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Gustavo Franco: governo não tem como evitar alta do real

Ex-presidente do BC lança o livro 'Cartas a um jovem economista'

Carla Miranda

17 de setembro de 2010 | 19h48

Atualizado em 18/09/10 às 9h29

Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central entre 1997 e 1999 e um dos economistas que participaram da implantação do Plano Real, disse em entrevista ao blog Radar Econômico que não existe uma forma de o governo impedir a alta da moeda brasileira.

“Devemos pensar em como conviver com essa realidade [do real forte], e não achar que tem uma engrenagem em que se possa mexer para reverter esse problema, porque eu acho que não tem”, afirmou.

Ele está lançando o livro “Cartas a um jovem economista”, pela editora Campus, no qual reflete sobre a profissão e conta episódios de sua carreira, na academia, no mercado e no governo.

“Com esse livro, o que eu quis dizer foi o seguinte: ‘O mundo é dos nerds, é de quem estuda’”, afirmou Franco na entrevista. Assista à entrevista em vídeo. Se preferir, leia mais abaixo a transcrição editada dos principais trechos.

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‘Cartas a um jovem economista’  

 

Assista abaixo à entrevista.

Os desafios e a solidão da autoridade

 

O câmbio e o mundo dos nerds

 

Leia os principais trechos da entrevista.

No livro, o senhor afirma que o emprego público pode ser o pior trabalho do mundo. Esse foi o momento mais difícil da sua carreira?

Foi. Agora, por parte ruim, eu não me refiro aos períodos de crise. O lado ruim tem a ver com a solidão da autoridade. Você combate minorias do mau que se dedicam a proteger os seus privilégios. Você tem inimigos em que você olha no olho, mas as pessoas que você beneficia não sabem que você existe. Ninguém o apoia.

O senhor diz também que, se um alto funcionário público se torna muito popular, alguma coisa está errada. E no cenário atual, em que o presidente é popular mesmo mantendo uma política monetária criada no tempo em que o senhor estava no governo?

Tem um certo exagero aí. Essa solidão faz com que você tenha a sensação de que o mundo é composto exclusivamente de inimigos seus. A agenda em Brasília é só de gente reclamando.  Você sai de lá com a sensação de que o real foi um pesadelo. Mas quando você aterrissa no Rio ou em São Paulo, você encontra a maioria para a qual você estava trabalhando. Essa é a parte extraordinariamente boa de trabalhar no setor público e ter aquelas grandes maiorias reconhecendo o que você fez.

Quando o BC estava usando um câmbio semi-fixo, a taxa de desemprego chegou a 19%, segundo o Dieese, o ritmo de crescimento da economia caiu e o País teve deflação. Olhando para trás, o senhor acha que usou explosivos fortes demais parta combater a inflação?

Lógico que não. Isso é bobagem. Não creio que seja possível demonstrar que o Plano Real tenha tido impactos negativos pelo menos nos dois ou três primeiros anos. Quando houve a crise da Rússia [1998], era preciso remover a âncora cambial. No governo não faltavam críticos [à política cambial]. Porém, eu falava com eles: “O que você sugere? Você tem certeza de que a hiperinflação não ia voltar?” E o crítico saía da sala e deixava que eu tomasse a decisão.

A gente trouxe a inflação de 7.260% ao ano para 1,6% em 1998. Veio a crise de 1999, mudou-se a âncora cambial, mas a estabilização já estava conquistada. Então, zero arrependimento sobre o curso que tomamos.

O senhor conta que, naquele momento de crise cambial, o então presidente Fernando Henrique Cardoso disse ao ministro Pedro Malan [Fazenda] que estava pensando em ser mais desenvolvimentista no segundo mandato. Como o senhor se posicionou em relação a isso?

No começo de 1998, o presidente estava começando a campanha eleitoral sem nenhuma perspectiva de haver a crise da Rússia, e o pensamento dele era: ‘No meu primeiro mandato fui tão comprometido com reformas e batalhas políticas difíceis, no segundo mandato quero governar mais leve’. Não estava em dissintonia com o que a gente pensava. Eu próprio fui autor de um texto de 1995 sobre o modo como o programa de estabilização se tornava um programa de desenvolvimento.

O livro lembra que o então ministro José Serra, que era um aliado, dizia que o Banco Central fazia ‘populismo cambial’. O senhor guarda rancor de Serra?

Não, essa é a opinião que ele tem e vale para a política cambial de hoje. Eu não vejo ele usar essa linguagem, ‘populismo cambial’, para o presidente Lula. Mas poderia. A taxa de câmbio hoje não está diferente da do meu tempo. Por que no meu tempo era populismo e hoje não é?

Em geral, a moeda de países que se desenvolvem fica mais forte. Isso está acontecendo com o Brasil, e agora descobrimos petróleo no pré-sal. Devemos pensar em como conviver com essa realidade, e não achar que tem uma engrenagem em que se possa mexer para reverter esse problema, porque não tem.

O livro critica tanto os marxistas como os desenvolvimentistas, e expõe o ponto de vista do senhor. O título poderia ser ‘Cartas a um jovem economista ortodoxo’?

Não. ‘Ortodoxo’ ou ‘neoliberal’ é uma linguagem do mundo marxista dirigida ao resto do mundo. Eu não reconheço como apropriada. Existe uma corrente amplamente dominante de pensamento econômico e uma pequena corrente de pensamento de teor marxista que, no entanto, tem um espaço de mídia absolutamente desproporcional à sua importância no mundo acadêmico. Sem julgamento sobre o mérito epistemológico da reflexão marxista sobre a sociedade capitalista, mas, no mundo prático, onde vai militar o jovem economista, a perspectiva marxista do mundo simplesmente não tem importância.

Existe conflito de interesse entre as três áreas em que o senhor atuou, a academia, o mercado e o governo?

Sim, a vida é feita de conflitos de interesse. A empresa e o mercado são um permanente alinhamento de conflitos de interesse. O acadêmico talvez seja o economista que está mais isento. Mas está sempre vulnerável a patrulhamento, ao permanente questionamento de se aquele saber especializado o faz qualificado a dar uma opinião. Para que ir para a faculdade, para que ler, se você não vai adivinhar o futuro? Esse é o tipo de armadilha que desincentiva a pessoa a estudar e a ler, como se o conhecimento especializado não servisse para coisa nenhuma. Essa é a patrulha mais danosa, que discrimina o estudante esforçado, o CDF, o nerd. O mundo é dos nerds, é das pessoas que estudam, e o economista vai ser tão melhor quanto mais ele ler e estudar. Sem estudar, ninguém vai ser nada, só patrulheiro.

Para ganhar dinheiro, o economista precisa trabalhar no mercado ou pode ter dedicação exclusiva à vida acadêmica?

Ele pode ter uma vida muito digna sendo acadêmico, sim. Se o trabalho é bom, ele vai ser bem remunerado.

Inclusive em uma universidade pública?

Sim. Institutos do mundo todo contratam trabalhos de pesquisa e pagam o preço devido. Você não vai ser nenhum milionário, mas vai ter uma vida intelectual intensa, e para muita gente isso é muito bom.

Qual foi o momento mais gratificante da sua carreira?

Acho que foi o dia em que a medida provisória da URV (Unidade Real do Valor) foi para a rua. O dia 1º de março de 1994 foi o primeiro dia de quatro meses em que nós, da área econômica do governo, ficamos explicando o que é a URV. Foi ao mesmo tempo um desafio e também uma missão espetacular. Inigualável.

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