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Mailson: A YPF será o menor dos problemas da Argentina

Para Moisés Naim, principal desafio do país são as reformas econômicas

Carla Miranda

23 de abril de 2012 | 16h54

mailson_da_nobrega.JPGMailson da Nóbrega* (foto) chama atenção para um artigo de Moisés Naim, segundo o qual o grande desafio da Argentina são as reformas. Abaixo, o comentário de Mailson

 

A recente desapropriação da YPF pelo governo argentino inspirou interessante artigo de Moisés Naim no Financial Times. Ele começa assinalando o que as três grandes estatais de petróleo da América Latina – Pemex, PDVSA e YPF – têm em comum: baixo investimento, má gestão, limitado acesso a novas tecnologias e maltrato de parceiros estrangeiros. “Esses males são naturais manifestações da ação política que tem infestado essas empresas”.

A PDVSA, que ostentava o exemplo de empresa estatal bem gerida tornou-se um mastodonte mal gerido, que também se engajou, em larga escala, na importação e distribuição de alimentos subsidiados, em programas sociais, na agricultura, na habitação e em amplos programas de ajuda externa. “Inevitavelmente, rumores de corrupção e de negócios suspeitos giram em torno dessas empresas. Seu declínio fica mais realçado diante da rápida ascensão da Colômbia e do Brasil como produtores de petróleo”.

Naim parece desinformado sobre a Petrobrás quando afirma que a empresa tem uma “uma estrutura de governança que protege seus administradores da interferência política”. Ao contrário do que diz o articulista, há intervenções inequívocas do governo na Petrobrás, seja na designação de apadrinhados políticos para postos de direção no conglomerado, seja no controle dos preços dos derivados de petróleo, que tem causado seguidas perdas à empresa. Naim está certo, todavia, quando reconhece a Petrobrás como um ator global, cujas descobertas do pré-sal “pode impulsioná-la para o topo da indústria do petróleo quando começar a produzir nos novos campos”.

Sobre a YPF, o articulista diz que a retórica adotada pela presidente Cristina Kirchner no anúncio da desapropriação “não decorreu de uma estratégia ampla, de uma manifestação de nacionalismo em relação aos recursos naturais ou de qualquer outra iniciativa cuidadosa que fizesse parte de um grande plano. A decisão incluiu compadrismo, disputas entre oligarquias rivais, oportunismo político, populismo e desejo de agradar um público descontente com as privatizações dos anos 1990”.

Dado o histórico das estatizações na Argentina, é generalizado o ceticismo quanto às chances de o governo gerir bem a YPY. “Na década passada, a Companhia de Águas de Buenos Aires, a Aerolíneas Argentinas e muitas empresas de energia elétrica, que haviam sido privatizadas, foram reestatizadas com base em argumentos políticos semelhantes aos agora utilizados para assumir o controle da Repsol.” Naim recorre ao economista Jorge Colina, para quem “essas três empresas estatais estão acumulando prejuízos colossais. Ano passado, o subsídio oficial que elas receberam foi 80% maior do que os gastos com programas sociais em favor das crianças”.

A decisão de Cristina aconteceu em meio a uma rápida deterioração econômica e política. “Desequilíbrios econômicos e distorções estão se acumulando e vão atingir o ponto de ebulição, forçando o governo a realizar dolorosos ajustes até agora evitados. A Argentina enfrenta inflação elevada, desaceleração do ritmo de crescimento, subsídios crescentes, controle de preços, fugas de capital, infraestrutura decadente e um ambiente pouco atrativo para investidores estrangeiros. Tem sido limitado o acesso ao sistema financeiro internacional desde o calote da dívida externa de 2001. Muitos de seus antigos aliados a abandonam e agitações trabalhistas se tornam mais frequentes”.

A questão, diz Naim, não é se a Argentina vai promover as mudanças de política econômica para colocar o país numa trajetória sustentável, mas quando. “O país precisa ajustar-se, pois cedo ou tarde a situação ficará insustentável, demandando reformas impopulares. Se Cristina continua a adiar as reformas, seus últimos dias de governo serão um pesadelo político e econômico. Nesse caso, a estatização de outras empresas não trará qualquer benefício e a YPF será o menor de seus problemas”.

Mailson da Nóbrega foi ministro da Fazenda (1988 a 1990) e hoje é sócio da Tendências Consultoria Integrada e membro de conselhos de administração de empresas no Brasil e no exterior. Ele colabora com o Radar Econômico comentando artigos e reportagens da imprensa internacional.

Blog: http://mailsondanobrega.com.br/blog/

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