finanças

E-Investidor: "Você não pode ser refém do seu salário, emprego ou empresa", diz Carol Paiffer

As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Mailson: A Europa precisa fabricar europeus

'A ideia de união econômica esbarrar na ausência de sentimento de nacionalidade europeia'

Carla Miranda

17 de abril de 2012 | 11h26

mailson_da_nobrega.JPGA ideia de criar um espaço econômico único na Europa contrasta com a ausência de um sentimento de nacionalidade europeia, observa Mailson da Nóbrega. Leia comentário abaixo

Uma das afirmações surgidas ao longo da séria crise europeia foi a de que não existem europeus, mas franceses, alemães, italianos, espanhóis, portugueses, gregos… A ideia de criação de um espaço econômico único na Europa dos 27 ou de uma moeda única na Europa dos 17 – que um dia caminharia a para a união política – contrasta com a ausência de um sentimento de nacionalidade europeia. Assim, embora se requeira solidariedade de todos para preservar um bem comum – o euro – os alemães se revoltam quando percebem que pagam impostos para salvar os gregos, tidos como preguiçosos, irresponsáveis, inconsequentes. Os ingleses estão demandando menor interferência da burocracia europeia em seu país. Os franceses podem eleger um presidente de esquerda, François Hollande, que promete desfazer reformas que dariam mais competitividade à França (e portanto à zona do euro) e revogar medidas para reforçar os esquemas financeiros que têm ajudado países em dificuldades (por ora, Grécia, Irlanda e Portugal).

O colunista do Financial Times Gideon Rachman escreveu interessante artigo sobre o tema. Ele começa com a citação de uma frase do intelectual Massimo d’Azeglio, dita logo após a unificação da Itália, em 1861. “Nós construímos a Itália; agora precisamos fabricar italianos.” Os políticos europeus, diz Rachman, enfrentam uma versão moderna do dilema de d’Azeglio. “A menos que eles convençam os cerca de 500 milhões de cidadãos da União Europeia a sentir maior pertencimento à Europa e menos às suas nações, não haverá como adotar as medidas necessárias para salvar o euro”.

Muitos analistas, lembra o colunista, dizem que para sobreviver o euro tem que ser apoiado, ao longo do tempo, por um orçamento federal europeu mais robusto, por uma dívida comum (eurobônus) e por um governo central mais poderoso. Acontece que não existe apoio popular para tanto. “Contribuintes alemães resistem à ideia de maiores transferências de recursos para o sul da Europa. Eleitores gregos e espanhóis não aceitam que seus orçamentos sejam elaborados em Bruxelas. A identidade europeia necessária para fazer a ‘Europa’ funcionar não é forte o suficiente. Mas sem isso a União Europeia se assemelha a um edifício com frágeis fundações, que tenta sobreviver a um terremoto político e econômico”.

A dificuldade de “fabricar italianos” é uma lição para os que lutam para “fabricar europeus”. Mais de 150 anos depois da unificação, a Liga Norte, um poderoso partido de oposição, faz campanha para transformar a Itália em uma federação mais frouxa ou até mesmo em favor do separatismo. “O sul da Itália ainda é uma região mais pobre do que o norte. Alguns alegam que sua relativa estagnação se deve em parte ao fato de a região ser prisioneira de uma união monetária com o norte mais produtivo. Enquanto isso, os contribuintes do norte reclamam das transferências de recursos tributários para o sul e o acusam de corrupção”.

Tal qual na Itália, lembra Rachman, a Europa sofre de uma divisão norte-sul com crescentes ressentimentos entre os cidadãos de um norte mais próspero e um sul economicamente complicado. “De alguma forma, os políticos precisam convencer os dois lados a superar suas diferenças, imaginando-se europeus”. Acontece, adianta o articulista, que “fabricar europeus será muito mais difícil do que fabricar italianos: o processo de formação de identidade terá que acontecer em meio a um extenso território onde prevalecem arraigadas diferenças de língua e cultura”. A Europa precisa, entre outros requisitos, que seus cidadãos aprendam uma língua comum. O candidato natural seria o inglês. “Mas propor que o inglês vire a língua da educação nas escolas francesas seria simplesmente um novo e divertido caminho para cometer suicídio político”.

Rachman lembra a confusão ocorrida recentemente nas eleições francesas quando se anunciou que a chanceler alemã Angela Merkel  faria campanha em favor do presidente francês Nicolas Sarkozy, que concorre à reeleição. Alguns chegaram a enxergar sinais de formação de uma identidade pan-europeia, mas a ideia morreu quando se percebeu que isso equivaleria a dizer que a campanha estaria importando um modelo bem sucedido da Alemanha para a França. Na verdade, o debate eleitoral francês se tornou mais nacionalista. “As autoridades em Bruxelas, convencidas de que a Europa deve pressionar em favor de maior integração, têm ouvido o contrário, isto é, Hollande prometer que vai ‘renegociar’ o novo pacto fiscal europeu e Sarkozy ameaçar sair do acordo sobre livre trânsito nas fronteiras. As eleições na Grécia no próximo mês podem também mostrar uma forte elevação da retórica nacionalista”.

Identidades de grupo podem ser formar em momentos de crise, conclui o articulista, “mas longe de ‘fabricar europeus’ a crise em curso tem encorajado os cidadãos da União Europeia a recorrer às velhas e mais enraizadas identidades nacionais”.

* Mailson da Nóbrega foi ministro da Fazenda (1988 a 1990) e hoje é sócio da Tendências Consultoria Integrada e membro de conselhos de administração de empresas no Brasil e no exterior. Ele colabora com o Radar Econômico comentando artigos e reportagens da imprensa internacional.

Blog: http://mailsondanobrega.com.br/blog/

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: