Número de empregos na ‘revolução do gás’ é contestado nos EUA

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Número de empregos na ‘revolução do gás’ é contestado nos EUA

Especialista rebate tese de que todo o crescimento no mercado de trabalho desde 2007 nos Estados Unidos deve-se à fragmentação hidráulica do óleo de xisto e à chamada 'Renascença do petróleo'

Economia & Negócios

28 de janeiro de 2015 | 10h06

Protesto contra a exploração do gás de xisto em Londres (Foto: AFP)

Protesto contra a exploração do gás de xisto em Londres (Foto: AFP)

Barry Ritholtz

BLOOMBERG NEWS

“Todo o crescimento nos empregos observado desde 2007 até o momento pode ser facilmente atribuído à situação da fragmentação hidráulica do óleo de xisto e à ‘Renascença do petróleo’. Se Texas e Dakota do Norte forem excluídos dos dados de emprego, veremos que nenhum emprego foi criado nos Estados Unidos fora dessas duas regiões.”

O comentário acima, feito pelo conhecido investidor Jeff Gundlach durante conference call na semana passada deu início a uma agitada polêmica, repetindo um trópico que vem ganhando força em determinados círculos. A afirmação diz que todos os empregos criados nessa recuperação econômica estão ligados ao surto de produção resultante da fragmentação hidráulica de óleo e gás natural. Isso é comprovadamente falso.

Algumas variações desse raciocínio têm circulado nos anos mais recentes. Para que suas premissas funcionem, é preciso aceitar duas análises equivocadas. A primeira diz que todo o crescimento líquido nos empregos americanos desde 2007 resultou do setor energético e das indústrias ligadas a ele. A segunda diz que, excluído o Texas, o restante do país perdeu empregos.

Os relatórios tomados como base por essas afirmações são parciais e repletos de erros analíticos. Para tornar as coisas piores, ambas foram elaboradas por centros de estudos estratégicos que se especializam em análises econômicas enviesadas. Como diz o ditado, torture os dados por tempo o bastante e eles confessarão qualquer crime.

Vamos começar com alguns fatos: há agora 118,4 milhões de trabalhadores americanos em cargos do setor privado. A economia perdeu muitos empregos durante a Grande Recessão, e foi somente em 2010 que começamos a aumentar o número de assalariados fora do setor agrário. De acordo com dados do Bureau de Estatísticas do Trabalho (BLS), mais de 10 milhões de empregos foram criados desde o final de 2010.

E quanto aos empregos ligados ao petróleo e à fragmentação hidráulica?

Vamos aos dados, que podem ser facilmente obtidos no BLS ou no Federal Reserve Bank de St. Louis.

Há atualmente cerca de 215 mil pessoas trabalhando na extração de óleo e gás, e 543.200 pessoas empregadas em atividades auxiliares à indústria. No início de 2010, esses números eram 156.500 e 341.300, respectivamente. Em outras palavras, essas indústrias incorporaram cerca de 250 mil trabalhadores desde 2010.

Como passamos disso a um ganho de mais de 10 milhões de postos de trabalho? É necessário torturar os dados.

Boa parte do sofrimento imposto aos dados está num relatório de pesquisa preparado pelo Manhattan Institute, “Pequenas empresas desencadeiam boom nos empregos do setor energético”, onde é dito que “quase 1 milhão de americanos trabalham diretamente na indústria do gás e do petróleo, e um total de 10 milhões de empregos são ligados a essa indústria”.

Vamos supor que esses dados estejam corretos (apesar das provas contrárias). Se quisermos fazer a afirmação genérica segundo a qual “milhões de empregos estão ligados à indústria do gás e do petróleo”, tudo bem. Mas e quanto aos milhões de empregos ligados a outras indústrias? E quanto aos empregos dos setores da tecnologia, internet e comunicações móveis? Os empregos de apoio à manufatura? Atendimento de saúde, biotecnologia e pesquisa médica?

O que o relatório do Manhattan Institute faz é comparar bananas e maçãs: comparar o total de empregos criados com os empregos ligados ao setor energético. Sinto muito, mas isso é trapaça. É preciso comparar os empregos ligados ao setor aos empregos ligados aos demais setores.

A comparação entre duas fontes de dados diferentes – empregos reais e empregos ligados à indústria – não produz uma análise precisa.

O American Enterprise Institute é o outro centro de estudos estratégicos culpado de torturar os dados. Isso pode ser visto na seguinte publicação com a manchete: “O Texas, a ‘grande máquina americana de empregos’, é o único responsável pelo crescimento líquido de +1,2M postos de trabalho nos EUA desde 2007”.

Em comparação a estados como Flórida e Califórnia, que sofreram pesadas perdas ligadas ao mercado imobiliário no estouro da bolha imobiliária, o Texas escapou relativamente ileso (paralelamente, lembremos o que houve no Texas nos anos 1980 durante o colapso do preço da energia). Como observou o Federal Reserve Bank de Dallas, o preço dos imóveis no Texas caiu menos de 1% em relação ao ápice do mercado em 2007 quando chegou ao fundo do poço em 2011.

O motivo – surpreendente para um estado que gosta de se imaginar como modelo de economia liberal – são as regulações protegidas pela Constituição do Texas e outras leis. O Texas é o único estado a limitar os empréstimos imobiliários, com hipotecas que chegam no máximo a 80% do preço considerado justo para um imóvel. Isso ajuda a evitar que o imóvel pessoal seja usado numa especulação irresponsável, como vimos no restante dos Estados Unidos durante a década de 2000.

Aqueles que entendem isso devem estar se divertindo ao ver os desregulamentadores radicais do AEI apresentando na verdade sólidos argumentos em defesa da limitação do endividamento e de mais regulamentação hipotecária. Viva o Texas, estado-babá!

Sempre que vemos uma série de dados remontando a 2007 e apresentando o Texas como referência, sabemos que os autores são mal-intencionados. Não temos tempo para desconstruir inteiramente cada um desses argumentos, mas eles condizem com o histórico de pesquisas sem credibilidade apresentadas pelo AEI envolvendo o colapso imobiliário. Este é um ponto de partida para começarmos a rever esses dados.

Em resumo: o setor energético contribuiu para a criação de empregos, mas muitas outras indústrias também.

A questão mais importante para o momento é como o declínio no custo da energia vai afetar a economia: as perdas na renda da produção de petróleo e gás vão beneficiar o turismo, lazer, transportes aéreos, montadora de carros e varejistas. Essa é a pergunta fundamental que nossa economia precisa responder – e não as análises equivocadas e parciais de centros de estudos estratégicos que atendem ao interesses daqueles que os sustentam financeiramente.

* O autor é fundador da Ritholtz Wealth Management, consultor e ex-diretor executivo da firma de pesquisas quantitativas FusionIQ

* Tradução de Augusto Calil

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