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Goldman Sachs apostava contra seus clientes, diz jornal

Banco vendia papéis podres do WaMu enquanto apostava contra o mesmo WaMu

Carla Miranda

19 de maio de 2010 | 15h04

“Eu não acredito no Goldy”, afirmou ao New York Times o ex-presidente do Washington Mutual (WaMu), banco norte-americano que faliu em 2008, na maior bancarrota da história do sistema financeiro dos Estados Unidos. Aqui, “Goldy” significa Goldman Sachs, um dos principais bancos dos EUA.

A frase é um trocadilho até espirituoso; em inglês, “I don’t trust Goldy” soa quase como “I don’t trust God” – um “Não acredito em Deus” que, vindo de um alto executivo de Wall Street, poderia ser interpretado como uma desconfiança ante os barões do mercado financeiro.

O ex-presidente do WaMu em questão, Kerry K. Killinger, teve seus motivos para desconfiar. O jornal norte-americano The New York Times publicou uma longa reportagem dissecando conflitos de interesses entre as instituições financeiras dos Estados Unidos, tomando como exemplo central a atuação do banco Goldman Sachs durante a crise internacional.

Contra os clientes

O Goldman fez apostas contra alguns de seus próprios – e grandes – clientes. Em 2007, o Goldman Sachs vendia para alguns clientes os títulos de alto risco, ligados a hipotecas, emitidos pelo WaMu, seu freguês de longa data. Mas, naquela época, o Goldman já sabia que aqueles papéis estavam fadados ao declínio. O New York Times cita uma prova: “Negociadores da mesma unidade do Goldman […] apostavam que o preço das ações e de outros títulos do WaMu iriam cair”.

Com base em documentos divulgados pelo Congresso dos EUA, o jornal diz que as apostas do Goldman contra as ações do WaMu eram grandes o suficiente para dar um retorno de US$ 10 milhões quando o banco de Washington fosse à falência. Em maio, as apostas contra outros títulos do WaMu renderam ao Goldman US$ 2,5 milhões, ainda de acordo com os documentos do Congresso.

Resumidamente, o que houve foi que o Goldman Sachs vendeu a alguns clientes papéis podres emitidos por um outro cliente, mais ilustre, contra o qual o mesmo Goldman apostou e ganhou.

Conflito de interesses

O que o New York Times destaca agora é que o WaMu é apenas um exemplo do conflito de interesses envolvendo os bancos norte-americanos. A unidade de hipotecas do Goldman Sachs apostou também contra dois outros clientes de longa data, o Bear Stearns e a Countrywide Financial.

Também apostou contra a AIG, que assegurava os títulos do Goldman, e o National City, um banco que o Goldman assessorou – sempre segundo o New York Times.

“Ainda que ninguém tenha acusado o Goldman de ilegalidades envolvendo WaMu, National City, AIG ou outros clientes contra os quais o banco apostou, conflitos potenciais inerentes ao modelo de negócios de Wall Street estão no bojo de várias investigações que o Estado e autoridades federais estão conduzindo”, diz o jornal.

Leia a reportagem no site do New York Times (em inglês)

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