usado.”

O suprimento de pílulas para o controle da natalidade e contraceptivos de emergência estão em níveis baixíssimos, bem como os de remédios antirretrovirais para pacientes com HIV, de acordo com a IPPF e a StopHIV.

As importações de Durex para a Venezuela entraram em colapso “por causa da situação política pela qual o país está passando”, disse a porta-voz da Reckitt Benckiser, Priscilla Sotela, em resposta a perguntas feitas por e-mail. A Church & Dwight não respondeu aos e-mails e telefonemas solicitando entrevista.

Maduro prometeu em 2013 construir uma rede de fábricas de preservativos para proteger os jovens venezuelanos dos efeitos da “pornografia capitalista”.

“Quando as orelhas esquentam e nada mais pode esperar, e tudo precisa acontecer agora ou o mundo vai acabar – é aí que acabamos com uma barriga imensa aos 14 ou 15 anos”, disse ele em discurso transmitido pela TV em junho de 2013. “Não pode ser assim.”

Nenhuma das fábricas foi concluída, de acordo com o presidente da federação de farmacêuticos, Freddy Ceballos.

Funcionários do ministério da saúde da Venezuela não responderam aos e-mails e telefonemas da Bloomberg solicitando respostas para a escassez de preservativos.

“Meu estoque acabou ontem. Agora não tenho mais quase nada e, se encontrar alguma variedade, será caríssima”, disse Montilla, o diretor de arte da firma de publicidade. “Não se ode correr riscos.”

Para obter contraceptivos na capital, os moradores ainda podem ir a um dos três centros de planejamento familiar administrados pela PlaFam, subsidiária da IPPF, onde as camisinhas eram vendidas livremente por 3 bolívares cada no final de janeiro.

“É tudo que temos”, disse o farmacêutico Carlos Hernandez, ao entregar as duas últimas camisinhas disponíveis no estoque do Hospital Universitário de Caracas no dia 29 de janeiro. “Ninguém sabe quando receberemos mais.”/Tradução de Augusto Calil

 Leia também:

Governo Maduro esconde filas em porão de supermercado

Filas e escassez desgastam chavismo e abrem fissuras no governo Maduro

Serviço secreto prende donos de farmácia na Venezuela

Camisinha com sabor de caipirinha esgota em dez dias

 

 

 

Mais conteúdo sobre:

Venezuela