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Mailson: A Europa atrapalha a união imaginada por Merkel

Chanceler alemã quer Europa unida, desde que o comando esteja nos países centrais

Carla Miranda

21 de novembro de 2012 | 14h36

mailson_da_nobrega.JPGMailson da Nóbrega* indica um artigo do Financial Times segundo o qual a chanceler alemã quer uma união da Europa, porém condiciona o apoio a países periféricos ao controle pelo centro. abaixo, comentário de Mailson

 

Em viagens pela Europa, a chanceler alemã Angela Merkel tem anunciado seus planos de curto prazo para o euro. A ideia é evitar que a falência de bancos ou a quebra de países acarrete a desintegração da moeda única. Merkel deseja livrar a Europa das questões imediatas para que a região se focalize nos desafios do longo prazo. Ocorre que a região tem agido contrariamente às suas propostas. Este é o tema do artigo de Sebastian Mallaby, no Financial Times.

Para ela, o apoio para os países da periferia deve estar condicionado ao controle pelo centro. É o que se vê do novo pacto fiscal e das ações para uma supervisão bancária central. Acontece, diz o articulista, que “a chanceler pode está prestes a permitir uma imprudente concessão, que ameaçaria a união monetária quando vier a próxima crise”.

Quando o euro foi criado, prossegue Mallaby, os alemães pensaram ter conseguido criar um Banco Central Europeu (BCE) à imagem e semelhança do Bundesbank, o banco central do seu país. De certa forma, isso aconteceu: o BCE tem feito melhor do que o Bundesbank para controlar a inflação alemã. Em termos de governança, todavia, os alemães se iludiram. Somente dois dos 23 membros do BCE são alemães. No papel pelo menos, o presidente do Bundesbank não tem mais poderes do que o presidente do Banco de Chipre ou do Banco de Malta.

Em épocas normais, essa governança funcionou, mas em tempos de crise os alemães – que veneram o Bundesbank – ficaram chocados. Com a crise, o BCE foi forçado a ir além de seu mandato, adotando uma política de resgate de países que o Bundesbank detesta, mesmo que o banco esteja certo.

Bancos da periferia podem vir a enfrentar problemas novamente. Os alemães pressionarão no sentido de evitar os correspondentes riscos mediante o fortalecimento da sua base de capital. A periferia pode ter uma posição oposta, preferindo uma caridosa complacência em lugar da redução dos empréstimos bancários. “Dada a governança do BCE e a dificuldade de enfrentar bancos poderosos, é muito provável que a periferia prevaleça e a supervisão bancária termine por ser branda”, assinala o articulista.

Em face de seu ainda elevado endividamento, os países da periferia não têm capacidade de regatar seus bancos. O custo será provavelmente do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE). A Alemanha provê um quarto dos recursos do MME. “Assim, a Alemanha tenta em vão não pagar pela crise, mas a ela caberá a maior parte do custo”, conclui Mallaby. Por isso, insatisfação vai virar fúria.

No começo dos anos 1990, a Alemanha concordou com a governança do BCE porque seus líderes do pós-guerra não queriam fazer pressão em favor de seus interesses nacionais e porque precisavam da concordância europeia para a unificação. “Hoje, diz o autor, a Alemanha é mais convencida de sua importância e a unificação é história”. Desse modo, continua ele, “é ingênuo esperar que os alemães tolerem uma governança que implique alto potencial de tributação sem a correspondente representação política”. Afinal, uma organização em que cada país tem um voto já foi tentada. “Basta olhar para a ONU, onde esse princípio serve apenas para que os países poderosos olhem a Assembleia Geral com desdém.”

“Não é tarde para a Europa evitar esse erro”, assinala Mallaby. “Não há nenhuma razão para que o conselho de administração do novo órgão de supervisão bancária não tenha um sistema de voto que favoreça os países ricos, moldado no mecanismo de voto do FMI e do Banco Mundial, que é proporcional ao peso econômico de seus membros.” Certamente esse tipo de voto mostraria que a Europa falhou em concretizar seus ideais pós-nacionalistas. “Mas a crise já deixou isso claro”, conclui o articulista.

Mailson da Nóbrega foi ministro da Fazenda (1988 a 1990) e hoje é sócio da Tendências Consultoria Integrada e membro de conselhos de administração de empresas no Brasil e no exterior. Ele colabora com o Radar Econômico comentando artigos e reportagens da imprensa internacional.

Blog: http://mailsondanobrega.com.br/blog/

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