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Gigante do varejo envolveria governo, Diniz e rivais franceses

Fusão entre Pão de Açúcar e Carrefour no Brasil teria dinheiro público

Carla Miranda

28 de junho de 2011 | 14h28

Atualizado às 19h34

Circulam na internet notícias das mais diversas fontes sobre o que pode vir a ser o maior negócio do setor varejista brasileiro. Em meio a esse emaranhado ainda mal detalhado, o Radar Econômico selecionou informações essenciais.

Abilio Diniz, presidente do conselho do Grupo Pão de Açúcar, maior varejista brasileiro, quer que sua empresa se junte à segunda maior rede de supermercados em atuação no País, o Carrefour, tornando-se líder isolado no Brasil, com 2.386 lojas. Para isso, no entanto, ele ainda terá que fechar acordo com muita gente.

Concretamente, a criação deste gigante varejista só pode ocorrer após um acordo envolvendo governo, a família Diniz e dois grupos franceses, rivais entre si na França e no Brasil: o Casino e o Carrefour. E o Casino não se mostrou favorável; ao contrário, acusou Diniz de negociação ilegal, como relatou a jornalista Daniela Milanese, correspondente da Agência Estado em Londres.

Nesta terça-feira, o Carrefour anunciou, por uma nota em seu site internacional, que recebeu uma proposta de fundir seus ativos brasileiros com o Pão de Açúcar (ou CBD, Companhia Brasileira de Distribuição).

A proposta é de uma transação complexa, mas que, em última análise, consistiria na criação de uma empresa com a participação dos atuais donos do Pão de Açúcar (Casino e família Diniz) e do Carrefour.

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 Mão do Estado

Essa nova companhia seria criada com uma injeção de capital de € 2 bilhões do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social) e do banco BTG Pactual. Pela proposta, a maior parte desses recursos (€ 1,7 bilhão) pode vir do banco de fomento. Além disso, a instituição financeira federal emprestaria €  500 milhões para o novo grupo varejista.

Quem fez a proposta ao Carrefour foi a Gama, um fundo administrado pelo BTG Pactual. É a Gama que passará a se chamar Novo Pão de Açúcar, se o negócio for fechado, e se tornará o maior acionista do Carrefour, com ao menos 11,7% de participação.

Diniz afirmou, à colunista Sonia Racy, do Estadão, que está tentando acordo com Casino. O Carrefour anunciou que seu conselho de diretores avaliará a proposta “nos próximos dias”. O BNDES também analisa a sugestão.

O Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), que avalia se a fusão configura monopólio, ainda não foi oficialmente informado.

Entenda

O gráfico abaixo, divulgado em

Documento

da Gama, mostra como seria a estrutura acionária do novo grupo:

Documento

  • pao_de_acucar_carrefour_gama_.jpg   PDF

O gráfico mostra que o Carrefour França teria 50% da nova empresa (no quadro cinza, com o nome CBD Brazil). A outra metade do CBD Brazil pertenceria à Gama. Esta mesma Gama, por sua vez, teria ao menos 11,7% do Carrefour França, sendo o maior acionista da empresa francesa.

Ainda falando da Gama, ela seria controlada pelos atuais acionistas do Grupo Pão de Açúcar (CBD), incluindo a família Diniz e o Casino. Juntos, os acionistas do Grupo Pão de Açúcar passariam a ser proprietários de 78,6% das ações da Gama. Os 21,4% restantes da Gama pertenceriam ao BNDESPar e ao BTG Pactual. A proposta não especifica qual a parcela que o banco de fomento teria isoladamente.

A BlueCapital, citada no diagrama acima, é um acionista do Carrefour na França. Trata-se de uma empresa controlada pelo bilionário francês Bernard Arnault, dono do grupo de luxo LVHM.

Quem ganha

Uma análise publicada no site do “Wall Street Journal” afirma que o “real beneficiário dessa negociação parece ser a Gama, que é financiada pelo governo brasileiro”.

O mesmo texto considera que Abilio Diniz também sai ganhando nessa história. As ações da CBD, por sinal, têm forte alta na bolsa brasileira nesta terça-feira.

“Para o Carrefour, é uma transação sensível. Eles abrirão mão de parte do controle de sua própria estratégia”, disse à agência Bloomberg o analista Chris Hogbin, da Sanford C. Bernstein.

Briga

Antes de começar a costurar essas negociações com o Carrefour, o empresário Abilio Diniz estava prestes a perder o controle da empresa fundada por seu pai. Em 2006, o Grupo Pão de Açúcar recebeu capital do Casino e, em troca, prometeu que em 2012 a rede de supermercados brasileira passaria para as mãos dos franceses.

Em maio, a imprensa francesa noticiou que Diniz havia procurado o Carrefour para fazer uma proposta de fusão. A notícia irritou o Casino, que recorreu à Câmara Internacional de Comércio para impedir o negócio. Agora, Diniz tenta convencer os donos do Casino de que o negócio será bom também para eles.

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